DP - Poço emocional > RV . 038

Poço emocional

A depressão chegou, paralisante. O que ela fez? Com dificuldade, voltou-se para os Passos. O Primeiro, o Décimo Primeiro. 
A vida voltou a ter sentido.


Para  mim,  o  programa  de  A.A.  vai  se  revelando  fonte  inesgotável de motivação para procurar  construir  uma  vida  de  qualidade. Há  dois  meses,  passei  por  um período de depressão  (causado por fofoca no local  de  trabalho),  e  eu  de  novo  me  vi  reagindo  à negatividade  com  mais  negatividade.  Comecei  a  duvidar  de  coisas  que  remontam  à história da maçã, perdi a fé em mim, comecei a me questionar: por quê? Para quê? O que faço? O que digo? O que fiz? Vale a pena? Ataques depressivos são  coisas  duras,  não há jeito de sair deles pela força de vontade apenas. Ah, essa nossa tão  comentada  força  de vontade... ela serve apenas quando se enxerga o caminho.

O jeito que eu descobri para encurtar a duração dessa sofrida imobilização, que para mim é o que significa depressão , foi entregar-me. De  novo, como  no início,  como sempre. Só que  isso  nunca  foi  fácil,  muito  menos  quando  mais  se  precisa.  Não   adianta  querer entregar, o que resolve é entregar. Como dizem os amigos de Bill que falam inglês: "Let go ant let God".

Assim, lá fui eu sofrendo adiante, querendo entregar tudo a Deus, mas não conseguindo me livrar de minha vontade de sofrer, de fazer o papel de vítima, de coitadinha indefesa. Arre, hábitos emocionais  de  uma  vida  inteira! E, desse  jeito, eu  só  conseguia realizar tarefas mecânicas, não  podia  intuir,  produzir,  criar.  A energia  estava  bloqueada  pela tristeza.

O que me salvou nessa situação foi a mesma coisa que tem me  salvado desde que enfiei o  nariz  no  primeiro  livro  do  programa de A.A.:  lembrar-me  dos  Passos. Em  qualquer situação que se revele difícil demais, eu preciso sempre de novo começar com o Primeiro Passo. Reconhecer que eu sou impotente perante o álcool e perante um bilhão de outras substâncias, pessoas, circunstâncias, etc. Eu só posso modificar a mim, e que trabalheira! Muitas e muitas coisas eu não  posso  modificar; algumas  até  que  posso. Mas  a mim eu posso, se quero. Se quero e se entrego ao meu Poder Superior.

A depressão aparece  justamente  em  situações  de  crise,  nas  quais  eu  teimo  em  não querer aceitar os fatos que a vida me apresenta. Eu não  quero aceitar  que  a realidade é real porque ela me dói, eu quero que a realidade mude. Ora, isso é  conversa  de bêbada. O conflito e a confusão se instalam dentro de mim, porque a mensagem  que me passam é ambígua ou perversa, mas isso não me capacita a mudar  esse fato. Preciso  aceitar que esse fato existe. Só daí posso partir para a ação.

Confusa e cheia de conflitos, paro de  dialogar  com  meu  Poder Superior, e  literalmente perco  as  forças. Se consigo  recuar  um  pouquinho  do  meu  poço  emocional  de  baixa autoestima, ganho certa perspectiva, vou deixando a afobação e devagarinho "caindo na real".

Na minha experiência, só chego ao  Décimo Primeiro Passo  se  estou  mais  ou menos em dia com a minha aceitação do Primeiro. Só consigo usufruir da energia cósmica que está à disposição de todos nós, se largo de  minha  amarração  ao  meu falso-eu, meu  falso-égo. Este   falso-égo  é  aquele  construído   pelas   defesas   asfixiantes   que   me   ajudaram  a sobreviver em tempos difíceis, mas que agora só me  impedem  de  viver bem.  O Décimo Primeiro Passo me  liga com  a  energia  que  é  inesgotável,  com  a  tomada  que  sempre acende a luz. O Poder Superior sempre fará por mim o que  eu  não  sou  capaz  de fazer - desde que eu não atrapalhe. O pior é  que  eu  atrapalho. Fecho-me  em  ressentimentos, mágoas, auto-piedade, gasto toda a minha energia  em  lamentações.  Pronto, bloqueio a energia, bloqueio a luz. A tristeza é a maior barreira à energia espiritual.

Pois é, fui saindo da minha depressão quando comecei  a  rir  de   minha  cara de boboca, levando a sério palavras fúteis que  nada tinham  a ver  comigo, mas  muito  tinham a ver com   quem  as  falara.   Agradeci  a   Deus  por  estar  viva,  sem  beber,  só  por  hoje,  na companhia de tantas pessoas queridas, e dei uma boa risada. Clic! Acendeu-se  a  luz  de novo.

Voltei a entrar em contato com o Poder Superior, tive consciência de um plano bom para toda a criação, da qual eu faço parte.

A mesma  energia  amorosa  a  nós  todos  sustenta  e  ampara  sempre  que  procuramos inserir a nossa busca de felicidade pessoal dentro de um quadro de felicidade para toda a criação. Pronto, voltei a enxergar a vida com alegria, com sentido, em boa companhia.

Muito obrigada ao A.A. por mais esta ressurreição!

  
R. Vivência nº 38 - Novembro/Dezembro 1995