DP - Por amor

POR AMOR

Pensando em dar uma força ao irmão, ele foi a uma sala de A. A. E ali permaneceu.
Não vim para A. A. porque eu queria parar de beber. Muito pelo contrário. Por mim estaria bebendo, muito feliz até hoje, pois eu bebia quando tinha vontade e parava de beber a hora que eu queria. Conseguia ficar até 48 horas sem beber. Após uma ressaca braba.
Certa vez consegui ficar seis meses sem beber (foi uma única vez em 45 anos de ativa). Na época eu tinha 21 anos de idade.
Segunda feira, 6 de abril de 1998, meu irmão foi pela primeira vez a uma reunião de A. A. Na terça feira, quando ele chegou na minha loja, de manhã, (ele trabalhava comigo), foi logo dizendo todo entusiasmado: “Deni, ontem eu fui ao grupo de A. A. e gostei à beça. Você tem que ir lá. Vai adorar.”
“Pode parar”, cortei. “Se você tem problemas com bebida é problema seu. E até é bom voltar.”
“Cara, voltei na reunião de A. A. ontem e até ingressei. Vocês tem que ir lá pra ver. Vai adorar!”
“Você está igualzinho a essas pessoas que entram para alguma igreja e querem converter todo mundo. Pra gente não se aborrecer, vou te pedir um favor: não toque mais nesse assunto. Eu não sou alcoólico e não tenho problema com álcool. Nunca caí na rua, não separei de minha mulher. A bebida nunca me trouxe problema. Aquilo lá não é para mim”, ponderei, cheio de moral.
Na quinta feira Santa, à tarde, viajei para o Rio a fim de passar a Semana Santa com meus sogros e, como era de praxe, lá chegando encontrei uma caixa de cerveja em lata na geladeira. Não deu outra: bebi até ficar satisfeito, sem causar problema algum.
Na sexta feira Santa, pela manhã, resolvi polir o meu carro. Às 9 horas da manhã eu já estava todo suado e com muita sede. Pedi então à minha esposa que me desse uma “latinha gelada”.
“Hoje é sexta feira Santa, não pode beber. Se você quiser, tem vinho na geladeira.”
Foi o que ouvi.
“Manda então um copo duplo. Não sei quantos copos e nem até que hora bebi. Só sei que acordei às 21 horas com uma sede de arrasar. A primeira coisa que fiz foi ir direto à geladeira e enchi um copo de vinho.
“Viu o que você fez no assento do carro?”
Quase cai para trás.
“Você sentou no banco do motorista e colocou o copo de vinho no banco do carona. O copo virou no estofamento.”
Corri até o carro. Qual não foi a surpresa… minha mulher já havia lavado e tirado a mancha de vinho do estofamento. Entreguei o copo a ela e, mais uma vez, jurei nunca mais beber.
Não bebi no sábado nem no domingo de Páscoa. Na segunda feira à tarde fui visitar uma senhora que morava a 5 quilômetros de minha casa e, na volta, lá pelas 6h20 vim pensando pelo caminho:
“Eu vou lá na sala de A. A. para dar uma força ao meu irmão, senão ele é capaz de – por falta de incentivo – voltar a beber. Pensando bem, não vou, não. O que é que vou fazer no meio daquele monte de pés inchados? Mas, se eu não for, o mano pode voltar a beber.”
E assim, vim eu pela estrada: vou não vou, quando, de repente eu estava na porta do centro de Saúde onde A. A. funciona, sem saber com eu tinha ido parar ali.
Então eu resolvi: “Vou lá, fico 15 minutos e me mando. Pelo menos ele não pode dizer que eu não dei uma força.”
Subi e, com 20 minutos de reunião, eu já estava querendo ir à cabeceira de mesa. O coordenador disse-me no intervalo que para ir à cabeceira de mesa eu teria que ingressar. Ele me deixou de castigo, mas uma hora boa para poder me ingressar.
Na terça feira, às 11 horas, saindo para almoçar, já ia eu direto tomar uma “purinha” antes do almoço. Foi quando me questionei:
“Que falta de vergonha. Ingressei ontem e hoje já vou beber?”
Segurei minha ficha amarela e fui até minha casa com ela na mão e até hoje, graças ao Poder Superior, não tive nem uma recaída. Parei de fumar e encontr
ei minha religião.
Eu não queria parar de beber e hoje me orgulho de ter aprendido que não basta você parar de beber. É preciso mudar, pois nada muda se você não mudar.

 Revista Vivência – 78 Jul./Ago.-2002