Artigos - A misteriosa origem da Oração da Serenidade




A misteriosa origem da Oração da Serenidade


A PRÁTICA DA ORAÇÃO DA SERENIDADE - do livro Viver Sóbrio cap. 7

Nas paredes de milhares de salas de reuniões de A.A., pode-se ver em pelo menos cinco idiomas, a seguinte invocação:

Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária 
para aceitar as coisas que não podemos modificar, 
Coragem para modificar aquelas que podemos, 
e Sabedoria para distinguir umas das outras.

Não foi A.A. que a criou. Diferentes versões têm sido empregadas através dos séculos por várias crenças, e esta é de uso corrente hoje em dia tanto fora de A.A. como dentro da irmandade. Quer pertençamos a esta ou àquela igreja, quer sejamos humanistas, agnósticos ou ateus, a maioria de nós achou nestas palavras um guia maravilhoso para alcançar a sobriedade, continuar sóbrio e desfrutar de uma vivência sóbria. Quer consideremos a Oração da Serenidade uma verdadeira prece ou apenas um desejo fervoroso, ela oferece uma receita simples para uma vida emocional saudável.

Pusemos um item no alto da lista das coisas "que não podemos modificar": nosso alcoolismo. Independentemente do que façamos, sabemos que amanhã não deixaremos, de repente, de ser alcoólicos, como não teremos menos 10 anos de idade ou mais 15 centímetros de altura.

Não pudemos mudar nosso alcoolismo. Mas não dizemos docilmente: "Está bem, sou um alcoólico. Acho que tenho de beber até morrer". Havia alguma coisa que podíamos mudar. Não tínhamos de ser bêbados. Podíamos vir a ser sóbrios. Certamente isso exigia coragem. E foi necessário um lampejo de sabedoria para ver que isso era possível, que podíamos ser outros.

Para nós este foi o primeiro e o mais óbvio emprego da Oração da Serenidade. Quanto mais nos distanciamos do último gole, mais bonitas e mais carregadas de sentido estas poucas linhas se tornaram. Podemos aplicá-las a todas as situações cotidianas das quais costumávamos fugir direto para a garrafa.

Tomemos um exemplo: "Odeio o meu trabalho. Tenho de ficar nele ou posso deixá-lo?". Entra em cena um pouco de sabedoria. "Bem, se eu sair desta firma, as próximas semanas ou os próximos meses poderão ser difíceis, porém acabarei num lugar melhor".

Mas a resposta pode ser: "Enfrentemos a verdade. Os tempos não estão para procurar emprego, tendo uma família para sustentar. Além disso, estou sóbrio há seis semanas apenas, e meus amigos de A.A. dizem que é melhor não começar a fazer mudanças drásticas ainda – devo, é melhor, concentrar-me em não tomar o primeiro gole e esperar até que minha mente se abra. Ora bem, não posso mudar de serviço agora mesmo. Mas talvez possa mudar minha atitude. Vejamos: Como posso aprender a aceitar serenamente o emprego?"

Essa palavra - "serenidade" - parecia quase um objetivo impossível na primeira vez que vimos a oração. De fato, se serenidade significasse apatia, amarga resignação ou resistência impossível, então nem iríamos tentar atingí-la. Descobrimos, porém, que não significava isso. Quando a vemos agora, é mais como plena aceitação, uma maneira nítida e realista de ver o mundo, acompanhada de paz e força interior. A serenidade é como um giroscópio que nos permite conservar o equilíbrio, a despeito da turbulência que nos assalta. É um estado de espírito que vale a pena buscar.

 

LEVAR ADIANTE – Pág. 277 – 2ª Edição

A oração foi descoberta na coluna "In Memoriam" em um número do Herald Tribune de Nova York, em princípios de junho de 1941. 0 texto exato era: "Mãe, Deus me dá a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para perceber a diferença. Adeus". Ruth afirmou que Jack C. chegou uma manhã no escritório e mostrou a ela o recorte com a Oração da Serenidade. "Fiquei tão impressionada quanto ele e pedi que a deixasse comigo, para que eu a copiasse e pudesse utilizá-la em cartas enviadas aos Grupos e aos solitários. Horace C. teve a idéia de imprimi-la em cartões e pagou a primeira impressão."

 

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE – Pág. 189/190 - 5ª Edição

Pouco antes da saída de Ruth, o jornalista Jack, um membro de New York, chamou nossa atenção para um recorte de jornal cujo conteúdo viria a ser famoso. Tratava-se de uma notícia da seção de necrologia de um jornal de New York. Sob o relato comum de uma pessoa que tinha falecido, apareciam as seguintes palavras: "Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras". Nunca tínhamos visto tanto de A.A. em tão poucas palavras. Enquanto Ruth e eu estávamos apreciando a oração e nos perguntando como usá-la, nosso amigo Howard entrou em nosso escritório. Confirmando nossas próprias idéias, exclamou: "Deveríamos imprimi-la em cartões e anexá-la a toda correspondência que sair daqui. Pagarei a primeira impressão.". Durante anos seguimos sua sugestão, e com uma velocidade surpreendente a Oração da Serenidade chegou ao uso geral e tomou seu lugar junto a nossas duas orações favoritas, a Oração do Pai-nosso e a Oração de São Francisco. Ninguém pode dizer com certeza quem primeiro escreveu a Oração da Serenidade. Alguns dizem que ela veio dos antigos gregos; outros acham que ela saiu da pena de um poeta anônimo inglês; ainda outros acham que foi escrita por um oficial da marinha americana e Jack Alexander, que em certa ocasião pesquisou a respeito, atribuiu-a ao Rev. Reinhold Niebuhr, do Seminário Teológico União. De qualquer maneira, temos a oração que é repetida milhares de vezes diariamente. Consideramos que seu autor está entre nossos maiores benfeitores.

 

AS INCERTAS ORIGENS DA ORAÇÃO DA SERENIDADE - (Vivência - Nov/Dez 96)

Durante muitos anos, bem depois da Oração da Serenidade ter sido incorporada ao próprio contexto da vida e do pensamento da Irmandade, a sua origem exata e o seu autor vêm jogando um fascinante e sedutor jogo de esconde-esconde com os pesquisadores, dentro e fora de A.A. É muito mais fácil determinar com precisão os fatos de como, há meio século, ela começou a ser utilizada por A.A.

No início de 1942 - escreve Bill W. em A.A. Atinge a Maioridade - , um membro de Nova York, Jack, chamou a atenção de todos sobre uma nota que aparecia em um comunicado de falecimento, no jornal New York Herald Tribune, que dizia:

"Senhor, concedei-nos a Serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para reconhecer a diferença."

A ESSÊNCIA DE A.A. EM FORMA DE ORAÇÃO

Todas as pessoas que se encontravam presentes no florescente escritório da Rua Vesey, em Manhattan, ficaram impressionadas pela força e pela sabedoria contidas no contexto daquela oração. "Nunca tínhamos visto tanta essência de A.A. em tão poucas palavras", escreve Bill. Alguém sugeriu que se mandasse imprimir a oração em um pequeno cartão, do tamanho de uma cédula, para que fosse incluída em todas as cartas a serem despachadas. Ruth Hock, a primeira secretária da Irmandade (não alcoólica), entrou em contato com Henry B., um membro de Washington D.C., que era tipógrafo profissional, para perguntar-lhe quanto custaria mandar imprimir uma grande quantidade.

A entusiasmada resposta de Henry foi imprimir 500 cópias da oração, com o comentário: "A propósito, eu só sou ingrato quando estou bêbado... de modo que, naturalmente, não pode haver preço para algo dessa natureza".

A DIFUSÃO DA ORAÇÃO

"Com uma rapidez assombrosa", escreve Bill, "a Oração da Serenidade começou a ser utilizada de uma maneira geral, e veio a ocupar o seu lugar junto às nossas outras duas favoritas, o Padre-Nosso e a Oração de São Francisco."

Foi assim que o achado "acidental" de uma oração de autor desconhecido, impressa junto a uma nota de falecimento, abriu o caminho para o uso dessa oração por milhares e milhares de AAs do mundo inteiro.

Porém, apesar dos anos de investigação por numerosos indivíduos, a origem certa da oração está envolta em sombras de histórias e até de mistério. Além disso, cada vez que um pesquisador parece ter descoberto a origem definitiva, surge outro para rebater a afirmação do primeiro, uma vez que apresenta novos fatos intrigantes.

O que está fora de dúvida é o fato da reinvidicação de autoria feita pelo teólogo Dr. Rheinghold Nieburh, que por várias oportunidades relatou a entrevistadores ter escrito a oração como retoque final de um sermão sobre Cristandade Prática, que ele havia pronunciado. Porém, até o próprio Dr. Nieburh deixou entrever ao menos uma certa dúvida à sua afirmação, ao dizer a um entrevistador: "Certamente ela deve ter, por muitos anos, até séculos, aparecido aqui e acolá, mas não o creio. Acredito que eu mesmo a escrevi".

AUTORIA INDEFINIDA

No começo da Segunda Guerra Mundial, com autorização do Dr. Nieburh, a oração foi impressa em cartões que foram distribuídos entre as tropas. Para aquela ocasião, foi também reimpressa pelo Conselho Nacional de Igrejas, bem como por Alcoólicos Anônimos.

O Dr. Nieburh tinha razão ao sugerir que a oração poderia, por séculos, ter "aparecido aqui e acolá". "Ninguém pode dizer com segurança quem foi o primeiro a escrever a Oração da Serenidade", escreve Bill em A.A. Atinge a Maioridade. "Alguns dizem que ela é oriunda dos antigos gregos; outros, que saiu da pena de um poeta inglês anônimo; ainda outros afirmam que foi escrita por um oficial da Marinha americana... ou textos em sânscrito, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, e Espinosa. Recentemente, um membro da Irmandade encontrou no livro do filósofo romano Cícero, "Seis erros do homem", um que diz: "A tendência de se preocupar por coisas que não podem ser modificadas ou corrigidas.".

Na verdade, ninguém achou o texto da oração entre os escritos dessas supostas fontes originais. Muito antigos, como a citação acima, de Cícero, provavelmente são os temas de aceitação, de coragem para modificar o que pode ser modificado e a disposição para desprender-nos do que está fora da nossa capacidade de modificar.

A busca para se determinar, com precisão, as origens da oração, tem sido frustante, porém fascinante, para não dizer mais. Por exemplo, em julho de 1964, The Grapevine recebeu um recorte de um artigo que foi publicado no Herald Tribune de Paris, assinado pelo correspondente do jornal, em Koblenz, na então Alemanha Ocidental. Assim escreve o correspondente: "Em um lúgrube salão de um antigo hotel, com vistas para o Reno, em Koblenz, há uma placa inscrita com as seguintes palavras: 'Deus, concedei-me o desprendimento para aceitar as coisas que não posso alterar; a coragem para alterar aquelas coisas que posso; e a sabedoria para distinguir uma coisa da outra' ".

Estas palavras são atribuídas, escreveu o correspondente, a um pietista (luterano radical) do século dezoito, Friedich Oetinger (1702-1781). Além disso, a placa estava colocada na parede de uma sala, na qual as tropas e os comandantes das companhias do novo exército alemão eram treinados "sobre os princípios de normas e procedimentos do soldado cidadão de um estado democrático".

EVIDÊNCIAS CONCRETAS

Finalmente, a esta altura dos acontecimentos - concluíram os investigadores de A.A. -, havia uma evidência concreta: texto, autor e data da origem da Oração da Serenidade. Essa convicção ficou sem ser contestada durante quinze anos. Depois disso, no ano de 1979, apareceram alguns dados, compartilhados com Beth K. da G.S.O., trazidos à tona por Peter T., de Berlim. A investigação de Peter pôs por terra a autenticidade da paternidade literária do século XVIII, e ainda acrescentou alguns fatos intrigantes acerca da origem da placa.

"A primeira forma da oração", escreveu Beth, "teve sua origem em Boecio, filósofo romano (480-524), autor do livro Os consolos da filosofia. A partir de então, as idéias da oração foram utilizadas pela "gente religiosa, que por suas crenças tiveram que sofrer, primeiro, sob o domínio dos ingleses, logo, dos puritanos da Prússia... em seguida pelos pietistas do sudoeste da Alemanha... depois, pelos AAs... e pelos alemães ocidentais após a segunda guerra mundial."

"Além do mais", continuou Beth, "depois da guerra, um professor da universidade do norte da Alemanha, Dr. Theodor Wilhelm, que dera início a um renascimento da vida espiritual na Alemanha Ocidental, aprendeu a "pequena oração" através de alguns soldados canadenses. Ele havia escrito um livro, no qual incluíra a oração, sem citar o seu autor. No entanto, teve como resultado o aparecimento da oração em muitos lugares diferentes, tais como salas de oficiais do exército, escolas, e outras instituições. Qual era o nome literário do escritor? Friedich Oetinger, o pietista do século dezoito. Tudo leva a crer que Wilhelm adotara o pseudônimo de Oetinger, por admiração a seus antepassados do sul da Alemanha.

"A ORAÇÃO DO GENERAL"

Logo depois disso, em 1957, um membro do departamento pessoal da G.S.O., Anita P., folheando alguns livros em uma livraria de Nova York, deparou-se com um cartão cuidadosamente adornado, no qual estava impresso: "Deus, Todo Poderoso, Nosso Pai Celestial, concedei-nos a Serenidade para aceitar o que não pode ser modificado, a Coragem para modificar o que deve ser modificado, e a Sabedoria para distinguir uma coisa da outra; por Jesus Cristo, nosso Senhor".

O cartão, que era procedente de uma livraria da Inglaterra, tinha como título "A Oração do General", e a data remontava ao século XIV.

Constam, ainda, outras reinvidicações que, sem dúvida, continuarão com as descobertas em anos vindouros. De qualquer maneira, a Senhora Reinhold Nieburh disse mais recentemente a um entrevistador, que seu marido era, sem sombra de dúvida, o autor da oração, pois ela havia visto a folha de papel em que ele escrevera, e que seu marido - uma vez que existiam numerosas variações do texto - "usava e preferia" a seguinte forma: Deus, concedei-nos a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser modificadas, a coragem para modificar as coisas que devem ser modificadas, e a sabedoria para distinguir umas das outras."

UMA PARTE DE A.A.

Mesmo que essas pesquisas sejam fascinantes, estimulantes, e até misteriosas, carecem de importância perante o fato de que, durante cinquenta anos, a oração chegou a ficar tão extremamente incrustada no coração, na alma do pensamento e da vida de A.A., bem como em sua filosofia, que quase se poderia crer que a oraçao teve sua origem na própria experiência de A.A.

Bill fez essa mesma afirmação anos atrás, ao agradecer a um amigo AA pela placa que trazia os dizeres: "Na criação de A.A., a Oração da Serenidade tem sido um bloco de sustentação muito valioso realmente, uma pedra angular". (R.) - Vivência N° 44 - NOV/DEZ 1996. Apesar dos anos de investigação, a origem certa da oração está envolta em sombras de histórias e até de mistério.

 

NA OPINIÃO DO BILL 20

Luz proveniente de uma oração

Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária 
para aceitar as coisas que não podemos modificar, 
Coragem para modificar aquelas que podemos, 
e Sabedoria para distinguir umas das outras.

* * * Guardamos como um tesouro nossa "Oração da Serenidade", porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos. No esplendor dessa oração vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade, por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos. Grapevine de março de 1962.


A misteriosa origem da Oração da Serenidade


Na construção de Alcoólicos Anônimos, a Oração da Serenidade foi o mais valioso tijolo, de fato foi a pedra angular. (Bill W.)

A Oração da Serenidade está profundamente enraizada na vida e no espírito de Alcoólicos Anônimos.

A descoberta de suas origens, de sua autoria, tem sido verdadeiro jogo de esconde-esconde entre pesquisadores dentro e fora de A. A.

A história de sua chegada à nossa Irmandade, há 50 anos, é conhecida. É Bill W. quem conta: "Pouco antes da saída de Ruth, o jornalista Jack, um membro
de A. A. de Nova Iorque, chamou nossa atenção para um recorte de jornal, cujo conteúdo viria a ser famoso. Tratava-se de uma notícia da seção de
necrologia de um jornal de Nova Iorque. Sob o relato comum de uma pessoa falecida apareciam as seguintes palavras: 'Concedei-nos, Senhor, a
serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas
das outras'."(1)

Todos, em nosso escritório da Rua Vesey, em Manhattan, ficaram vivamente impressionados com o conteúdo e sabedoria da oração. "Nunca tínhamos visto
tanto de A. A. em tão poucas palavras". (2)

Alguém sugeriu imprimir a oração num pequeno cartão e distribuí-la com a correspondência expedida pela Sede Mundial.

Ruth Hock, nossa primeira secretária (não-alcoólica), contatou Henry S., um membro de A. A. de Washington, profissional de artes gráficas, perguntando-lhe quanto custaria a impressão de uma certa quantidade daquela oração. A entusiástica resposta de Henry foi a impressão de 500 cópias da oração remetidas à Sede Mundial com a seguinte observação: "Sou apenas um miserável quando bebo... assim, naturalmente, nada cobrarei por qualquer serviço desta natureza".

"... com uma velocidade surpreendente, a Oração da Serenidade alcançou uso geral e tomou seu lugar junto às nossas orações favoritas, a Oração do Pai-Nosso e a Oração de São Francisco". (3)

Desta forma, uma oração que ninguém sabia de onde viera, impressa numa simples notícia do óbito de uma pessoa desconhecida, tornou-se uma prece de uso diário por milhares de membros de A. A. em todo o mundo.

Apesar de anos de pesquisa por numerosos estudiosos, a exata origem da Oração da Serenidade continua envolta num véu de mistério. Além disso, sempre que um pesquisador parece ter encontrado a fonte definitiva, outro surge para refutá-lo e, ao mesmo tempo, acrescentar novos e intrigantes detalhes.

O Dr. Reinhold Nieburr reivindica para si a autoria da oração. Ele declarou, em numerosas ocasiões, ter escrito a oração como introdução para um sermão sobre Cristianismo Prático. Mas o próprio Dr. Nieburr, posteriormente, acrescentou um toque de dúvida à sua reivindicação quando declarou a um dos entrevistadores: "Naturalmente, é possível ter havido algo parecido durante anos ou mesmo séculos, mas eu não penso assim. Acredito honestamente ter escrito a oração".

Durante a IIª Guerra, com permissão do Dr. Nieburr, a oração foi impressa e distribuída às tropas pelo governo dos Estados Unidos. Desde então ela tem sido amplamente impressa pelo Conselho Nacional de Igrejas (dos Estados Unidos), assim como por Alcoólicos Anônimos.

O Dr. Nieburr é bastante preciso ao sugerir ter havido versões semelhantes durante séculos.

"Ninguém pode dizer com segurança quem primeiro escreveu a Oração da Serenidade. Alguns dizem ter ela vindo dos antigos gregos; outros acham que ela saiu da pena de um poeta inglês anônimo; ainda outros afirmam ter sido ela escrita por um oficial da Marinha Americana". (4). Ainda existem outros que vão mais longe, atribuindo sua autoria a antigos textos sânscritos, a Aristóteles, São Tomaz de Aquino, Santo Agostinho e Spinoza. Um membro de A.A. encontrou no filósofo romano Cícero os Seis Defeitos do Homem, entre os quais se incluiu: "A tendência de preocupar -se com coisas que não podemos mudar ou corrigir".

Ninguém encontrou, realmente, o texto da oração entre os escritos dessas supostas fontes originais. Tão antigos quanto a citação de Cícero, acima, são os temas da oração: aceitação, coragem para mudar o que pode ser mudado e deixar fluir livremente o que não temos habilidade para modificar. Procurar a origem definitiva da oração é uma ilusão. Por exemplo, em julho de 1964, A. A. Grapevine (Revista Internacional de A. A. publicada em inglês, nos Estados Unidos) recebeu o recorte de um artigo publicado em Paris, no "Herald Tribune", pelo correspondente daquele jornal em Koblenz, na Alemanha Ocidental, onde se dizia o seguinte: "No saguão ligeiramente sombrio de um hotel usado ilegalmente, com vista para o Rio Reno, em Koblenz, há uma tabuleta com estas palavras: 'Deus dai-me a imparcialidade para aceitar as coisas que não posso modificar; a coragem para alterar as coisas que posso alterar; e a sabedoria para distinguir umas das outras" .

Estas palavras eram atribuídas pelo correspondente a um pietista (partidário do piatismo: movimento de intensificação da fé nascido na Igreja Luterana alemã no século XVIII) do século XVIII, Friedrich Oetinger (1702-1782). A placa estava afixada à parede de entrada do quartel onde as modernas tropas e companhias de comando do novo exército alemão eram treinadas "em princípio de administração... conduta de soldados-cidadãos de um estado democrático" .

Aqui, finalmente, pensaram os pesquisadores, membros de A. A., estava a evidência concreta - texto, autor e data - da fonte primitiva da Oração da Serenidade. Esta convicção permaneceu indiscutida por quinze anos. Então, em 1979, Peter T., de Berlim, mandou para Beth K., do escritório de Serviços Gerais de Nova Iorque, um material capaz de jogar por terra a autenticidade da autoria da oração do século XVIII. Da mesma forma, acrescentava dúvidas sobre a origem daquela placa.

"A primeira forma da oração, responde Beth, originou-se do filósofo romano Boécio (480-524 A.D.), autor do livro 'Consolações da Filosofia'. A essência da oração já era usada desde então por pessoas religiosas, perseguidas primeiro pelos ingleses, depois pelos puritanos da Prússia... depois usada por pietistas do sudoeste da Alemanha... e, então, pelos membros de A.A. ...e através deles, na Alemanha Ocidental depois da II Guerra Mundial".

Além disso, continua Beth, depois da guerra, um professor universitário do Norte da Alemanha, Dr. Theodor Wilhelm, o qual deu início ao renascimento espiritual na Alemanha Ocidental, adquiriu a "breve oração" de um soldado canadense. Ele escreveu um livro no qual incluiu a oração sem mencionar seu autor. O resultado foi o aparecimento da oração em diversos lugares diferentes, tais como vestíbulos de quartéis, escolas e outras instituições. Qual era o pseudônimo do professor? Friedrich Oetinger, o pietista do Século XVIII. Wilhelm certamente escolheu Oetinger como nome suposto em virtude da admiração pelos seus ancestrais do Sul da Alemanha.

Retomando ao ano de 1975, outra funcionária do Escritório de Serviço Gerais, de Nova Iorque, Anita R., folheando alguns volumes numa livraria de Nova Iorque, encontrou um belo cartão, luxuosamente adornado, no qual estava impresso: "Deus Todo-Poderoso, Nosso Pai Celestial, dai-nos Serenidade para aceitar o que não deve ser modificado; coragem para modificar o que deve ser modificado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra, por Jesus Cristo, Nosso Senhor".

O cartão tinha vindo de uma livraria da Inglaterra, chamava a prece de "Oração do General" e informava ter ela aparecido no Século XIV.

Existem, ainda, outras reivindicações da autoria da Oração da Serenidade e, não há dúvida, outras descobertas virão. De qualquer modo, a esposa do Dr. Nieburr afirmou, numa entrevista, ser seu marido, definitivamente, o autor da oração e ter ela visto o papel onde a escreveu e que seu esposo - agora que existem muitas versões da oração - usava e preferia a seguinte fórmula: "Deus, dai-me a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser modificadas, coragem para modificar as coisas que podem ser modificadas e sabedoria para distinguir uma das outras" .

Todas essas pesquisas, desafios e mesmo mistérios perdem qualquer significado quando comparados com o fato de que, por 50 anos, a oração tornou-se profundamente enraizada no coração, na alma, na mente, no viver e na filosofia de A. A., de modo que quase se poderia pensar ter a oração se originado da própria experiência de A.A.

Bill W. enfatizou isto anos atrás agradecendo a um amigo de A. A. por uma placa na qual estava escrita a oração: "Na construção do A. A., a Oração da Serenidade foi o mais valioso tijolo do edifício, de fato foi a pedra angular".

E falando em pedra angular, mistérios e coincidências, o prédio onde funciona hoje o Escritório de Serviços Gerais (dos Estados Unidos) está localizado na Rua 120, em Nova Iorque, entre Riverside Drive e a Broadway, onde fica o Seminário Teológico União. E chamado Praça Dr. Reinhold Nieburr.

(Fonte: Box 459.)

Notas: (1) A.A. atinge a maioridade, p. 175

(2) Idem

(3) Idem

(4) Idem


VIVÊNCIA N.° 22 - OUT/ NOV/ DEZ 1992






A ORAÇÃO DA SERENIDADE E A RECUPERAÇÃO EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

 

 

            Depoimentos, feitos por membros de A.A. em reuniões de grupos, frequentemente mostram que os alcoólicos na ativa procuravam ter controle absoluto sobre os seus sentimentos e sobre o seu ambiente. Na chamada “fase ativa”, bebiam para relaxar, para ficar “altos”, para ficar espirituosos, para abrandar a dor - para controlar. Mas, no mundo real, as coisas não são assim e a verdade é que o nosso ânimo depende, em boa medida, de situações e até de pessoas, e elas estão fora do nosso controle. Bebiam também para negar esta dependência.

 

            Ao usar o álcool, procuravam negar a limitação da vontade e também a sua dependência e, aí, ela se tornava absoluta. Procuravam o controle ilimitado e a negação da dependência. Mas, existir como ser humano significa ser limitado e não há absolutos nem ilimitados no nosso humano poder.

 

 O A.A. mostra que somos tanto parcialmente dependentes como também capazes de ter algum grau de controle, que é, desse modo, apenas parcial. Mostra, também, que a verdade é que o ser humano está sempre ajoelhado, a meio caminho entre estar de pé e de estar deitado. Nem sobre pedestal, nem rastejando.

 

            A Irmandade de A.A. sugere: “Levante-se com as suas pernas, pois você pode fazer algumas coisas, mas não todas as coisas”.  O A.A., por outro lado, modera a tendência para a grandiosidade dizendo: “Ajoelhe-se, você pode fazer algumas coisas, mas não todas as coisas”.

 

            Há um jogo de “pode” e “não pode” que é sintetizado, magistralmente, na Oração da Serenidade: ”Concedei-nos Senhor a Serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar (não pode), coragem para modificar aquelas que podemos (pode) e sabedoria para distinguir umas das outras”. ElA retrata a condição humana em relação ao “pode” e “não pode” e mostra o caminho para esse reconhecimento a partir do qual a paz e a serenidade de espírito podem ser alcançadas.

 

            O alcoólico “na ativa” é uma pessoa que “tem” que beber, mas “não pode” beber. Mais tarde, ao longo da prática do programa de recuperação, o alcoólico percebe que não abre, propriamente, mão da “liberdade de beber” mas que ganha a “liberdade de não beber” e compreende que o alcoólico não é uma pessoa que “não pode beber” mas sim uma pessoa que “pode não beber”, que dispõe de um novo poder, o de não beber. É preciso aceitar o paradoxo para poder entender melhor a natureza humana e esse jogo do “pode” e “não pode”, que é de importância fundamental para se dar conta do nosso humano modo de ser e alcançar a serenidade. Assim, o alcoólico percebe e compreende toda a dimensão de grandeza contida na Oração da Serenidade.

 

            A Oração da Serenidade é comumente atribuída ao teólogo protestante Reinhold Niebuhr que a apresentou nos anos 1940 e, segundo consta, o A.A., em suas reuniões, teria começado a usá-la no ano de 1942. O segredo do poder dessa oração está na sua linguagem humilde, nas suas lições simples e na sua história não particularmente romântica. É uma mensagem tanto pessoal quanto universal, tão fácil de entender quanto difícil de aplicar na prática. É uma oração simples, mas poderosa e útil, um guia para a integração espiritual, para o equilíbrio emocional, para nos relacionarmos com a nossa vida e ainda para alcançarmos algum grau de serenidade.

Até aqui, nos detivemos no primeiro tesouro da oração, que poderíamos chamar de “conhece a ti mesmo”, célebre dito de Sócrates. O filósofo não estava voltado para o fundamento da teoria das coisas (arké), mas sim para a nossa relação conosco mesmo, com os outros e com o mundo. Sócrates tomou as palavras do dito de uma inscrição, existente num templo na cidade de Delfos, na Grécia, para construir a sua filosofia. Ele não estava preocupado com as coisas: riqueza, fama e poder, mas com o caminho de acesso à verdade e aqui, não uma verdade qualquer, mas com a verdade que transforma o nosso próprio ser, ou seja, que promove a nossa auto-transcendência. Vamos refletindo acerca do que é preciso mudar quanto a nossas ações e atitudes e de como podemos fazer para modificá-las. Isso é algo que podemos fazer sempre e, assim, vamos nos construindo gradativamente; como um artista constrói a sua obra de arte, vamos nos moldando e aperfeiçoando ao longo do caminho de recuperação. Nesse ponto, é oportuno lembrar outro pensamento muito importante na história da humanidade, esse de Píndaro, pensador e poeta grego: “Homem, torna-te o que tu és”.

 

O outro tesouro da oração está na busca da sabedoria necessária para distinguir as coisas porque, sem a sabedoria para distinguir a diferença entre as coisas que podemos modificar e as que não podemos, a oração não teria resultados práticos. O modo pelo qual aprendemos a ter sabedoria é aprendendo a praticar o discernimento. Ao discernir o suficiente para aceitar as coisas que não podemos mudar, tornamo-nos também capazes de mudar alguma coisa que está na nossa capacidade, ou seja, mudar a nossa atitude diante das coisas. Ao aprendemos a desistir de qualquer atitude de força, estamos identificando o que está nos levando a não aceitar a realidade, e chegamos a um nível de serenidade na vida que, às vezes, nos assusta, mas também assusta observar que a maioria das pessoas no mundo ainda não tem uma chave, um modo, para tornar as suas vidas mais fáceis e felizes, e essa inabilidade leva a conflitos de toda ordem. Fazer a Oração da Serenidade é um modo de criar paz no mundo, e ao nos dedicarmos à nossa recuperação individual, podemos curar também o mundo.

 

            Nesse ponto, é indispensável que nos detenhamos no estudo do conceito da palavra discernir, assim, ela significa: 1-perceber, reconhecer 2-discriminar mentalmente, reconhecer coisas como separadas e diferentes 3- distinguir, discriminar 4-perceber características distintas ou peculiares, como entre centenas de cores 5- discriminar o certo do errado. O discernimento trata do aprender a separar a verdade, da mentira; a ilusão, da realidade; a fantasia, dos fatos; o impulso emocional, da orientação intuitiva; de ser vitimado, do sentir-se vítima. Trata de reconhecer a diferença entre uma pessoa que pode ser tida como de confiança daquela que nos trai.

 

            O estudo do significado da palavra discernir é indispensável porque é a partir da prática do discernimento, exercido em relação aos fatos da vida, que fazemos a escolha entre o bem e o mau e essa escolha ocorre exatamente no momento que antecede as nossas ações sendo que é a partir desse discernimento e dessa escolha, que agimos, segundo critérios que entendemos necessários para a vida moral, a boa vida, a vida moralmente adequada. A liberdade de escolha é fundamental para o que entendemos como moral, que é um conjunto de costumes adotados a partir das escolhas que fazemos entre o bem e o mal, isto é, a partir de uma posição ética. A moral é um conjunto de regras de conduta consideradas válidas e a ética é o estudo da conduta do ponto de vista do bem e do mal, do que é bom e do que é ruim. Ao longo do processo de recuperação, os companheiros adotam um comportamento orientado a partir de uma posição ética e assim desenvolvem um comportamento moral, uma vida moralmente adequada. A partir de uma posição ética e da boa moral, o membro de A.A. passa a ter caráter, a ser uma pessoa de caráter, entendido este como o conjunto de qualidades de um individuo que lhe determinam a conduta e a concepção moral; ademais, os princípios, muito claros e bem definidos, dessa ética estão nos 36 Princípios de A.A.; e tudo isso é um verdadeiro milagre.

 

            A prática do discernimento é necessária para aprendermos a confiar em nós mesmos e a nos amar. É necessária para sermos capazes de viver de modo maduro e adulto e também para que possamos ter a oportunidade de desenvolver relações sadias.

 

            Quando dedicamos atenção excessiva às coisas que não podemos modificar, estamos gastando uma energia física, emocional e mental que poderíamos direcionar para outra direção. Aceitar que há coisas que não podemos modificar não nos torna acomodados, pois o fato de aceitar se constitui num ato de fé, pois que confiamos que Ele fará as coisas certas, se nos submetemos à Sua vontade. Fazemos então a escolha de deixar fluir e ter fé nos resultados.

 

            Um dos maiores desafios está em imaginar como as nossas vidas poderiam ser diferentes do que são agora. Frequentemente os nossos hábitos, profundamente enraizados, são os nossos maiores inimigos, e identificá-los já representa ter percorrido a metade do caminho. Partindo do fato de que os hábitos ganham poder por meio da repetição, o foco real e a perspectiva de olhar para nós mesmos e para os nossos hábitos está em perguntar: “É dessa maneira que eu realmente desejo viver?”. Como estabelece a Oração da Serenidade, este ato de auto investigação não é nada menos do que um ato de coragem. E fica uma pergunta já feita por um grande escritor: “Se você deseja colocar as coisas nos lugares certos, você deveria começar por você ou pelos outros?”

 

            Como estabelece a oração, devemos aceitar as adversidades, provações e sofrimentos como sendo o caminho para a paz. Cada pessoa se defronta com obstáculos no curso da sua vida e isso é natural. Não devemos olhar para esses obstáculos como representando um potencial de frustração ou falha, mas como oportunidades de crescimento e aprendizado, e então poderemos ir além, transcender as nossas circunstâncias.

 

            A palavra rendição tem uma conotação negativa; nós a associamos com resignação, falha ou fraqueza. Mas a Oração da Serenidade rearruma a noção de rendição como sendo um ato de fé e de confiança. A sabedoria da oração reside em mudar uma vida de “e se eu?” sem fim por uma vida de confiança em poderes que estão além de nós mesmos.

 

            Há algo de universal na calma celebração, no entender o nosso próprio potencial, no reconhecer os nossos limites e a nossa capacidade de transcender.


CICLO DE LITERATURA

Área 1 – Setor 5 – Distrito 29

OS DOZE PASSOS

Dias 3 a 5 de outubro de 2014

Na cidade do Rio de Janeiro

  

Dr. Lais Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB