Artigos - O que são recaídas? Acontece por acaso?

O que são recaídas? Acontece por acaso?

Por: Emílio M.

01). – Denominamos de recaída quando alguém abstêmio ou sóbrio graças à A.A. se embebeda. Isto pode acontecer nos primeiros dias, meses ou até depois de vários anos de abstinência ou sobriedade. Aqueles que passaram por esta desafortunada experiência, declaram que deram sorte para o azar, esquecendo sua impotência alcoólica e desenvolvendo excessiva confiançaquanto à sua capacidade para controlar a bebida. Porém, a maioria confessa seu afastamento das reuniões de A.A. e do convívio com outros membros. Atribuindo prioridade aos assuntos sociais, de negócios ou de outra natureza e exagerando nestas atividades cansaram e perderam suas defesas emocionais, mentais e espirituais. Alguns se supunham “curados”; e, esquecendo da programação proposta pela nossa Irmandade, ingeriram o 1º gole, reativando a doença de que são portadores.

02). – Assim fica bem entendido que no alcoolismo, como em qualquer outra doença, a falta de cuidados com o tratamento, as recaídas acontecem, independente do tempo que se esteja sem beber. Sendo verdadeiro que, quanto maior o período de abstinência ou sobriedade, menor a possibilidade de recair, muito mais verdadeiro é que, a atribulação que ela imporá muito maior será.

03). – Por experiência própria afirmo que nada, neste mundo, é mais calamitoso e tenebroso do que a recaída alcoólica. Ela sempre existiu e continuará existindo, pois nenhum de nós está curado ou vacinado contra o alcoolismo; assim, qualquer desleixo poderá ser fatal. Como a bússola aponta para o pólo norte – a mente do alcoólico, pela peculiaridade da doença, aponta para o álcool. Para aqueles que nem eu, portadores de patologia associada (comorbidade). No meu caso graves surtos de depressão endógena do tipo bipolar (Outrora denominada de PMD – Psicose Maníaca Depressiva), os cuidados devem ser redobrados. Preciso tratar destas patologias concomitante, caso contrário o perigo é extraordinariamente maior e associar isso, a prática dos princípios de A.A. deve ser levada a sério – Só Por Hoje – até a morte chegar, mas não pelo alcoolismo ativo.

04). – “A idéia de que de algum modo, algum dia, vai controlar e desfrutar da bebida constitui a grande obsessão de todo bebedor anormal. A persistência dessa ilusão é incrível. Muitos a perseguem até as portas da loucura e da morte”.

05). – A experiência de A.A. explica o que são as recaídas, que elas não acontecem por acaso e que podem ser evitadas desde que a manutenção da sobriedade tenha prioridade máxima.

06). – Considerando a gravidade de uma recaída permito-me tecer alguns comentários, que poderão ajudar-me e, quiçá, ajudar-te:

06A). – É indispensável eu estar alerta aos sinais que antecedem uma recaída, alguns dos quais passo a descrever: a) Coloco em segundo plano as reuniões de A.A; b) Compareço mas falo dos outros ou até de mim mesmo, porém fico na defensiva; c) Critico nossos servidores, a coordenação, a experiência, mesmo papo de insanidade eu ouvia sim, mas no botequim.

06B). – Substituo as idéias e sugestões da programação pelas minhas próprias. Ignoro que os Passos são Doze e não dois. Desejo praticar o programa ao meu modo, pois no meu caso pode ser diferente. Desenvolvo displicente autoconfiança, tipo – Beber? Eu? Jamais! Isso nem me passa pela cabeça, afinal já sofri tanto. Sou alcoólatra, mas não sou burro. Assim mantenho uma abstinência teimosa e sofrida. Faço pouco caso quanto a gravidade do alcoolismo, doença tríplice, incurável e fatal. Esqueço que é Só Por Hoje! Que só eu posso, mas não posso sozinho.

06C). – Na solução de problemas, julgo-me auto-suficiente e não recorro ao Terceiro Passo, até porque, nem acredito no Segundo.

06D). – Será que alguma vez disse ou pensei: “Eu faço o meu Quarto e Quinto Passos nas reuniões de A.A. ou só na presença de Deus?” Se assim for, me declaro irresponsável ou no mínimo mal informado. Isso é conversa fiada. Não liberta. Não funciona. Não resolve. Não alivia. Não gera sobriedade. Só tumultua e piora cada vez mais. Além disto o Quinto Passo é bem claro: “Admitimos Perante Deus, Perante Nós Mesmos E Perante Outro Ser Humano, A Natureza Exata De Nossas Falhas”. E não perante Outros Seres Humanos. Existem particularidades que só revelo ao meu padrinho de Quinto Passo e a mais ninguém.

06E). – “Prontificamo-nos Inteiramente A Deixar Que Deus Removesse Todos Esses Defeitos De Caráter”. Esses, Quais? Aqueles que identifiquei no Quarto Passo; verbalizei no Quinto e agora, com a ajuda d’Ele, aos pouco, os eliminarei trabalhando o Sexto Passo.

06F). – Será que como posso semear a mais bela, formosa e rica de todas as sementes, a da humildade, preconizada no Sétimo Passo, em terreno infestado por ervas daninhas ou num matagal? Se minha casa está alugada para um mau, como posso alugá-la para um bom? Como posso obter humildade, se trapaceio até na programação de A.A. – questão de vida ou morte?

06G). – Como posso relacionar os prejudicados e repará-los? Se ainda me julgo o único prejudicado?

06H). – Como posso, fazer os inventários: Relâmpago, Diário e Periódico? Se continuo chafurdando no lamaçal deixado pela pior das enchentes, a
alcoólica?

06I). – Como posso desfrutar da quietude interior, da paz e da harmonia possibilitadas pela prece e a meditação? Se continuo me rebelando contra Deus? Como posso entrar em consonância com a Consciência Divina se continuo embrulhado nos meus defeitos e na própria vida?

06J). – Posso até levar a mensagem aos sofredores, mas e quanto ao despertar espiritual prometido para quem pratica o programa? Como posso exercer os princípios, inseridos nos Passos, em todas as minhas atividades diárias, se nem os conheço?

06L). – De muito longe, mas muito longe mesmo sobriedade é só parar de beber. Preciso modificar-me e para melhor. Fui convidado para o banquete dos Doze Passos. Não quero contentar-me apenas com as migalhas do Primeiro e parte do Décimo Segundo Passo. Seria insensatez.

06M). – Quero ser feliz, mas não sei como ou não faço a minha parte. Busco a felicidade nas coisas e não dentro de mim. Valorizo mais o ter do que o ser, o material do que o espiritual, a promoção do que a atração, a força de vontade do que a boa vontade, o intelecto do que a humildade e sou mais fachada do que alicerce. Assim raciocinando e agindo traço metas além do meu potencial, porque tenho medo de não ganhar o suficiente ou de perder aquilo que já tenho. Desta forma exijo demais de mim e dos outros, afinal a felicidade está nas coisas e não em mim.

06N). – Desafortunadamente, penso, ajo e trabalho compulsivamente. Não doso minhas atividades. Exagero! Descuido dos horários das refeições, do sono e do lazer. Sinto cansaço físico e mental. Estou esgotado! E acaso não deveria estar?

06O). – Fico mal humorado, triste, ranzinza, azedo, irritado, tumultuado, confuso, preocupado, revoltado, com raiva, muito nervoso, frustrado e deprimido.

06P). – O ideal seria dedicar-me oito horas ao trabalho; oito horas entre atividades comunitárias, A.A. e lazer; finalmente oito horas para o necessário repouso.

06Q). – Se não estiver agindo assim é melhor PARAR, em inglês escreve-se HALT, Hunger = Fome; Anger = Raiva; Loneliness = Solidão e Tiredness = Cansaço. Portanto, diante da Fome; Raiva; Solidão ou isolamento e Cansaço ou fadiga. Pare, pois sinalizam perigos de recaída iminente.

06R). – Se eu continuar nesse porre seco, crio uma visão de túnel, isto é, tenho uma idéia empobrecida dos perigos que me cercam. Não consigo avaliar aquilo que está acontecendo comigo e em torno de mim. Começo a me queixar de A.A., das reuniões, dos companheiros, dos familiares, do trabalho, dos amigos, do clero, dos subalternos, dos superiores, dos governantes, da mídia, do cachorro, do gato, do mundo e acima de tudo de mim mesmo. Julgo que tudo está difícil. Que ninguém colabora comigo e, o pior, que nem me entendem. Os mecanismos de defesa se reinstalam. (Negação, racionalização, projeção, minimização…). Lembra-se deles ou já os esqueceu? Procuro saídas erradas como: viagens, praias, pescarias. (Posso e devo desfrutar desde lazer, desde que não seja como mera fuga geográfica).

06S). – Já sei tudo sobre a doença e à Irmandade. Sou professor em A.A. Mas, continuo com os velhos hábitos. Por puro orgulho, mascarado de vergonha, rejeito ajuda embora saiba que funciona sempre. Mas, só para os outros, não para mim. Daí caio na pior das armadilhas, para melhorar um pouco dos “nervos” uso calmantes – (Benzodizipínicos).

06T). – Mesmo quando tudo está bem e sinto euforia, preciso vigiar-me, pois a idéia de beber pode surgir e diluir os horrores do alcoolismo ativo, cedendo lugar à falsa idéia de que “uma só bebida” poderia não ser tão ameaçadora, perigosa ou fatal. Mas, repito, meu grande espinho – na carne, na mente e na alma – é a depressão profunda. Para aliviá-la recorro aos Benzodiazipínicos que, fatalmente, me induzem ao copo. Por gratidão registro aqui o zelo que os meus dois padrinhos me dispensam quando decido visitar o inferno. O padrinho Amaury com firmeza mas também com a polidez que sempre o caracterizou, habilidosamente, me persuade que retorne ao Grupo de origem e revele minha desventura. O padrinho Guilherme, que é padre me presta socorro com conotação Divina. Aborda-me com dureza, mas profundo amor cristão – indo muito além do habitual. Ele faz lembrar aquela estampa de Jesus segurando no colo a ovelha que esteve perdida.

06U). – Agora me restam duas saídas: Retornar à A.A. e reconquistar a alegria de viver em paz ou mergulhar na desgraça bêbada cujo infortúnio conheço e os que me são queridos também.

06V). – Alguns anos atrás assistia, numa rede de TV, a maratona de idosas.
Aquela que corria em primeiro lugar, com uma diferença de mais ou menos 18 metros em relação à segunda colocada sofreu uma queda. O repórter perguntou-lhe: “A Sra. caiu?” Ela, rapidamente, enquanto se levantava respondeu: “Não Sr., eu não caí – eu me levantei!”.

06X). – Não posso esquecer que cada qual atrai o seu igual. E o meu igual está numa sala de A.A. ou no bar. Assim, apesar da eventual vergonha, da culpa e da humilhação reassumo a programação com maior empenho e honestidade. Compartilharei com os companheiros meu infortúnio sem minimizar. (Melhor no grupo que adotei). Nunca é demais lembrar que no A.A. serei sempre muito bem vindo e compreendido. Só um insano pensa diferente.
Reconquistar a sobriedade perdida e a alegria de viver está ao alcance de qualquer recaído que o desejar.

06Z). – O grande antídoto para as recaídas é a prática do programa de A.A. na sua globalidade: Recuperação – Unidade – Serviço. Lembrando-me que a recaída é o fruto do acúmulo de emoções negativas não verbalizadas nas reuniões. Acúmulo que me leva à bebedeira seca ou “porre seco” e dai ao garrafão. Agora valorizarei muito mais a freqüência nas reuniões E as experiências dos AAs. “Na Escola Da Vida Não Há Férias!” Penso que o companheiro que recai constantemente, mesmo freqüentando reuniões, corre o perigo de perder a esperança de tudo, até de A.A. Isso pode ser fatal. É brincar de roleta russa.

07). – O psiquiatra, Dr. William D. Silkworth foi pioneiro no tratamento do alcoolismo nos Estados Unidos da América do Norte. (Foi o médico que internou e tratou o Bill W.). E, na longínqua década de 30 escreveu o artigo que, pelo seu valor histórico transcrevo na íntegra:
“O Dr. Silkworth acreditou que essas recaídas têm ocorrido simplesmente porque o alcoólatra deixou de seguir as direções (A.A. Grapevine, Vol. III, Nº 8): ‘A “recaída” do alcoólatra, como é conhecida em Alcoólicos Anônimos, fornece um exemplo perfeito de como a natureza humana pode ser confundida com o comportamento do alcoólatra. A “recaída” é uma reincidência que acontece após o alcoólatra ter parado de beber e tenha ingressado no programa de recuperação de A.A. As “recaídas” geralmente ocorrem nos primeiros estágios do aprendizado do alcoólatra em A.A., antes dele ter tempo de aprender o suficiente a técnica e a filosofia de A.A. para dar-lhe uma base firme. Porém as “recaídas” podem também ocorrer após um alcoólatra ter sido membro de A.A., por muitos meses, ou ainda por diversos anos e é neste tipo, sobretudo, que alguém encontra uma semelhança marcante entre o comportamento do alcoólatra e o das vítimas “normais” de outras enfermidades.Ninguém está assustado pelo fato das reincidências não serem incomuns entre os pacientes tuberculosos cuja doença havia sido estacionada. Porém aqui está um fato surpreendente – a causa é geralmente a mesma daquela que conduz o alcoólatra para as “recaídas”… A mesma tragédia pode ser encontrada em pacientes cardíacos…
Em ambos os casos, cardíacos e tuberculosos, os atos que determinaram as reincidências foram precedidos por pensamentos errados. O paciente em cada caso ponderou a si mesmo e achou que estava curado da sua própria realidade perigosa. Ele deliberadamente se desviou do seu conhecimento de que havia sido vítima de uma doença muito séria. Tornou-se confiante em excesso e decidiu que não teria que seguir as instruções médicas. Agora, isto é precisamente o que acontece com o alcoólatra – o alcoólatra parado de beber, ou o alcoólatra em A.A. – que tem uma “recaída”. Obviamente ele pensa durante algum tempo, antes de tomar uma bebida e finalmente toma. Ele começa antes a pensar coisas erradas e mete-se finalmente no curso que o leva à uma “recaída”. Não há mais razão para atribuir a “recaída” ao comportamento do alcoólatra do que há para atribuir uma recaída do tuberculoso ao comportamento do tuberculoso, ou um segundo colapso cardíaco ao comportamento do cardíaco.
A “recaída” do alcoólatra não é um sintoma de uma condição psicótica…O paciente simplesmente não seguiu as direções. Para o alcoólatra, A.A. oferece as direções. Um fator profilático vital, especialmente para o alcoólatra, é a emoção encorajadora. O alcoólatra que aprende algumas técnicas ou os mecanismos de A.A., mas não capta a filosofia ou o espírito, pode cansar-se de seguir as direções; não porque ele seja um alcoólatra, mas porque ele é humano. As regras e os regulamentos aborrecem quase todo mundo, porque eles são restritivos, proibitivos e negativos. A filosofia de A.A., todavia, é positiva e proporciona ampla emoção encorajadora, um desejo encorajador de seguir voluntariamente as direções.’

08). – Transcrevi o artigo de um profissional da década de 1930, a seguir fragmentos de um artigo desta década. São do Dr. Lais Marques Da Silva, ex-presidente da JUNAAB, Custódio não alcoólico. Grande amigo dos AAs., e até hoje nosso incansável colaborador, escreveu ele:
“As recaídas são fatos observados com freqüência. Ignoramos na quase totalidade dos casos, suas causas e mecanismos, mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial a recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo…
Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as explicações habituais?
Não havia chegado ao fundo do poço. Não estava pronto. Não fez o que eu aconselhei, ou ainda, recaiu porque não freqüentava mais o grupo? Será que o grupo se detém sobre o programa de recuperação de A.A?” Mais adiante prossegue: “A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle”.

09). – Freqüentar ou não lugares onde servem bebidas? Pessoalmente evito ou vou acompanhado de um AA. Bill W. afirma: “Geralmente não evitamos um lugar onde haja bebida – se temos uma verdadeira razão para estar lá. Isso inclui bares, clubes noturnos, bailes, recepções, casamentos, até simples festinhas. Você vai notar que incluímos uma importante restrição. Assim, pergunte a você mesmo: “Tenho alguma boa razão social, comercial ou pessoal para ir a esse lugar?” “Ou espero roubar um pouco de prazer vicário do ambiente?” Então, vá ou se afaste, de acordo com o que lhe parecer melhor.
Mas, antes de decidir, esteja certo de que sua base espiritual é sólida e de que seu motivo para ir é bom. Não pense no que você vai obter na ocasião.
Pense no que você pode levar. Se não tiver firme, talvez seja melhor você trabalhar com um outro alcoólico!”

11). – Permitam que explore um pouquinho mais esse particular. Já descobrimos muitas maneiras de lidar com situações onde outros bebem e podendo nos sentir bem sem beber. Não podemos impedir que os outros bebam, nem renunciar ao prazer da companhia deles, embora seja mais sensato estar com quem não bebe. As pessoas que não podem comer camarão, peixe, nozes, morangos ou doces não se escondem em cavernas. Porque o faríamos nós?

11A). – No inicio da abstinência, é recomendável mantermos-nos afastados dos copos e dos lugares onde bebem. Podemos dar desculpas para não ir às festas onde beber é o grande divertimento. É importante afastarmo-nos destas situações se elas nos causam mal estar. Tendo mesmo que ir e sabendo de antemão a hora que começa a festa, podemos chegar mais ou menos quando o jantar é servido. Muitos de nós fazemos isto. Se houver uma noitada de copos depois do jantar é melhor sair mais cedo. Poucos ou ninguém notará nossa saída. Chegando antes do jantar, dirijo-me ao bar e peço um refrigerante num copo com uma rodela de limão e gelo. Ninguém saberá se é ou não uma bebida alcoólica. Assim posso confraternizar sem precisar suportar as investidas do garção e sua bandeja. A experiência acumulada de A.A. sugere várias formas de como lidar com êxito nestas situações. Ademais, qualquer companheiro mais antigo pode dar dicas de como lidar melhor com essas armadilhas. Se preferir dar desculpas, as seguintes parecem razoáveis. Não estou bebendo por razões de saúde. Estou fazendo dieta. Estou tomando antibiótico. O álcool me causa um tremendo mal estar. Já bebi tudo o que tinha direito. Já bebi tudo o que podia e descobri que não me cai bem. Tenho uma espécie de alergia ao álcool.
Muito obrigado, hoje não quero beber nada.

11B). – Atualmente, minha explicação é muito mais direta, honesta, sincera, eficaz – não bebo porque sou portador da doença do alcoolismo e, se eu beber um único gole não consigo mais parar, mesmo depois de estar completamente bêbado. Com esta explicação já recebi vários pedidos de ajuda. “Olha meu pai, minha mãe, meu tio, meu cunhado …” e por ai afora.

12). – Os relatos dos recaídos são estarrecedores. A maioria detona tudo aquilo que ainda haviam preservado. Muitos não suportando tamanha desventura se suicidam. O desespero, o transtorno emocional, espiritual e até mental e o agravamento da insanidade é tão intenso que os impedem de raciocinar que todo suicida sempre mata a pessoa errada. Citarei alguns casos:

12A). – Um padre, 18 anos sóbrio, recaiu numa tarde. Na madrugada seguinte enforcou-se na sacristia da igreja.

12B). – Um bom pai, de ótima família e reputação ilibada recaiu num final de semana. Na noite de domingo enforcou-se num pessegueiro.

12C). – Um consagrado jornalista, detentor do maior premio do jornalismo brasileiro, bebeu e na mesma noite suicidou-se com um tiro na cabeça.

12D). – Um companheiro magnífico, no desespero entre beber ou não, ao invés de pedir ajuda, jogou-se do alto de um prédio.

12E). – Outro companheiro bebeu. Internou-se e não suportando a desesperança, suicidou-se cortando as duas jugulares com um pedaço de vidro dentro do hospital.

12F). – Um homem bem sucedido, em quase tudo. Estava sem beber, mas sem a programação. Sentia-se muito infeliz. Enforcou-se numa viga da garagem.

13). – Muitas centenas de companheiros que recaíram, não tiveram uma segunda oportunidade. Alcançaram a morte bebendo. A insanidade reinstalada é tão traiçoeira que impede enxergar a saída que, sabemos estar logo ali.

14). – “Sabemos que enquanto o alcoólico se mantém afastado da bebida, ele geralmente reage do mesmo modo que as outras pessoas. Estamos igualmente convictos de que, quando ele ingere álcool, alguma coisa acontece, tanto no sentido físico como no mental, impedindo-o virtualmente de parar. A experiência de qualquer alcoólico confirmará isso plenamente. Seriam desnecessárias e acadêmicas essas observações, se o indivíduo nunca tomasse o primeiro gole, pois este é o que põe em movimento o terrível círculo vicioso…”.

15). – Nossa maior ameaça, desde os primórdios de A.A., é a recaída. De sorte que resumirei alguns relatos do Livro Azul, inicio com a catastrófica relutância de um companheiro, homem inteligente, de boa família, honrado, querido, bem casado, pai admirável, filhos educados, bem relacionado, dinâmico, trabalhador, responsável, honesto, recordista na 2ª Guerra Mundial, exímio vendedor, dono de uma lucrativa revenda de automóveis, normal em tudo, salvo, seu alcoolismo. Quando bêbado tornava-se violentíssimo. Foi internado num manicômio. Após sua alta, Bill W., lhe contou sobre seu alcoolismo e recuperação. Rapidamente parou de beber.
Restabeleceu sua família. Assumiu o cargo de vendedor na empresa da qual fora proprietário. Tudo andou bem durante algum tempo. Não se desenvolveu espiritualmente. Veio o desencanto. Embebedou-se umas seis vezes em rápidas sucessões. Em cada recaída, analisava as possíveis motivações. Ele concluiu ser um alcoólico típico e que se continuasse bebendo voltaria ao manicômio e perderia tudo. Apesar disso bebeu com a desculpa, de ter discutido com o
chefe. Saiu para visitar um cliente. Entrou num restaurante para comer algo.
Não pensava em beber. De repente teve a idéia de misturar uma dose de uísque no copo de leite. Sentiu-se fortalecido e repetiu a receita várias vezes.
Assim, retornou ao sanatório com a ameaça de perder a própria vida.

16). – Podemos chamar isso de loucura. É inacreditável como a obsessão pelo álcool dribla até a inteligência privilegiada. Já atribuímos nossas recaídas a circunstâncias tais como: depressão, ciúme, inquietação, irritabilidade, nervosismo, cólera e etc. Parecem boas razões, mas falsas – face ao sofrimento que a bebida exige e impõe.

17). – O comportamento do alcoólico é tão louco como alguém com o impulso de ziguezaguear pelo meio do trânsito intenso. Fica feliz correndo entre os carros em movimento; continua se arriscando, apesar das recomendações contrárias. É classificado como esquisito. Sofre inúmeras fraturas; interna-se para tratamento; recebe alta e continua com sua maluquice, até fraturar a coluna ou o crânio e ficar paraplégico ou morrer. A obsessão pelo álcool supera tudo aquilo que podemos imaginar. Alguns podem julgar a comparação exagerada e louca. Mas, não é. Nós que mordemos a isca do alcoolismo sabemos que, basta substituir a palavra ziguezaguear pelo 1ºgole. Todavia, apesar de tão bem informados sobre a doença, por que não o evitamos? A compulsão é tão intensa e traiçoeira que faz lembrar uma forma de loucura, ou qual outra designação um quadro de recaída poderia receber?
Qual será a razão deste comportamento suicida? Sabendo ele, pela própria experiência, que um único gole o leva a catastróficos resultados, e ao mesmo cortejo de sofrimentos e humilhações. Cadê aquela força de vontade que quase nunca nos falhou em relação a outros assuntos? Este é um enigma para o qual ainda não temos uma resposta satisfatória. Todavia, sabemos que se o alcoólico evitar a bebida, o que é plenamente possível, (todos já comprovamos isso) poderá reagir como outro homem qualquer ou até melhor. Com o 1º gole acionamos o terrível circulo vicioso de insanidade física, mental e espiritual que dificulta, cada vez mais, o desejo de parar de beber. Qualquer AA poderá corroborar esta verdade. Podemos apresentar inúmeras desculpas para justificar uma recaída; algumas até com certa lógica, porém todas carecem de fundamentação, face ao tremendo sofrimento que exigem e impõem. Que diríamos para alguém que, sentindo uma brutal dor de cabeça, a golpeasse com uma marreta para aliviar a dor? O alcoólatra por longo tempo alimenta a idéia maluca de que um dia poderá controlar a bebida; até descobrir ser isso absolutamente impossível. Para nós e, principalmente, para os não alcoólicos este é um fato de difícil compreensão. Se queimarmos parte do nosso corpo ou levarmos um grande choque elétrico teremos muito cuidado com o fogo e a eletricidade; e por que, em relação à bebida alcoólica, nosso comportamento é tão diferente e até inconcebível?
Ingenuamente e sinceramente iludidos juramos beber somente uma e, após a terceira dose, esmurramos o balcão dizendo: ‘Estou novamente embriagado, que posso fazer ?..Bem pararei na sexta dose…ou então… De que adianta parar agora?”

18). – As peripécias de Frederico, bom filho, bom namorado, bom marido, bom pai de filhos bem encaminhados, bom amigo, bom profissional, dono de uma empresa, bem relacionado, mas também bom de copo. Internou-se para tratar “dos nervos”. Era sua primeira experiência deste tipo. Sentia-se envergonhado e humilhado. O médico lhe informou da gravidade do seu alcoolismo. Foi abordado; não aceitou nosso programa. Tinha certeza que, com a humilhação e arrependimento impostos, não beberia até o fim de sua vida. Ademais, seu conhecimento e firme determinação, seriam a solução definitiva do problema. Não deu mais notícias, até o dia em que se internou novamente e mandou chamar Bill W., contando-lhe a história que transcrevo na íntegra:”Fiquei muito impressionado com o que vocês me explicaram sobre o alcoolismo e, francamente, não acreditei que seria possível eu tornar a beber. Apreciei bastante suas idéias sobre essa loucura momentânea que antecede o 1º gole, mas confiava em que não podia acontecer a mim depois do que havia aprendido.
Raciocinei que eu não era um caso tão avançado, como a maioria de vocês, e que normalmente havia tido êxito na resolução dos meus problemas pessoais.
Portanto, eu teria êxito onde vocês haviam fracassado. Pensei ter toda razão em sentir-me confiante e que era somente questão de pôr em prática minha força de vontade e ficar atento”.
“Neste estado mental prossegui com meus negócios e durante algum tempo tudo andou bem. Não me era difícil recusar bebidas e comecei a pensar que talvez houvesse tomado muito a sério um assunto tão simples. Um dia fui a Washington para apresentar um depoimento sobre contabilidade a um órgão do governo. Já havia estado fora de minha cidade durante este período de sobriedade, de modo que não havia nada de excepcional nessa viagem.
Fisicamente, sentia-me ótimo. No negócio, tudo correu bem; estava contente e sabia que os meus sócios também estariam. Era o fim de um dia perfeito, sem uma nuvem no horizonte. Voltei ao meu hotel e me vesti para o jantar, sem nenhuma pressa. Ao entrar na sala de refeições, veio-me à mente a idéia que seria delicioso tomar um par de coquetéis com o jantar. Só isso. Nada mais. Pedi um coquetel e minha comida. Depois, pedi mais um coquetel. Após o jantar, decidi dar um passeio. Quando voltei ao hotel, achei por bem tomar só ‘um’ antes de deitar, e entrei no bar. Lembro-me haver de tomado vários outros nessa noite e muitos na manhã seguinte. Tenho uma vaga lembrança de estar num avião, rumo a Nova Iorque, e de encontrar um amigável chofer de táxi no aeroporto, ao invés de minha esposa. O chofer me dirigiu por vários dias. Sei muito pouco sobre para onde fui, o que fiz ou o que falei. Então, veio o hospital, com o terrível sofrimento físico e mental. Logo que recuperei minha faculdade de pensar, rememorei cuidadosamente essa noite em Washington. Não somente me havia descuidado, como não havia oposto a mínima resistência ao 1º gole. Desta vez não havia considerado as conseqüências, nem por um instante. Havia começado a beber tão descuidadamente, como se os coquetéis fossem refrescos. Agora lembrei-me que meus amigos alcoólatras me haviam previsto que, se eu tivesse uma mente alcoólica, o momento e o lugar surgiriam e eu iria beber novamente. Haviam dito que embora eu construísse uma defesa, ela algum dia cairia face a alguma desculpa insignificante para beber. Bem, foi precisamente isso o que aconteceu, e, mais do que isso, o que havia aprendido sobre o alcoolismo nem sequer me veio à mente. Soube, a partir desse momento, que eu tinha uma mente alcoólica. Vi que a força de vontade e o conhecimento próprio não me viriam ajudar nesses estranhos momentos cegos. Nunca havia entendido as pessoas que diziam não conseguir dominar um determinado problema. Agora, entendia.
Dois membros de A.A. vieram visitar-me. Sorriram – fato que não aprecei muito – e depois me perguntaram se eu me considerava um alcoólico e se desta vez me encontrava realmente superado. Tive que concordar com ambas as proposições. Deram-me uma porção de provas de que uma mentalidade alcoólica, como a que eu havia exibido em Washington, era uma condição desesperada. Citaram casos às dúzias de suas próprias experiências. Este processo apagou a última chama de convicção de me sair vitorioso sozinho.
“Então, eles me expuseram a solução espiritual e o programa de ação que cem deles haviam seguido, com êxito. Embora não fosse beato, as suas proposições não eram difíceis de aceitar intelectualmente. Mas o programa de ação, embora inteiramente lógico, era um tanto drástico. Significava que eu teria de atirar pela janela os conceitos de minha vida inteira. Isso não foi fácil. Mas a partir do momento em que decidi pôr em prática o programa, tive a curiosa sensação de que minha condição alcoólica estava remediada, como de fato já se provou que estava”.
“Igualmente importante foi a descoberta de que os princípios espirituais resolveriam todos os meus problemas. Desde aquele dia entrei num modo de vida mil vezes mais satisfatório e, espero, muito mais útil do que o viver anterior. Meu antigo modo de vida não era mau, porém, não trocaria os meus melhores momentos pelos piores que agora tenho. Não voltaria àquela vida, nem que pudesse”.

19). – Outro alcoólico parou de beber aos trinta anos, porque tinha grande ambição profissional. Obteve considerável sucesso. Aposentou-se aos cinqüenta e cinco anos. Reativou seu alcoolismo. Dois meses depois se internou, confuso e humilhado, num nosocômio. Apesar dos internamentos, sua fortuna e invejável força de vontade – morreu de alcoolismo, logo após. Esta poderia ser mais uma grande lição entre milhões de outras. Para sermos enterrados em sobriedade precisaremos sepultar a esperança de que um dia seremos imunes ao álcool. Para sermos alcoólatras e alcançar a morte, não precisamos beber muito e nem por muito tempo.

20). – O alcoólatra é como a cana, ela só dá o açúcar depois de passar por grandes apertos. Se alguém disser para um canceroso, evite comer verduras e ficará curado Ele jamais as comerá e passará longe de gramados por serem verdes e dos quartéis, só porque lá usam roupa verde – oliva. Se, lhe fosse dito – assista duas reuniões mensais e deterás o câncer, ele participaria de duas diárias. Por outro lado o alcoólatra duvida até daquilo que lhe é dito por técnicos qualificados. Bill, afirmou:
“O alcoolismo, não o câncer, era minha doença, mas qual a diferença? O alcoolismo também não era um consumidor do corpo e da mente? O alcoolismo levaria mais tempo para matar, mas o resultado era o mesmo. Então decidi, que se houvesse um grande Médico que pudesse curar a doença do alcoolismo, o melhor que eu poderia fazer era procurá-Lo imediatamente”.

21). – Todos nós conhecemos Os Doze Passos de A.A. sugeridos para a recuperação, talvez muitos não conheçam as seguintes “armadilhas” para uma dolorosa recaída:
“A.- Comece a faltar às reuniões por qualquer motivo, real ou imaginário.
B.- Critique os métodos utilizados por outras pessoas que não estejam em completo acordo com os que você emprega. C.- Alimente a idéia de que algum dia você poderá beber novamente e converter-se em bebedor controlado; C.- Deixe que os outros membros do seu grupo façam o trabalho do Décimo Segundo Passo por você, já que você vive muito ocupado. E.- Adquira consciência de sua “Antiguidade” e olhe cada recém-chegado com ceticismo e ironia. F.- Sinta-se tão satisfeito com seus pontos de vista acerca do programa, que se considere um “velho mentor”. G.- Organize dentro do seu grupo um “clã”, um “grupinho” de poucos membros que absoluta e totalmente concordem com suas idéias. H.- Diga em segredo ao recém-chegado que você não tem necessidade de levar a sério alguns dos Doze Passos. I.- Permita que se aprofunde em sua mente, mais e mais, a grande ajuda que você presta a outras pessoas e não trate de lembrar de que o programa de A.A. está ajudando você. J.- Desqualifique de imediato o membro que haja sofrido uma recaída. L.- Cultive o hábito de emprestar ou pedir dinheiro emprestado a seus companheiros e comece a afastar-se das reuniões para evitar encontros desagradáveis. M.-Convença-se de que o programa de vinte e quatro horas é vital para os “novos”, porém, você já “superou” esta etapa”. FUJA DELAS).

22). – Não preciso entrar em pânico caso surja uma leve vontade de beber, mas, se for compulsão preciso pedir ajuda urgente, nem que ela seja por telefone.

23). – O fato concreto é que eu devo estar preparado para o revezes da vida.
Chova ou faça sol, não preciso beber. Aconteça em minha família um nascimento ou um óbito não precisa beber Observando a beleza da natureza, um abalo sísmico ou um grande terremoto não preciso beber. Na paz ou na guerra não preciso beber. O relato que transcrevo, me fortalece:
“No dia em que a calamidade de Pearl Harbor caiu sobre os Estados Unidos, um grande amigo de A.A. – o padre Edward Dowling, que não era alcoólico, mas tinha sido um dos fundadores do esforçado grupo de A.A., em St. Louis estava passando por uma rua dessa cidade. Como muito de seus amigos – geralmente sóbrios – já tivessem bebido para esquecer as implicações do desastre de Pearl Harbor, o padre Ed estava angustiado com o pensamento de que seu querido grupo de A.A. provavelmente fizesse o mesmo”.
Então um membro, sóbrio há menos de um ano, se pôs a caminhar junto e entabulou com o padre Ed uma animada conversa – principalmente a respeito de A.A. O padre Ed viu, com alívio, que seu companheiro estava perfeitamente sóbrio.
“Como é que você não tem nada a dizer sobre Pearl Harbor? Como você pode suportar semelhante golpe?”
“Bem, respondeu o novato, cada um de nós de A. A. já teve o seu Pearl Harbor particular”. Logo, por que deveríamos – nós, bêbados – nos sentir derrotados com esse golpe?”

24). – Nunca fiz e jamais farei a apologia da recaída, porém ouso dizer que ela tem uma “virtude”, a de convencer um cabeça dura – que nem eu – que o 1º gole estraçalha qualquer alcoólico. Bill W. escreveu uma carta para um companheiro recaído. Ela corrobora com minha assertiva. Eis parte dela:
“Nosso crescimento espiritual e emocional em A.A. não depende tanto do sucesso como de nossos fracassos e contratempos. Se você tiver isso em mente, acho que sua recaída terá o efeito de chutá-lo – escada acima, em vez de para baixo”.
“Nós AAs, não tivemos nenhum professor melhor do que a velha Senhora Adversidade, a não ser naqueles casos em que recusamos o ensinamento”.

25). – Transcrevo o relato abaixo por parecer-me patético, dramático e hilariante: “Então, certo dia, Morgan, nosso homem irlandês, teve uma idéia.
Ele disse: “Já trabalhei no ramo da publicidade e tinha um bom relacionamento com as emissoras de rádio. Conheço muito bem Gabriel Heatter e estou certo de que ele nos daria uma ajuda”. Assim, ele foi ver Heatter e logo voltou todo sorridente. “Garantido”, ele disse, “Gabriel vai nos ajudar”. Naquela época, o Sr. Heatter estava numa rede nacional de rádio com um programa chamado “Nós, o povo”, que consistia de entrevistas com a duração de três minutos. Ele logo se interessou por nossa história. Ele planejou uma entrevista para Morgan, a fim de que esse descrevesse rapidamente sua queda e sua recuperação, para então lhe perguntar a respeitode alguns fatos sobre A.A. e depois fazer uma propaganda do livro. Achamos que isso era simplesmente formidável. E ainda mais que seria divulgado por uma rede de alcance nacional.
…Nesse meio – tempo, Gabriel Heatter tinha marcado a data para a entrevista de Morgan. Faltava apenas uma semana, e todos nós estávamos nervosos. Tendo em mente alguns fracassos anteriores, alguém mencionou uma nota de precaução: – o que aconteceria se Morgan, recentemente com alta do sanatório, estivesse bêbado no dia de sua entrevista radiofônica! Uma dura experiência nos dizia que isso era possível. Como poderia tal calamidade ser evitada?
Muito gentilmente sugerimos ao ressentido Morgan que ele teria que ser trancado num lugar, até a noite da entrevista radiofônica. Foi necessário que Henry apelasse a todas as suas astúcias de vendedor para convencê-lo, porém, o conseguiu. A única coisa que faltava resolver era onde e como poderíamos trancá-lo. Henry (Foi ateísta) que tinha agora sua fé totalmente restaurada, solenemente declarou que “Deus proveria”. Ele se lembrou de que um dos prósperos recém – chegados era sócio do Clube Atlético de Downtown.
Se pagássemos as despesas, poderíamos usar um quarto com duas camas?
Resmungando espalhafatosamente, Morgan foi conduzido para o cativeiro.
Durante vários dias, revezamos para vigiá-lo durante vinte e quatro horas, nunca lhe permitindo que saísse do alcance de nossa vista.
… Uma hora antes da transmissão radiofônica, todos os nossos membros e familiares reuniram-se ao redor de seus rádios para esperar pelo grande momento. Tal como tinha sido previsto, Gabriel falou exatamente na hora marcada. Em todos os lares de nossos membros de New York, sentiu-se alívio quando a voz de Morgan foi ouvida. Ele tinha conseguido chegar ao local da entrevista, sem estar bêbado. …”

26). – Hoje não precisamos ficar trancafiados para evitarmos o 1º gole.
Dispomos de todos os recursos espirituais no Programa de vida sugerido por A.A..
Um companheiro questionou dois especialistas em alcoolismo, sobre: Pedro e Paulo pararam de beber no mesmo dia. Pedro com ajuda de A.A. e Paulo não.
Dez anos sem beber se passaram, quando ambos se encontraram e juntos beberam. O sofrimento de Paulo foi insignificante se comparado com o de Pedro. Porque Pedro sofreu tanto? Com certeza qualquer membro de A.A. tem a resposta. A minha é que: Pedro transitou pelo caminho da espiritualidade e da busca de um melhor equilibro emocional; já tinha boa conscientização e razoável conhecimento da doença e, isto implica em mais responsabilidade, logo o tormento é muito maior.
E Paulo? Paulo continuou vivendo na “ignorância”; tenho afirmado: bendita e santa ignorância.
Muitos dos que recaem indagam por que uma recaída exige e impõe tanto sofrimento? No meu entendimento e experiência – por inúmeras razões, principalmente, por eu ter conhecido os dois lados da moeda: a desgraça bêbada e a graça da alegria em sobriedade; porque, recaindo, percebo que neutralizo meu processo de crescimento espiritual e emocional; a desesperança torna-se minha triste aliada; reinicio uma caminhada rumo à deterioração física e a morte está à minha espreita. E, ainda, porque no alegre convívio com os companheiros inteirei-me da fatalidade do alcoolismo e criei consciência das cruéis armadilhas que nele se escondem; desenvolvi a convicção de que é muito melhor curtir a sobriedade do que morder a isca envenenada e amarga do alcoolismo. Certamente todos já ouvimos: “Não troco os meus piores dias em sobriedade, pelos melhores no alcoolismo ativo”.
Naturalmente, todos sabemos que é Só Por Hoje! E só pela graça de Deus e até quando Ele quiser! Mas, que bom seria se este – Só Por Hoje – que amanhã ontem será, pudesse somar-se, progressivamente, até quando estiver num lugar onde o alcoolismo não será mais ameaça e muito menos problema.

Bibliografia: “Livro Azul Edição Brasileira” – “Livro Azul Edição
Portuguesa”. “Na Opinião Do Bill”, “44 Pergunta e Resposta”, “AA Atinge a
Maioridade”, “Os Doze Passos”, Revistas Vivência”, “Grupos Online:
AA-Sobriedade e AABR”, “Coletânea vol. I e II” – F., Aluízio. Temáticas de
Emílio M. e “O Tratamento do Alcoolismo” Prof. Edwards, Griffith.