Artigos - O sexto e o sétimo Passos nos convidam a abandonar a Onipotência

Se a palavra Deus possui essa significação completamente aberta, então para que serve?
Certamente para relembrar que existem forças superiores fora das pessoas; e dentro das pessoas. Ninguém domina a vida; nem sua própria vida. Ninguém controla a cabeça. Nossos humores, desejos, sonhos e emoções tomam rumos independentes da nossa vontade: são literalmente indomáveis. Nossa vontade não é lei. Nem para nós mesmos.
Aliás, a psicanálise não fez outra coisa senão tentar depor essa idéia - no fundo moralista - da sabedoria da vontade. É essa idéia de soberania da vontade que dá lugar às idéias de virtude e pecado, de qualidades e defeitos. Parte-se do suposto de que nós somos o que queremos ser e de que tudo depende de nossa têmpera. Por isso, compulsão seria manifestação de debilidade da vontade.
Existem, contudo, na nossa própria mente, força muito superiores à força da nossa vontade. A presença não só das compulsões, mas da paranóias, das tristezas imotivadas, das oscilações de humor e da auto-estima, da instabilidade das idéias, das obsessões, das fobias, das manias não deixam margem a dúvidas: nós não mandamos nem em nós mesmos. Nossa mente manda muito mais em nós mesmos do que nós mandamos nela.
Nós sequer amamos aqueles que queremos amar e nem paramos de amar quando assim o determinamos. Nossa sexualidade segue rumos e caprichos contra os quais nada podemos fazer. Nossa agressividade é manhosa: torna-se brutal quando menos esperamos e cheia de mansidão quando tudo indicava sua brutalidade.
Não somos responsáveis por nossos gostos e preferências, pois não os escolhemos. Fomos, isto sim, escolhidos por eles. Nosso caráter, nossas reações, nosso jeito de ser não são espelho e reflexo de nossa vontade. Somos como somos e não como gostaríamos de ser.
Por isso, qualquer transformação de nosso "caráter" exige um cuidadoso trabalho, um inspirado, competente, permanente trabalho. Precisamos investir o nosso melhor sobre nós mesmos. Precisamos que outros invistam seu melhor em nós. Tudo isso, porém, ainda é pouco. Pode dar certo ou não. Depende de forças misteriosas que não conhecemos e nem controlamos, alheias a nossa vontade. Só nos resta entregarmo-nos a elas. E torcer para um "final feliz".
Por estranho que pareça, só quando desistimos de controlar e dirigir a nossa mente é que se dá um certo desarmamento interno. As partes que nós desejávamos mudar parecem ficar menos armadas, menos defensivas e intransigentes. O tom geral fica menos imperativo, menos inquisitorial. Parece ocorrer uma certa pacificação interior. E esse estado mais pacificado costuma ser solo fértil para transformações. Quando se pressiona menos, muitas vezes se consegue mais. Não é assim fora, com as pessoas do nosso dia-a-dia? Também é assim dentro.
O Sexto e o Sétimo Passos são um convite a essa pacificação, à superação do dirigismo autoritário da vontade. Não se trata de entregar os pontos ou assistir passivamente a desmandos caóticos dos nossos impulsos. Nem se trata de rendição. Trata-se, isto sim, de humildade, de admitir limites inclusive para a força da nossa vontade. Em suma, trata-se da superação dessa mania de tudo poder chamada onipotência.
Aliás, quando os grupos anônimos renunciam aos regulamentos e punições; quando se abstêm de todo tipo de interferência na vida de quem quer que seja; quando se limitam a sugerir, sem jamais admoestar ou censurar; quando a própria sugestão deve ser formulada de modo discreto e não intrusivo; quando a própria divulgação desses grupos deve ser vazada em termos também discretos, sem estardalhaços eles estão sendo exemplarmente sóbrios e abstinentes. Estão realizando uma manobra pedagógica suprema, qual a renúncia a qualquer pedagogia.
Paradoxalmente, o ímpeto de querer melhorar os outros ensinando-os a viver, ou de querer se melhorar recitando para si próprio lições de vida, gera as maiores tensões e os ásperos desencontros, tanto da pessoa com outros, quanto da pessoa consigo mesma.
Freud advertia os jovens psicanalistas sobre os perigos de querer ajudar demais seus pacientes, o que ele chamou de "furor sanandi". E muito da teoria freudiana do superego baseia-se nesse ímpeto pedagógico desmedido. Uma parte da mente arvora-se em dona da verdade e diz à outra como ela deve ser ou proceder: caso esta não se submeta, é atacada e enxovalhada de todas as maneiras. Essa seria a origem profunda de muitas depressões, sensações de inferioridade e sentimentos irracionais de culpa: uma parte da mente, cheia de certezas, ataca a outra, que se recusa a seguir "bons conselhos" sobre o "bem viver" e sobre os "bons caminhos". Essa parte autoritária e conselheira seria constituída pelas figuras paternas internalizadas, o chamado "pai interno".
para essa ausência de moderação na vontade de ajudar, só há um remédio: sobriedade.


Dizendo em outras palavras: o Sexto e o Sétimo Passos, ao relembrarem a existência de forças superiores, são um convite à superação dessa mania de tudo saber ou de tudo poder, ou seja, ao relembrarem Deus, tornam-se um convite à superação dessa mania de querer ser Deus.


* Dr. Eduardo  Mascarenhas   (  Psicanalista  )