Artigos - Os psquiatras - nossos amigos - (Bill W.)

SEJAMOS AMIGOS DE NOSSOS AMIGOS – OS PSIQUIATRAS.
 
Faz anos que estivemos estabelecendo os nossos primeiros contatos com os hospitais psiquiátricos.  Um deles era uma instituição de Nova Jersey que havia dado alta condicional a dois alcoólicos que  haviam encontrado o A.A. e se haviam mantido sóbrios durante seis meses. Ambos haviam sidos considerados como não viciados. Apesar dos métodos inusitados de A.A., essas recuperações impressionaram os psiquiatras do quadro do hospital. Em seguida, muito entusiasmado o Grupo vizinho de A.A. começou a bombardear o hospital com solicitações para o direito a visitas. Queriam levar as boas novas a todos os bêbados ali internados sem mais demora. Os médicos não estavam convencidos de que esta seria a melhor forma de proceder. Todavia, eram bastante cautelosos e, tinham motivos suficientes para o ser. “Bom”, disse o Comitê de A.A., “Por que não vêm os senhores, os médicos, para uma reunião?” Dois psiquiatras acharam isso uma boa ideia. Disseram que, na semana seguinte, assistiriam a uma reunião do Grupo de Nova Iorque. Naquela época, nós de Nova  Iorque nos reuníamos em um salão do Steinwaay Hall. Para nossa grande alegria, nos haviam chegado notícias da visita proposta pelos doutores de Nova Jersey. Por fim chegou a noite de nossa reunião.  Mas no intervalo minha memória sofreu um lapso. Havia-me esquecido da visita dos psiquiatras. Justamente depois de haver aberto a reunião, o contingente de Nova Jersey, transbordando de orgulho, entrou  na sala e sentaram-se todos na última fila. Porém, nem mesmo a aparição deles refrescou minha memória. Eu não tinha a menor razão para suspeitar de que estava a ponto de passar um dos momentos mais embaraçantes da minha vida – e de aprender uma  das lições mais importante. O primeiro a falar contou boa história, triste e inspiradora ao mesmo tempo. Podia-se ouvir uma mosca voando. Era simplesmente maravilhoso. Então,  Jack ficou de pé e começou a falar. Contou-nos que havia tido uma carreira promissora na indústria cinematográfica e que em uma época havia ganho o módico salário de  $50.000 ao ano. Tendo em conta o seu muito apreciado talento. Jack imaginou que isso não era senão um mero começo. Mas o demônio começava a tramar a sua reina. Preocupados, os encarregados do estúdio onde trabalhava o enviaram a um psiquiatra. Rangendo os dentes, Jack submeteu-se a alguns tratamentos. Os resultados foram nulos e ele foi consultar outros
psiquiatras, Mas o ego de Jack, seus ressentimentos e a sua forma de beber continuavam sendo tão colossais como antes. Acabou por criar sua própria ruína e encontrou-se finalmente sem trabalho nos estúdios – o que não foi surpresa para ninguém. Mas aqui estava ele, no A.A. , com alguns meses de sobriedade. No obstante, rapidamente fez-se evidente que para ele os psiquiatras ainda eram
motivo de rancor. De fato, lhes atribuía a culpa de sua recaída. Sabendo que dois deles encontravam-se na sala, pareceu-lhe que havia aparecido a oportunidade da sua vida. Agora ele poderia dizer4 tudo que quisesse e eles não teriam outro remédio a não ser ficarem sentados e engolir tudo. Assim Jack lançou-se a atacar a psiquiatria e todos as suas obras. Como orador, era muito impressionante,  e tinha um grande talento para falar com humor sarcástico, o que lhe servia muito bem para as suas intenções. Colocou  no chão todos os seus psiquiatras, um após o outro. Em seguida investiu contra todos os profissionais, contra suas teorias e
contra as suas filosofias. Os qualificou de “procuradores de vermes”. R durante toda sua fala provocava estrondosas gargalhadas. Ainda que noventa por cento do que dizia fossem fantasias e bobagens, sua atuação era a de um artista consumado. Os ouvintes morriam de rir e eu acredito que nunca havia rido tanto em minha vida. Por fim, sentou-se em meio a um grande Aplauso Depois da reunião, o contingente de A.A. de Nova Jersey abriu caminho para chegar à plataforma. Tinham um aspecto triste e irado. E sem dúvida alguma estavam. Com um débil murmúrio, o porta voz deles apresentou a nossos “distintos convidados” – os psiquiatras.
Senti-me como se o estomago houvesse caído aos pés. Nesse mesmo momento, Jack claramente satisfeito consígo mesmo aproximou-se e deu uma afável palmada nas costas de um dos convidados. “ Bom, doutor”, disse-lhe, “ o que lhe pareceu o
chuvisco que lhes lancei?”. Isso foi  o cúmulo, quase morri de vergonha. Mas os dois psiquiatras encararam o golpe com
um sorriso. Insistiram que havia sido uma reunião interessante. Afinal de contas, dissera. A profissão deles podia suportar algumas brincadeira de vez em quando. Para eles, a fala de Jack havia sido muito divertida e muito instrutiva. Essa foi uma assombrosa demonstração de amizade e compreensão. Sob circunstância muito penosas, esses cavalheiros caluniados haviam dado a outra face. Haviam respondido ao falatório de Jack com cortesia, afabilidade, bom humor e inclusive com gratidão. Foi uma lição de paciência, tolerância e caridade cristã, que espero nunca mais esquecer. O mais rápido possível, levei os dois doutores para um canto e comecei a apresentar-lhes as minhas desculpas. Confessei-lhes que de fato sentia-me humilhado. Então, um deles olhou-me e disse “ Não te preocupes Bill. Como bens sabes, alguns alcoólicos são menos aptos que outros, entendemos este perfeitamente”. Antes de completar o mês, esse extraordinário doutor abriu as portas de seu hospital para os visitantes A.A. e começou-se a formar um Grupo no recinto. Desde então, os profissionais de psiquiatria continuaram mostrando seu apoio ao A.A. E atrevo-me a dizer que o que  ocasionou essas afortunadas circunstâncias foram a compreensão e tolerância deles, não as nossas. Mais dois exemplos: em 1949, a Associação de  Psiquiatras da América do Norte pediu-me para que fizesse um depoimento sobre o A.A. na reunião anual.  E ainda mais, os psiquiatras  publicaram o pronunciamento em sua revista mensal e permitiram que o A.A. a reproduzisse em um folheto para distribuição ao seu público. Essa generosa ação deu para a Irmandade incontáveis benefícios. Faz pouco tempo, foi feita uma sondagem em Los Angeles para conhecer a opinião que os psiquiatras dessa cidade tinham a respeito de A.A. Disseram-me que não havia problemas, que 99% estavam do nosso lado. Naturalmente, nessa curta história, há alguns exageros. Hoje em dia, um grande número de membros de A.A. veem favoravelmente a psiquiatria, e sem dúvida, há igualmente, um grande numero de psiquiatras que
não sabe nada sobre nós, ou que só viram os fracassos de A.A. e ainda estão contra nós. Mas isso não tem nada a ver.l  O que quero realçar é que nós os AAs devemos ser sempre amigáveis, sejam quais forem as circunstâncias. E, o que aconteceu com o meu amigo Jack? Embora tenha feito um grande esforço não logrou recuperar-se. Faz três anos, morreu de alcoolismo. Talvez, Jack nunca tenha conseguido compreender o que é a verdadeira amizade.
 – BILL W.  – Julho de 1957.