DP - Ponderações de um veterano em A.A

Há trinta anos e meio freqüentando reuniões!
Eu sou um alcoólico que sofreu muito, que esteve bem perto do inferno e atualmente, em fase de recuperação, leva uma vida normal e feliz. Minha doença, o alcoolismo, é incurável, progressiva e de terminação fatal na morte ou na loucura, quando não detida a tempo. Bebi praticamente durante trinta anos. A progressão da doença se fez sentir de maneira bem clara e precisa no decorrer da minha vida.Comecei a beber bastante jovem e durante muitos anos isso não representou um malefício total. Consegui com a bebida, não obstante a bebida, talvez ajudado pela bebida, fazer coisas que os outros normalmente fazem sem ela e que provavelmente eu não faria. Consegui estudar. Tornei-me um advogado. Trabalhei e obtive êxito durante certo tempo. Casei-me e constituí família. Vivi alguns anos de maneira aparentemente normal. Ninguém que acompanhasse minha vida, nem eu mesmo, poderia prever o fim infernal disso tudo. Entretanto, o desenvolvimento dessa dissimulada doença acentuou-se na parte final de minha longa carreira de bêbado. Nos últimos anos o álcool me foi tirando tudo o que havia conseguido.Perdi a capacidade de trabalho, a habilidade profissional, a posição econômico-financeira, a situação social, até vir a ser privado de minha própria família. Fiquei sem a esposa e chorei amargamente a falta de meus quatro filhos.Na verdade, já me encontrava em uma situação desesperadora, sem família, sem trabalho, sem dinheiro e sem amigos. Não podia mais, praticamente, viver com o álcool e nem sem ele. Com ele ficava cambaleando, com a língua enrolada na boca e a mente completamente confusa. Sem ele tremia muito, tinha uma depressão permanente e alucinações freqüentes. Recorri ao auxilio da medicina, em várias ocasiões, submetendo-me a toda sorte de tratamentos médicos, psiquiátricos, internações, hipnose, psicoterapia e outros cuidados terapêuticos bastante conhecidos. Essas providências trouxeram alguns resultados. Foram, bem ou mal, conseguindo me manter vivo, provocando interrupções na marcha da doença, mas de forma alguma resolveram o problema. Recorri também às religiões, procurando padres, rezas, fazendo promessas e freqüentando, inclusive, terreiros de umbanda e várias igrejas. Nada disso foi eficiente para, de forma concreta, paralisar a marcha de minha doença. Um dia, sem saber como nem por quê, talvez por obra e graça de Deus, encontrei Alcoólicos Anônimos. Alguma alma caridosa colocou em meu bolso um cartão com o endereço da Irmandade. Fui ao grupo, o primeiro existente em São Paulo, o "Sapiens". Cheguei lá razoavelmente alcoolizado e confuso. Assisti àquela primeira reunião. Impressionei-me muito com os depoimentos de alguns companheiros, não obstante ter na ocasião pouca capacidade de entendimento. A partir de então, o fato concreto é que não bebi mais. Não mais tive qualquer compulsão pela bebida. Não mais me afastei da Irmandade, e há trinta anos e meio venho assistindo às reuniões quase diariamente.
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O grupo era violento, primitivo, sem o auxilio da literatura que só chegou um pouco mais tarde, com as providências de um saudoso companheiro.  Mas, apesar de tudo, encontrei bons companheiros, quase todos já falecidos, sóbrios. Estou relatando isso porque minha realidade pode vir a ser uma mensagem de esperança para aqueles que, como eu, se colocam, sem o saber, à mercê de uma vida sofrida, da loucura e da morte prematura. Assisti a milhares de reuniões de Alcoólicos Anônimos e cada vez mais me convenço do mistério dessa doença cruel e do imponderável resultado do programa de A.A. Ficou-me muito nítida a certeza da grande esperança que esse programa representa para todos aqueles que, de outro modo, não teriam mais possibilidade alguma de recuperação. Durante o tempo em que venho freqüentando reuniões, presenciei a chegada de muitos, vi grande parte deles se recuperando e continuando seus processos de tratamento. Infelizmente constatei também a chegada de alguns que não conseguiram a recuperação. Testemunhei casos de outros que alcançaram a abstinência e depois voltaram ao copo. Acompanhei casos espetaculares de recuperação de doentes que, ao chegarem, eram como verdadeiros "mortos vivos". Verifiquei que vários já haviam, como eu, atingido "o fundo do poço", e outros não. Concluí que apenas essa circunstância, por si só, não é válida para predizer quem fica e quem não fica em Alcoólicos Anônimos. Em nossa Irmandade chegam pessoas com conhecimentos, com cultura superior, ao lado de outros, semi analfabetos ou analfabetos de tudo, e esse critério não distingue aqueles que permanecem ou não em Alcoólicos Anônimos. Vi surgirem criaturas de todas as  classes sociais, de todos os níveis econômicos e financeiros. Desde mendigos até milionários. Vi entrarem nas salas de Alcoólicos Anônimos homens e mulheres de todas as raças e aí, também, não encontrei a separação dos que se recuperam e dos que voltam a beber. Entretanto, percebi, com bastante nitidez, que o fator mais significativo para o doente atingir e manter sua sobriedade até a rendição interior. Chegar ao fundo do poço e submeter-se ao tratamento não é tudo. Esse sofrimento precisa ser acompanhado pela rendição. Esse "fundo de poço", para produzir um resultado positivo, deve estar acompanhado pela rendição total. O Dr. Harry M. Tiebout, do "The National Council on Alcoholism", nos EUA, estabelece o magnífico conceito da distinção entre submissão e rendição. Diz o conceituado médico que na submissão o indivíduo aceita conscientemente a realidade, mas não a aceita de modo inconsciente. Ele admite como fato consumado que não pode, de momento, vencer a realidade, mas espreitando de seu inconsciente, está a sensação de que "um dia poderá" novamente controlar tudo. Esse fato implica uma aceitação irreal e indica conclusivamente que a luta continua. Com a submissão que é, na melhor das hipóteses, um reconhecimento superficial, a tensão permanece. Quando por outro lado a capacidade de aceitar realmente a realidade funciona em nível do inconsciente. Aí não há mais escaramuças residuais e sucede-se o relaxamento, com a libertação da pressão e do conflito. Na prática, é perfeitamente possível apurar em que medida a aceitação da realidade chegou ao nível do inconsciente, através do grau de relaxamento, maior a aceitação interior da realidade, ou seja, maior a rendição. A experiência provou, nas reuniões de Alcoólicos Anônimos, que apenas uma submissão não mantém a sobriedade durante muito tempo. As dúvidas internas logo voltarão. A rendição normalmente atravessa o caminho da submissão, mas só com a freqüência às reuniões e a prática do programa, atinge sua plenitude. É uma graça de Deus. Não depende da vontade, nem do raciocínio lógico. Após o ato de rendição, o indivíduo experimenta uma sensação de unidade, não está mais dividido. O alcoólico conhece o significado da totalidade interior e, o que é mais importante, sabe pela experiência qual é a sensação de ser inteiramente devotado a um novo programa de vida. Isso é, no meu modo de ver, o "despertar espiritual". Afinal, o despertar espiritual de que nos fala o programa nada mais é do que a própria rendição.

(Vivência n° 78 – jul/ago 2002)