Artigos - Outros problemas além do álcool

OUTROS PROBLEMAS ALÉM DO ÁLCOOL
Por Bill W.(Co fundador de Alcoólicos Anônimos)

Talvez não haja sofrimento mais terrível que o da dependência de drogas, especialmente o produzido por morfina, heroína ou outros tóxicos. Tais drogas deturpam a mente do adicto e sua falta atormenta atroz mente o corpo do sofredor. Comparados com o adicto e seu sofrimento, nós, alcoólicos, somos meros beberrões. Barbitúricos, levados a extremos, podem ser igualmente nocivos. Em A.A. temos membros que conseguiram recuperação, tanto da garrafa quanto da agulha. Temos também muitos outros que foram – ou ainda estão sendo – vítimas de "bolinhas" e até mesmo de novos tranquilizantes.

Consequentemente, esse problema de dependência de drogas está, sob diversas formas, perto de todos nós. Ele desperta nosso mais profundo interesse e compreensão. Por toda parte vemos uma legião de homens e mulheres que estão tentando resolver ou fugir de seus problemas por esses meios. Muitos AAs, especialmente aqueles que têm sofrido essas dependências, agora se perguntam: "O que podemos fazer acerca do problema das drogas – dentro e fora de nossa Irmandade?"

Devido ao fato de que vários projetos para ajudar os que tomam pílulas e drogas já estarem em andamento – projetos que usam Os Doze Passos de A.A. e nos quais os membros de A.A. trabalham – surgiu uma série de perguntas sobre como esses esforços, que já alcançaram bastante êxito, podem ser corretamente relacionados com os Grupos de A.A. e a Irmandade como um todo.

Algumas das perguntas específicas são: 
1. Pode um não alcoólico dependente de pílulas ou drogas tomar-se um membro de AA.?
2. Pode tal pessoa ser levada, como visitante, a uma reunião aberta de A.A. para ajuda e estímulo?
3. Pode alguém que toma pílulas ou drogas, e também tem uma verdadeira história alcoólica, tomar-se um membro de AA.?
4. Podem os AAs que sofreram de alcoolismo e de outra dependência formar, eles mesmos, grupos de propósitos especiais* para ajudar outros AAs que estão tendo problemas com drogas?
5. Poderia tal grupo de propósitos especiais denominar se Grupo de AA.?
6. Poderia também tal grupo incluir não alcoólicos que usam drogas?
7. Se puder, deverão esses não alcoólicos que usam pílulas ou drogas se considerarem membros de A.A.?
8. Há qualquer objeção se AAs com dependências cruzadas juntarem-se a outras irmandades, tais como Narcóticos Anônimos?

Enquanto algumas dessas perguntas são por si só respondidas, outras não. Mas todas elas, eu penso, podem ser prontamente explicadas para a satisfação de todos, se dermos uma olhada nas Tradições de A.A. que se aplicam ao fato em nossa longa experiência com os grupos de propósitos especiais, nos quais os AAs são ativos hoje – tanto dentro como fora de nossa Irmandade.

Há certas coisas que A.A. não pode fazer por ninguém, independente de quais sejam nossos desejos e sentimentos individuais, ou simpatia.
Nossa primeira responsabilidade, como Irmandade é assegurar nossa própria sobrevivência. Portanto, temos que evitar confusões e as atividades de propósitos múltiplos. Um Grupo de A.A., como tal, não pode assumir todos os problemas pessoais de seus membros, muito menos os problemas do mundo inteiro.

Sobriedade – libertação do álcool – através do aprendizado e da prática dos Doze Passos é o único propósito de um Grupo de A.A. Grupos têm repetidamente experimentado outras atividades, e sempre têm fracassado. Também temos aprendido por experiência que não há nenhum meio possível para fazer não alcoólicos tomarem-se membros de A.A. Temos que limitar nossa Irmandade aos alcoólicos e também limitar nossos Grupos de A.A. a um único propósito. Se não nos agarrarmos a esses princípios, certamente fracassaremos. E se fracassarmos, não poderemos ajudar ninguém.

Para ilustrar, vamos rever algumas experiências típicas. Anos atrás, esperávamos que nossos familiares e certos amigos não alcoólicos que tinham sido de grande ajuda pudessem ser membros de A.A. Eles tinham seus problemas também, e desejávamos acolhê-los no seio da comunidade. Infelizmente, descobrimos que isso era impossível. Eles não eram capazes de fazer depoimentos direto de A.A. nem, salvo algumas exceções, podiam se identificar com novos membros de A.A. Por isso não podiam dar continuidade ao trabalho do Décimo Segundo Passo. Por mais próxima que essa boa gente tivesse, não poderíamos permitir-lhes tornarem-se membros de A.A. Somente poderíamos receber-lhes em nossas reuniões abertas.

Portanto, não vejo nenhum modo de converter os adictos não alcoólicos em membros de A.A. A experiência nos demonstra claramente que não podemos admitir exceções, apesar de que, os que usam drogas, são por assim dizer parentes muito próximo de nós alcoólicos. Se nos empenharmos em tratar de fazer exceções, receio que prejudique o próprio adicto, bem como a Irmandade de A.A.

Precisamos aceitar o fato de que nenhum não alcoólico, seja qual for sua aflição, possa se transformar num alcoólico membro de A.A.
Digamos, contudo, que se aproxime de nós um adicto que mesmo assim tenha uma verdadeira história alcoólica. Houve um tempo em que tal pessoa teria sido rejeitada. Muitos AAs, no início, tinham a noção quase cômica de que eram alcoólicos – apenas beberrões, sem nenhum outro problema sério. Quando os presidiários alcoólicos e drogadictos apareceram, houve muita indignação virtuosa. "O que as pessoas pensarão?", c1amava o coro dos alcoólicos puros. Felizmente faz muito tempo que essa tolice acabou.

Um dos melhores AAs que conheço é um homem que esteve sob a dependência da agulha sete anos, antes que se juntasse a nós. Mas, antes da dependência da droga, ele tinha sido um alcoólico ativo, e sua história comprovou isso. Portanto tinha o requisito para tomar-se membro de A.A. e passou a ser um de nós. Desde então, ele tem ajudado muitos AAs e alguns não-AAs com seus problemas de pílula e droga. Naturalmente, isso é assunto dele e não do Grupo ao qual faz parte. Em seu Grupo, ele é um membro porque, na verdade, é um alcoólico.
Isto é tudo o que A.A. não pode fazer por dependentes de tóxicos ou por qualquer outra pessoa.

Bom, então o que se pode fazer? Algumas respostas muito eficazes a outros problemas diferentes que não a libertação do álcool têm sido sempre encontradas através de grupos com propósitos especiais, alguns deles funcionando dentro de A.A. e outros fora.

Nosso primeiro grupo com propósito especial foi criado por volta de 1938. Alcoólicos Anônimos necessitava de um escritório de serviços mundiais e de alguma literatura. Tinha um problema de serviço que não poderia ser resolvido por um Grupo de A.A. como tal. Por conseguinte, formamos uma Junta de Custódios (a Fundação do Alcoólico) para cuidar desses assuntos. Alguns dos Custódios eram alcoólicos e outros não. Obviamente essa Junta não era um Grupo de A.A. Em vez disso, era um grupo de AAs e não-AAs que se dedicavam a uma tarefa específica.

Outro exemplo: em 1940, os AAs de Nova Iorque encontravam-se solitários e se instalaram num c1ube. O clube tinha diretores e membros de A.A. que pagavam taxas. Por muito tempo os membros do clube e os diretores pensavam que constituíam um Grupo de A.A. Mas depois de um certo tempo, foi descoberto que muitos AAs que assistiam às reuniões do antigo 24 Horas, não davam a mínima para o c1ube, como tal. Então, a direção do clube (pelo seu propósito social), teve que ser completamente separada da direção do Grupo de A.A. que realizava suas reuniões naquele local. Essa controvérsia durou anos, até ficar provado que um Grupo de A.A. não devia envolver se nos assuntos do clube. Em qualquer lugar, hoje, direções de clubes e seus membros pagantes são vistos como grupos com propósitos especiais, não como Grupos de A.A.

A mesma coisa tem acontecido com locais de desintoxicação e com as casas do Décimo Segundo Passo dirigi das por AAs. Nunca pensamos nessas entidades como Grupos de A.A. Elas são vistas claramente como trabalho de indivíduos interessados, que estão sendo muito úteis e muitas vezes fazendo um trabalho valioso.

Noutra ocasião alguns de nós AAs desejamos entrar no campo da educação sobre o álcool. Eu fui um deles. Nós nos juntamos com alguns não alcoólicos igualmente interessados. Os não alcoólicos queriam trabalhar conosco porque precisavam de nossa experiência, filosofia e ponto de vista geral. As coisas funcionaram bem até que alguns de nós revelamos publicamente nossa associação ao grupo educacional. 

Imediatamente o público ficou com a ideia de que esse tipo de educação sobre álcool e Alcoólicos Anônimos eram a mesma coisa. Levou anos para mudar essa impressão. Mas, agora que ficou esclarecida a diferença, muitos membros de A.A. trabalham nesse campo, o que nos alegra muito.
Ficou então comprovado que, como indivíduos, podemos levar a experiência e as ideias de A.A. a qualquer campo de fora, seja ele qual for, contanto que resguardemos o anonimato e neguemos o uso do nome de A.A. para propósitos de arrecadação de dinheiro ou publicidade.

Tenho certeza de que essas experiências de ontem podem ser a base para esclarecer a confusão de hoje, acerca do problema de drogas. Esse problema é novo, mas a experiência e as Tradições de A.A. que podem resolvê-lo já são antigas e testadas pelo tempo. Penso que podemos resumir da seguinte forma:
"Não podemos legar aos drogadictos não alcoólicos tomarem membro de A.A. como qualquer outra pessoa, eles deveriam poder assistir a reuniões abertas de A.A., desde que os Grupos permitam.

Os membros de A.A. que também usam drogas, deveriam ser encorajados a unirem-se para lidar com os problemas de sedativos e drogas, mas deveriam abster-se de chamar a si mesmos de Grupos de A.A.
Parece não haver nenhuma razão pela qual alguns AAs não possam unir-se, se eles quiserem, a um grupo de dependentes apenas de drogas para resolver, ao mesmo tempo, o problema de álcool e de drogas. Mas, obviamente, tal grupo, com propósito duplo, não deveria insistir em se chamar um Grupo de A.A., nem deveria usar o nome de AA. em sua denominação. Nem deveriam os participantes dependentes apenas de drogas serem levados a considerarem-se membros de A.A., em razão de tal associação.

Certamente, há muitos motivos para os AAs interessados unirem-se a grupos de fora, trabalhando no problema de drogas, contando que as Tradições de anonimato e não-endosso sejam respeitadas.
Concluindo, quero dizer que através da história de A.A., a maioria de nossos grupos com propósitos especiais têm realizado coisas maravilhosas. Há grandes razões para se esperar que aqueles AAs que estão agora trabalhando no penoso campo da dependência de drogas alcancem igual sucesso.

Em A.A. o Grupo tem rigorosas limitações, mas o indivíduo não tem quase nenhuma. Não se esquecendo de observar as Tradições de anonimato e de não-endosso, ele pode levar a mensagem de A.A. para qualquer área em dificuldade deste mundo turbulento".

"N.T.: Esse texto, escrito por Bill W. em 1958, reflete a situação da Irmandade nos EUA/Canadá naquela época.
As referências a Grupos com Propósitos Especiais, levam em consideração esse fato.