DP - Procuramos a "Sala de A.A."

Nos anos de 1965, quando eu trabalhava em uma Paróquia de minha cidade, percebi um movimento de reuniões no fundo da Igreja. Notei que aqueles
participantes eram os mesmos que eu havia visto na rua caídos, sujos e até mal cheirosos.
 
Fiquei muito curioso e perguntei ao vigário que reunião era aquela, pois, os membros da mesma (aqueles que eu via na rua) estavam todos limpos, com barba feita e até um casal que costumava mendigar para conseguir uns trocados para beber estava bonito.
 
Para manter o anonimato o vigário respondeu-me: - Eles estão reunidos na "Sala dos Milagres", meu filho!  Após cinco anos o álcool começou a perturbar toda a minha família. Tudo começou com meu pai. Foi um grande sofrimento, principalmente para mim, que recebia telefonemas de minha mãe dizendo: - Meu filho busque seu pai, ele está caído na carpintaria; ele está bêbado, não tem condições de voltar para casa. A mesma cena repetiu-se várias vezes, com meu pai chorando em meu ombro dizendo: - Meu filho ajude-me, não aguento mais essa vida, vejo que estou fazendo meus
onze filhos e sua mãe sofrerem.
 
Foi no sofrimento que lembrei das palavras do vigário: "Sala dos Milagres". Fui lá bater à porta e pedir ajuda para meu pai. Na mesma semana começaram a "trabalhar" com ele e eu sempre dizendo: - Papai, vá assistir a uma reunião, você vai gostar, tudo pode mudar! Com muita dificuldade ele foi assistir às reuniões. Ficou caladinho por vários dias, até que um dia eu não aguentei e perguntei: - Papai, o senhor está frequentando as reuniões de A.A.? Balançando a cabeça, com um sorriso lindo ele disse um sonoro "sim". Como a minha família ficou feliz com a sobriedade do nosso pai! A paz voltou a reinar em nosso lar.
 
Infelizmente, nós filhos, não sabíamos que o alcoolismo é uma doença e, penso eu, que é hereditária. Três anos depois eu estava bebendo todo final de semana e logo a semana inteira, totalmente dominado pelo álcool. A situação havia se invertido e meu pai sempre dizendo: - Zezé meu filho, você também é um alcoólico, venha comigo assistir a uma reunião. Mas eu sempre negava dizendo que eu não era alcoólico e que conseguia parar a hora que eu quisesse. Papai e mamãe lutaram muito comigo e muitas lágrimas rolaram por suas faces, pois viam que eu estava ficando doente. Sofri
muito com minha teimosia, minha esposa e filhos também. Eu estava perdendo minha família, derrotado fisicamente, mentalmente, socialmente e
financeiramente.
 
Certo dia eu estava sentado à porta de minha residência passou um companheiro de copo e falou: - Olá, José, você está mal, ainda não tomou nenhuma? Com firmeza falei:
- Não vou beber mais e estou indo para a reunião de A.A. Admirado ele pediu-me para esperá-lo porque só iria a sua casa trocar de roupa e voltaria para ir comigo. Este foi o grande companheiro que o Poder Superior me enviou neste momento difícil de minha vida.
 
Chegando à sala de A.A. debilitado física, moralmente, chorando muito, eu implorei ao coordenador e demais presentes à reunião: - Pelo amor de Deus,
me ajudem, pois não aguento mais! No mesmo instante eu escutei um choro ainda mais alto no fundo da sala. Era o choro de meu pai dizendo assim: - Meu filho, aqui é nossa casa, você agora está no lugar certo e você não vai mais morrer de alcoolismo, tenho certeza disso! Emocionados abraçamo-nos e choramos juntos com todos os companheiros. Lembro-me, como se fosse hoje do olhar daqueles companheiros dizendo-me : - Nós vamos ajudar. Aquele "Sim" do meu pai dentro de A.A. salvou a minha vida e de mais dois de meus irmãos.
 
 
Papai dedicou-se muito a A.A. e procurava seguir fielmente os Doze Passos; trabalhou muito no 12º Passo que é levar a mensagem aos alcoólicos que
sofrem e obteve muito êxito. Ele faleceu em 2000 deixando-me a tarefa de tentar novamente fundar um grupo de A.A. numa cidade vizinha. Em 2007 reuni os companheiros de meu grupo e fomos em dois carros, meu filho e eu. Deu certo, formamos o Grupo "Viva a Vida".
 
 
A maior alegria que meu pai sentiu dentro da sala de A.A. eu também senti ouvindo meu filho dizer um mês depois da inauguração do grupo que ele era
alcoólico e queria ingressar. Neste momento fiquei com vontade de gritar: - Obrigado meu Deus, obrigado papai, com o seu "Sim" em Alcoólicos
Anônimos acabou de salvar também seu neto.
 
Sempre ouvia papai dizer que não iria deixar seus filhos morrerem no alcoolismo, pois ele era um A.A. Papai, onde quer que você esteja continue pedindo proteção e orando a Deus não só por seus filhos e netos, mas por todos aqueles que ainda precisam de ajuda para sair do alcoolismo. Você foi um grande A.A.                                                    
 
 (Vivência nº 116 - nov/dez / 2008 )