DP - Panela de Pressão

PANELA DE PRESSÃO

Uma companheira conta como percorreu o duro caminho para a libertação da raiva e do ressentimento.

    Em primeiro lugar, eu confundia raiva com ressentimento. Para mim eram a mesma coisa, mas descobri que não eram. Raiva é uma resposta imediata a uma situação, enquanto que ressentimento é a constante realimentação da raiva. No meu caso, o ressentimento envolvia uma reescrita do script, para que eu triunfasse sobre meu “inimigo” com uma resposta fabulosa, e o inimigo envergonhado admitisse minha justeza.

    Para mim, o ressentimento cresceu por anos e anos, especialmente com aqueles a quem eu amava. Eu equiparava raiva com rejeição, ou estava sendo rejeitada, ou rejeitava os outros se ficava com raiva. Fui educada acreditando que raiva não era um sentimento “adequado”, especialmente para uma moça.

    Como resultado, sufoquei minha raiva por anos e anos, ou fingia, mesmo para mim, que a raiva não existia. Racionalizava, na superfície pelo menos, que os outros estavam sempre certos. Intelectualizava em mim mesma uma superioridade sobre aqueles que perdiam a calma, colocava toda minha raiva numa panela de pressão, adicionando álcool como ingrediente principal, e cozinhava uma gigantesca batelada de ressentimentos.

    Levei essa iguaria para minha primeira reunião de A.A. e continuei carregando-a até fazer meus Quarto e Quinto Passos algum tempo depois. Carreguei essa gororoba tanto tempo, porque não estava pronta para abrir mão de ressentimentos. Tantos deles pareciam justificados...  Os meus ressentimentos me feriam fisicamente no aparelho digestivo, e isso não era nada comparado com o redemoinho dentro da minha cabeça.

    A.A. sugeria que eu mudasse minhas atitudes. A justiça (como eu a definia, isto é, os outros admitindo seus erros em relação a mim) não tinha sempre que triunfar. O desejável sobre todas as coisas era a paz de espírito. E isso veio finalmente quando eu desisti de reviver e reescrever o passado.

    Estava continuamente jogando sal em minhas velhas feridas...

    Desistir dos ressentimentos significou uma erupção vulcânica em mim, mas fui aconselhada por minha madrinha a fazer a erupção em reuniões, para ela, por escrito em meu Quarto Passo, ou para outra pessoa em meu Quinto Passo. Em nenhum lugar ou em momento algum incluía licença para ir atrás das pessoas com quem eu estava ressentida e dizer a elas, sob pretexto de honestidade, como eu havia estado por todos aqueles anos.

    É aí, creio eu, que os recém-chegados fazem tanta confusão. Somos instados a ser honestos conosco e com os outros, nos dizem para não guardar raiva porque é assim que o ressentimento é construído, e confundimos isso com uma “licença de caça” para dizer como nos sentimos em qualquer situação, sem nenhuma consideração pelos sentimentos dos outros. Podemos até começar com: “Não quero ferir seus sentimentos, mas tenho que ser honesto e lhe dizer exatamente como me sinto”. Claro que minha intenção era de ferir. Um cantinho da minha mente está dizendo “Há, há, a vingança é minha”.

    Para minha sorte, minha madrinha não ia ser conivente com isso. Ela sempre chamava a atenção para o que eu havia feito de errado em cada situação. Quando ocasionalmente topava com alguma coisa que uma outra pessoa havia realmente me feito mal, ela me dizia para orar por essa pessoa, mesmo que não fosse sincero.

    Quando, depois de muito racionalizar, a raiva não houver desaparecido, então tenho que resolver com a pessoa envolvida. Mas não tenho mais que fazer um ataque pessoal, não tenho mais que trazer à tona o que ela me fez desde os anos sessenta.

    A.A. realizou milagres em minha vida nesse assunto de raiva e ressentimento e o que fazer com eles. Essa é uma das maneiras como o programa me libertou para ser feliz.

 

Rv. Vivência Nº 77 - MAIO/JUNHO 2002

(Grapevine, abril 1986)