Artigos - OS MÉDICOS - sejamos amigos de nossos amigos !

Recentemente vi pela televisão em uma convenção da Associação Médica Norte Americana tomar posse seu novo presidente. A princípio pareceu-me que se tratava de uma cerimônia rotineira e quase mudei de canal para filme policial. Agora estou muito contente por não tê-lo feito, porque esses médicos fizeram-me passar  uma hora inesquecível e muito comovedora.O novo presidente dirigiu-se a tribuna para pronunciar o seu discurso de posse. Falou pouco sobre a ciência e a medicina. Para minha surpresa, dirigiu seus comentários – como costumamos fazer nas reuniões de A.A. – para os principiantes, nesse caso os jovens médicos que estavam começando a exercer a profissão. Falou-lhes que nenhum médico, por boa que fosse sua formação científica, não poderia fazer muito progresso até que pudesse convencer aos enfermos de que ele os via como seres humanos; que todo médico que se preze deve ter a mais profunda dedicação e fé. Essa era seu tema, e o desenvolveu muito bem. Sem dúvidas ele lhes “ passou a mensagem”, e mais do que nunca me dei conta do que nós AAs não temos o monopólio da prática do Décimo Segundo Passo. A seguir concederam várias menções honrosas por seus notáveis serviços a diversas pessoas, uma delas um leigo pelo seu extraordinário trabalho com doentes e incapacitados do país. Havia demonstrado a milhares de aleijados que já não tinham mais que se sentir  emocionalmente ou espiritualmente inválidos e  que sempre poderiam fazer algum trabalho útil e proveitoso. Fazendo notar que é comum os deficientes padecerem também de auto estima, citou as palavras do poeta persa que não tinha sapatos: “ Chorava por não ter sapatos até que vi um homem que não tinha os pés.”. O homem no palanque, transbordante de felicidade, sabia o que estava dizendo., porque ele mesmo não tinha as pernas; fazia anos que andava com pernas mecânicas. Claramente a dedicação, a integridade e a fé haviam sido seus suportes. Por essas razões havia merecido o marcante reconhecimento da AMA. Esta reunião de médicos, com grande enfoque espiritual, deu-me motivos para pensar. Dei-me claramente conta de que a medicina é uma vocação espiritual e que a grande maioria dos médicos se dedicam à profissão para servir a seus semelhantes. Nós AAs temos uma tendência a ter uma opinião elevada de nós mesmos e da nossa Irmandade. Mas ao me lembrar do nome de certos médicos, que dedicaram em nos ajudar em nossos primeiros dias, pergunto-me quantos de nós poderíamos rivalizar com eles em termos de humildade e dedicação. Consideremos  o caso do meu próprio médico, o Dr. William D. Silkworth. Em nosso primeiro livro de história a ser lançado, A.A. chega a sua maioridade, pintei com palavras seu retrato que diz em parte: “ Ao lançar uma olhada retrospectiva à aqueles primeiros dias em Nova Iorque, frequentemente vemos em meio às atividades a figura do bondoso doutor que amava os bêbados, William Duncan Silkworth, naquela época chefe do quadro do Hospital Charles B.  Towns de Nova Iorque, a quem agora bem poderemos
reconhecer como um dos fundadores de A.A. Dele aprendemos qual era a natureza da nossa enfermidade e nos forneceu os instrumentos para  desinflar o ego alcoólico mais resistente, aquelas demolidoras frases com que descrevia nossa doença: OBSESSÃO MENTAL que nos obrigava a beber e a alegria corporal que nos condenava a loucura ou a morte. Sem essas indispensáveis considerações, o A.A. não teria chegado nunca a funcionar. O Dr. Silkworth nos ensinou a arar a terra negra de nosso desespero, da qual floresceram todos e cada um dos despertares espirituais de nossa Irmandade. Em dezembro de 1934, este homem da ciência sentou-se humildemente ao lado de minha cama logo em seguida da minha repentina e envolvente experiência
espiritual e tranquilizou-me dizendo: “ Não Bill não estás alucinado. Seja qual for a experiência que hajas tido, vale mais que te agarres a ela, é muito melhor do que o que tinhas a menos de uma hora.” Essas palavras eram de grande significado para os futuros AAs. Quem, senão ele, poderia tê-la dito? “ Quando eu queria trabalhar com alcoólicos, ele me orientava ali mesmo em seu hospital, pondo em reisco sua reputação profissional”. “ Depois de seis meses sem nenhum êxito com relação a minha intenção de desembriagar a alguns bêbados, o Dr. Silkworth voltou a me lembrar a observação do Professor William James de que as
experiências espirituais verdadeiramente transformadoras  quase sempre são embasadas na calamidade e no fracasso total. Deixe de sermões, e apresente-lhes cruamente os fatos médicos. Pode ser que isso os impressione tanto que se disponham a fazer qualquer coisa para se recuperar. Depois pode ser que aceitem a tua psicologia moral e inclusive um Poder Superior. “ Quatro anos depois. O Dr. Silk ajudou a converter ao Dr. Charles B. Towens, dono do hospital, em um grande entusiasta de A.A. e lhes recomendou que nos emprestasse $2.500 para começarmos a preparação do Livro Alcoólicos Anônimos -  importância esta, que diga-se de passagem, Maísa tarde passou para $ 4.000. Depois. Como nosso único amigo no campo da medicina naquela época, o bom doutor atreveu-se a
escrever a introdução do nosso livro, que permanece até os dias de hoje e que temos a intenção de guardá-la para sempre. Talvez, nunca haverá um médico que preste tão dedicada atenção a tantos alcoólicos como fez o Dr. Silk. Calcula-se que em sua vida chegou a ver a assombrosa quantidade de 40.000 dele – antes de morrer em 1951- em estreita cooperação com o A.A. Nossa ruiva e dinâmica enfermeira Teddy havia atendido a quase 10.000 alcoólicos no Hospital Knickrbocker de Nova Iorque. Nenhum de seus pacientes esquecerá jamais a experiência, e a maioria deles estão sóbrios até hoje”. Assim é que o Dr. Silk fez o trabalho do Décimo Segundo Passo com 40.000 alcoólicos. A milhares deles, os haviam atendido pacientemente muito antes de A.A. existir, quando as
possibilidades de recuperação eram muito poucas. Mas ele sempre teve fé de que algum dia se encontraria uma solução. Nunca se cansou dos bêbados nem de seus problemas.  Embora fosse um homem de saúde delicada, nunca se queixava do cansaço. Durante a maior parte de sua carreira apenas ganhou o suficiente para manter-se vivo. Nunca procurou a fama; seu trabalho era a sua recompensa. Em seus últimos anos fez pouco caso de um mal cardíaco e morreu trabalhando – justamente no meio de nós, os bêbados. Quem de nós de A.A. pode rivalizar com o hospital do Dr. Silk? Quem tem o seu grau de conhecimento, fé e dedicação. Assim que – vinte anos depois que o Dr. Silk tratou-me pela última vez – quando me dei conta, ouvi e senti o espírito que reinava nessa grande reunião de A.A., dei graças a Deus pelos médicos, um dos melhores Grupos de amigos que A.A. jamais poderá ter.

 – BILL W. – Agosto de1957.