Artigos - Por que Alcoólicos Anônimos ?

Por que Alcoólicos Anônimos?
 
 
                                                                              Yoshiaki Ichihara
                                                           Juiz de Direito de São Paulo

1 - Introdução.
 
  Quando o companheiro Luiz B. me pediu para escrever sobre o alcoolismo, apesar de o tema ser algo que venho estudando há algum tempo, senti o peso da responsabilidade, especialmente, por ter que me dirigir a pessoas que conhecem o assunto por uma experiência de vida.
  Pensei, meditei e entusiasmei-me em escrever algo sobre a irmandade de Alcoólicos Anônimos, por duas razões:

  a) dizer aos alcoólicos, o quanto é admirável a filosofia de vida delineada pelos co-fundadores BOB e BILL, em 1935, Akron, Ohio (E.U.A); e

  b) levar aos não-alcoólicos, a sua mensagem e lições que encerram essa filosofia de vida, que poderão ajudar também pessoas comuns para uma vida melhor, além do destaque de como qualquer pessoa poderá ser útil na recuperação do doente alcoólico e quanto eles precisam de ajuda.

Com esses objetivos, com a ajuda e agradecendo ao Poder Superior, irei desenvolver o trabalho.

2 - Alcoolismo - uma doença:

  Sem me diferenciar de qualquer outra pessoa, alcoólicos ou não alcoólicos, desde a minha infância sempre julguei que o alcoólatra era um sem vergonha, um fraco, um covarde , um vagabundo, etc. e que bebe para fazer tudo aquilo que não consegue fazer na sobriedade.
 
  Em parte, dependendo do ângulo de visão, realmente, o alcoólatra bebe para conseguir aquilo que, muitas vezes, na sobriedade é insuportável ou não consegue fazer.
 
  Todavia, nunca se pode esquecer que o alcoólico é um doente. Um doente que padece de uma enfermidade física, mental e espiritual - além de incurável, progressiva e fatal.
 
  É normal alguém que possua família, posição social, patrimônio, etc. e através da bebida chegar ao máximo da degradação humana?
 
  Evidentemente, que a resposta é não!
 
  Somente uma pessoa doente, e muito doente, poderá fazer o que um alcoólatra faz.
 
  O Juiz BILL C., pseudônimo de um Juiz Norte-Americano, sobre o assunto disse:
 
  "O alcoolismo é, sem dúvida alguma, a mais mal interpretada e mal compreendida doença em todo mundo. É a única doença da qual homens e mulheres sofrem e cuja natureza é tal que ela convence essas mesmas pessoas de que não estão doentes.  É exatamente por isso que tem causado mais problemas, mais sofrimento,  mais miséria do que qualquer doença da qual a humanidade já tenha sofrido".
  
  O alcoólatra quanto mais doente estiver, mais álcool necessitará, até que outras pessoas possam convencê-lo da doença e que há uma esperança e tratamento.
 
  A minha visão de alcoolismo como doença só foi possível, após meu ingresso na Magistratura Paulista e como Juiz de Direito, precisei enfrentar as consequências que o álcool provocava. Como Juiz, é evidente que não poderia sair por aí dizendo que o alcoólatra era um sem vergonha, mas deveria tentar resolver as questões com serenidade e aplicar a lei ao caso concreto com imparcialidade.
 
  Entretanto, após conhecer o programa de Alcoólicos Anônimos é que me convenci que o alcoolismo é uma doença e que há esperança para tais doentes.
 
  Ao invés de ficar alheio e dizer que o problema não é do Juiz, que apenas aplica a lei, além de encaminhar os alcoólatras às reuniões do A.A., também comecei a participar das reuniões e onde aprendi muitas coisas que a faculdade ou os livros não ensinam, que são as lições da experiência de vida.
 
  Qual é o comportamento de uma pessoa normal, quando descobre que está doente?
 
  Sem dúvida alguma, é procurar tratamento, o que, entretanto, não acontece no casa da doença do alcoolismo, onde até os amigos e familiares o abandonam sob o mito de que bêbado é um sem vergonha, porque assim demonstram no agir.
 
  É preciso acabar com esse mito e a falácia do alcoólatra como um "sem vergonha" e aceitar o alcoólatra como um doente , filho de Deus, um homem maravilhoso, mas que está sendo entorpecido e consumido pelo álcool.
 
  A responsabilidade é de todos!

3 - A responsabilidade dos não-alcoólicos:

  A idéia de transformar o bêbado num homem sadio e útil a si mesmo e á comunidade, é coisa que comumente passa pela imaginação de uma pessoa de inteligência mediana, especialmente quem tem alguém na família, um amigo ou colega com problemas de alcoolismo.
  Isso é possível, especialmente com a ajuda dos profissionais (médicos, psicólogos, assistentes sociais, etc) e não profissionais (familiares, amigos, empregadores, colegas de trabalho, etc.), orientando e encaminhando o doente para tratamento necessário e adequado.
  Na dúvida, qualquer Grupo ou Central de Serviços dos Alcoólicos Anônimos, poderão ajudar.
  Não é por demais repetir que, pelo menos na minha experiência profissional de Juiz de Direito, que enfrenta as consequências que o alcoolismo provoca, na forma de separação de casais, menores abandonados, menores delinquentes, dispensa de empregado por justa causa, crimes, etc., para manter o alcoólico na sobriedade, o melhor programa é o dos Alcoólicos Anônimos.
  Muitos dos problemas que apareceram na Justiça, onde o autor era um homem ou mulher problema para a Justiça, se a causa era o alcoolismo, vi como um passo de mágica, se transformarem em elementos úteis à família, à comunidade e à Justiça.
  Sob este aspecto, os não-alcoólatras tem uma grande responsabilidade, por que os doentes alcoólatras precisam de você, mais do que qualquer outro tipo de doença, por acreditarem que não são doentes.

4 - Alcoólicos Anônimos - Uma Filosofia de Vida.

  Alcoólicos Anônimos é uma irmandade mundial de homens e mulheres, que unidos compartilham suas experiências para se manterem sóbrios e ajudarem outras pessoas na recuperação da desconcertante doença chamada alcoolismo.
  Não possuem leis fixas, nem recebem ordens, ninguém é dono, manda ou aconselha outras pessoas, não está ligada a nenhuma seita ou partido, não aceita ajuda em dinheiro, são auto-suficientes, etc.
  Será que uma irmandade dessa natureza funciona?
  Realmente, para quem não conhece as Tradições e os Passos que regem os Alcoólicos Anônimos, é muito difícil acreditar que exista uma irmandade com essas características e que seja eficaz na recuperação dos alcoólicos.
  Para mim é uma filosofia de vida calcada no amor próprio e no do próximo, despindo o ser humano da vaidade, orgulho, egoísmo, egocentrismo - e em seu lugar colocam a humildade, sinceridade, amor ao próximo, espírito de servir sem, contudo, obrigar ou forçar ninguém.
  Em outras palavras, pratica a verdadeira promoção humana, onde através do exemplo ou da experiência pessoal, faz nascer a esperança na mente do alcoólico, ao contrário do "não pode beber" - provoca no doente a autodeterminação: "Eu não quero beber ou eu não posso beber"
  Em termos de irmandade o anonimato, longe de se colocar como algo que à primeira vista pareça ser, ou seja, por ter vergonha de ser um alcoólatra, representa o alicerce espiritual do "princípio  acima da personalidades". Todo alcoólico recuperado é um homem maravilhoso e admirado como um ser dotado de grandes qualidades e força e vontade.  O anonimato reprime a vaidade pessoal e o risco da recaídacomprometer a irmandade.
  Os Doze Passos representam uma verdadeira filosofia de vida, onde a aceitação da condição de doente se coloca como o primeiros degrau; a seguir o reconhecimento da existência de um Poder Supremo e a entrega total dos problemas a um Deus tal qual cada um O concebe; um inventário moral, reconhecendo as suas imperfeições, reparando os males causados durante o alcoolismo ativo e desde que isso não signifique prejudicar outras pessoas; e o último degrau da espiritualidade coloca o servir, que representa o trabalho em prol das pessoas que ainda sofrem do mal do alcoolismo. Aliás, o trabalho do décimo-segundo passo é a principaarma contra as recaídas como a experiência tem demonstrado.
  Os legados dos Alcoólicos Anônimos – Recuperação, Unidade e Serviço, mesmo numa cidade como São Paulo – violenta, fria, desumana e problemática – m sendo praticado e preservado pelos maravilhososAlcoólicos Anônimos do Brasil.
  A estrutura da irmandade, as Doze Tradições, os Doze Passos e as recomendações  contidas na extensa bibliografia de Alcoólicos Anônimos não é coisa feita apenas pela troca de experiências pessoais dos alcoólicos, mas sobretudo das mãos do Poder Superior e albergam em suas liões as mais atualizadas e respeitadas conclusões no campo da Medicina, Psicologia, Medicina Psicossomática, religião, relações humanas, força do amor humano, etc.
  Enfim, é uma filosofia de vida não só para combater ou lutar contra a compulsão de beber ou da dença do alcoolismo, mas sendo um programa de vida é possível recomendar para qualquer pessoa na busca de uma vida melhor e mais feliz.
  Adoto, aliás, esta filosofia de vida no meu trabalho, no relacionamento com outras pessoas e com isso tenho conseguido muita serenidade e felicidade pessoal. Nesse aspecto, a minha gratidão com os Alcoólicos Anônimos é imensa.
  A “Oração da serenidade” do Dr. Reinhold Niebuhr, professor de Cristianismo Aplicado; “viva um dia de cada vez” do médico canadense William Osler; a técnica “da aceitação” de Cristo ou o “coopere com o inevitável” do grande psicólogo William James; “viver e deixar viver”, “vá com calma” etc., são dentre muitos, as lições que o programa sugere.
  Digo sugere porque em Alcoólicos Anônimos ninguém obriga a nada, senão a conscientização de si mesmo.
  Conhecimento de “si mesmo”, lição famosa de Sócrates e do Budismo - é uma constante no modo de viver dos alcoólicos em recuperação. Conhecer o mundo interior, ou a conquista de si mesmo é mais importante e difícil do que conquistar o mundo.
  Napoleão que foi um grande conquistador, com poder e fama disse: “Nunca tive seis dias contínuos de felicidade”; enquanto Hellen Keller que era surda, muda e cega disse: “ A vida foi uma felicidade continua”
  A honestidade consigo mesmo faz parte constante do aprimoramento espiritual de A.A.
  Nunca é demais ressaltar as palavras do Dr. Fostes Kennedy, famoso neuropsiquiatra de Nova Iorque: “Todo bêbado curado serve de missionário junto aos doentes”, e ainda, um auxiliar de Rockfeller disse:“Mas os AAs são como os cristãos do primeiro século. E todos sabemos que os cristãos do primeiro século transformaram o mundo sem dinheiro”.
  Para finalizar, o trabalho e a filosofia dos Alcoólicos Anônimos no Brasil, como ocorreu nos Estados Unidos, precisam ser colocados no seu devido lugar, ou seja, de respeito e de credibilidade perante a comunidade, especialmente junto aos profissionais, autoridades e instituições, como condição miníma no tratamento da doença do alcoolismo.
 
 
Revista Vivência nº 2 / Janeiro de 1987