Artigos - Quadros na parede

Afinal, quem precisa de Conceitos?

Era bem cedo. Faltava quase uma hora para a reunião iniciar. Eu estava nos primeiros dias de minha recuperação e me fora sugerido que frequentasse quantas reuniões pudesse e também que, se possível, chegasse mais cedo, para integrar-me às atividades do grupo. Naquela noite eu conversava com o companheiro mais antigo que se colocava à disposição para me ouvir e sanar minhas tantas dúvidas de principiante, quando lhe perguntei para que serviam os Conceitos. Eu já sabia que os Doze Passos eram relacionados à recuperação individual e que as Doze Tradições ajudavam na segurança dos relacionamentos dos grupos entre si e com a comunidade local. Mas, e os Doze Conceitos? Aqueles princípios em letras miúdas e fartas, estavam me intrigando. O companheiro mirou os quadros, coçou a cabeça e respondeu de supetão: "Isso é coisa dos Custódios e da Conferência". Não aceitei a resposta e, com toda aquela curiosidade que alguns novatos têm, retornei: "Se não dizem respeito ao grupo, por que estão aqui, na parede?" E o companheiro, embaraçado, finalizou a questão: "Estão aqui, porque a Conferência recomendou". Continuei sem entender, mas cessei a especulação. Foi assim meu primeiro
contato com os Doze Conceitos para os Serviços Mundiais. Cerca de um ano depois, adquiri o livro dos Conceitos. Agora acreditava estar apto
para entender aquele negócio complicado. Li o prefácio, o Primeiro Conceito, o Segundo e... ao contrário do que eu esperava, minha cabeça começou a embaralhar a partir do Terceiro. A leitura me pareceu tão complicada que pensei em atirar o livro para longe e me lembrei do companheiro no grupo: "Ele tinha razão", pensei. Mas eu não iria desistir tão facilmente. Dias depois participei de um Clico de Estudos dos
Conceitos. Foi lá que soube da existência do livro "Os Doze Conceitos Ilustrados para Serviços Mundiais". Adquiri o livro e, com muito mais facilidade, comecei a compreender alguma coisa dos Conceitos. Ainda não sabia que o livro "Os Doze Conceitos para Serviços Mundiais" fora
escrito há menos tempo que eu pensava, em 1962, e que é o único item de nossa literatura escrito por Bill que traz o selo da Conferência de Serviços Gerais. Não tardou para que eu conseguisse ler o texto completo dos Conceitos, sem ter tanta dificuldade. Li uma, duas, várias vezes para entender algumas particularidades de cada princípio e venho aprendendo muito tentando praticá-los no serviço de A.A. Quanto ao comentário do companheiro no grupo, formei opinião e tento dizer diferente aos que chegam hoje. Descobri o porquê dos Doze Conceitos estarem afixados na parede de (infelizmente) parte dos grupos que freqüento. É que os Conceitos são "lubrificante" dos relacionamentos necessários para que funcione em harmonia toda a estrutura de serviços de A.A. Ou seja, bons relacionamentos do grupo à Conferência, entre a Conferência e a Junta de Custódios e entre a Junta e os órgãos de serviços nacionais (a JUNAAB, no caso do Brasil) com seus servidores e funcionários contratados. Hoje entendo que os Conceitos não servem apenas aos componentes da Conferência de Serviços Gerais. Portanto, quando disse toda a estrutura, certamente incluí os grupos, onde todo o serviço começa e termina; por isso os Doze Conceitos estarem presentes no grupo. Os dois primeiros Conceitos são históricos; contam o porquê da cadeia de representatividade expressa na estrutura de serviços de A.A. Lendo-os, precisei reformular minha idéia de estrutura de A.A., pois até então pensava que toda a responsabilidade pela continuidade de A.A. fosse dos Custódios ou da Conferência e não dos grupos. Mudei meu próprio conceito de grupo e comecei a vê-lo como uma célula e com uma responsabilidade muito maior que pensava. Mais à frente notei, conversando com companheiros mais experientes, que alguns princípios podem ser aplicados por qualquer servidor de A.A. Este é o caso do Terceiro, Quarto e Quinto Conceitos, que falam dos Direitos, utilizados como norte nas relações entre o serviço e a consciência coletiva. Como desde o início sempre tentei servir, não foi difícil compreender as qualidades de um bom líder, expressas por Bill no Nono Conceito. Notei que enquanto servidor ou liderança, seja na Área, na Conferência, no grupo fazendo a limpeza da sala, no Trabalho com os Outros, enfim, em qualquer atividade de serviço, sempre precisarei melhorar e amoldar-me a essas características. Quando li o Décimo Conceito imaginei uma balança de dois pratos equilibrando a autoridade e a responsabilidade. Lembrei-me do coordenador geral do grupo em que cheguei. Como na maioria dos grupos, ele é responsável por abrir a sala e cuidar dos preparativos para a reunião, entre esses o cafezinho. Acontece que certa vez, o novo escolhido para o encargo fazia o café muito franco, quase transparente. Segundo o equilíbrio, a ele concedemos a responsabilidade para fazer o café e a autoridade para optar sobre como iria fazê-lo (falamos com ele e o café melhorou). Continuei lendo os Conceitos, quando um companheiro me sugeriu que o fizesse em conjunto com o Manual de Serviços, para melhor entendimento da estrutura nacional de A.A. Isso foi porque quando me aprofundei no Sexto, Sétimo, Oitavo e principalmente no Décimo Primeiro e Décimo Segundo Conceitos, encontrei dificuldades de entendimento. Nessa altura eu já tinha o Manual de Serviços e, tentando fazer o sugerido, tive um enorme avanço e meus porquês diminuíram. Foi tentando entender como funciona a estrutura de serviços que despertei para a expressa necessidade de voltar a estudar as Tradições e, mais do que isso, senti que eu fazia parte de um grande todo e que tinha uma responsabilidade própria. Talvez foi esse entendimento, aliado à necessidade de viver bem sem precisar beber, que me fizeram mergulhar no modo de vida de A.A., através da prática de princípios espirituais.

(Um servidor) – Vivência N° 49 – SET/OUT 1997"
Os Conceitos são o "lubrificante" dos relacionamentos necessários para que funcione em harmonia toda a estrutura de serviços de A.A."  SECRETARIA DE LITERATURAMARIA DA PAZ/EGEU