DP - Quando eu agradeço? Apenas quando respiro...

Quando eu agradeço? Apenas quando respiro...

Não sei como é com você, mas comigo é assim: eu começo a agradecer e já começo a sorrir. Muitas vezes estou rindo alto, de tão grata que me sinto. Gratidão e alegria devem ser parentes próximas, gostam de viver uma perto da outra. E eu gosto de viver no meio das duas.

Precisei parar de fazer uma tradução sobre a árvore Ginkgo Biloba, uma maravilha sobre vários aspectos (a árvore), porque fui ao banheiro lavar as mãos. Daí me olhei no espelho, gostei da minha cara me olhando satisfeita, e decidi experimentar uma maneira nova de segurar o meu cabelo para trás. Olhei de novo e gostei de novo. E foi então que aconteceu. Uma onda quente de gratidão me invadiu, surgiu no meu coração e seguiu pelas veias, pelos fluídos, pela energia vital, até a raiz do meu ser, até a ponta de cada fio de cabelo. Me apoiei na pia, me vendo no espelho, cheia de gratidão. Mas que coisa boa estar viva hoje, com os filhos que tenho, com a experiência de vida que tenho, com a tremenda sensação de integridade comigo mesma e com o cosmo. Só por hoje. Mas é o que basta.

Agradeço abertamente ao Poder Superior por me ser permitido trilhar os descaminhos do alcoolismo. Não foi a esmo que andei bebendo. Sempre busquei a vida - eu sempre me neguei a cumprir a injunção da morte. Pelo alcoolismo rasguei a cortina de ferro que me separava do resto da criação, o Poder Superior pôde envolver-me de perto, a grande dor me libertou para o grande amor. Reconheço que, para mim, a lição aprendida através do alcoolismo era a dose necessária para me sacudir do imobilismo mortal. Nunca residiu no álcool o problema, pelo contrário, o uso do álcool foi o tonto fio condutor que me levou para fora do labirinto suicida, escolhido por grande parte da humanidade, alcoólica ou não.

Por essa e por outras é que o Terceiro Passo agora se transformou no meu fio de ariadne. Quando me sinto presa no labirinto de novo (e eu fui criada para isso, apesar de nascida para a liberdade), eu me penduro no fio e me lanço no infinito. O infinito é puro amor incondicional, eu sei que é porque experimento diariamente essa realidade. Não tem nada a ver com fé ou lógica, é um fato que constatei e constato, para mim não há mais o que discutir a respeito.

Mas há o que agradecer. Não sei como é com você, mas comigo é assim: eu começo a agradecer e já começo a sorrir. Muitas vezes estou rindo alto, de tão grata que me sinto. Gratidão e alegria devem ser parentes próximas, gostam de viver uma perto da outra. E eu gosto de viver no meio das duas.

Gosto também de me sentir aceita e amada. Quando parei de escolher beber diariamente, quando procurei seguir as sugestões do Programa de A.A., eu não acreditava na minha capacidade de amar. Amar o quê? Por quê? Amar quem? Como amar alguém, se em ninguém mais eu confiava?

Para ser bem franca, eu havia chegado à conclusão que não tinha mais nenhuma esperança de amar alguém, pior, nunca fôra capaz de amar alguém; no máximo, procurava cumprir com meus deveres.

Ufa! Que bom que naquela época eu estava enganada! Hoje sei que para amar é preciso ser amada primeiro, e sei que sempre fui amada, o Poder Superior ama toda a Criação, logo ama a mim e a ti, as pedras, as nuvens, os ares e os mares, o micro e o macro. Tudo faz sentido. Meu alcoolismo faz sentido. Eu me abraço e me amo e me aceito e me perdôo - porque sou amada, abraçada, aceita e perdoada.

O Poder Superior me permite sentir isso tudo diariamente pelas mãos dos meus filhos. Eles vêm correndo me abraçar, beijam-me a toda hora, sempre me perdoam prontamente, em suma: me aceitam como eu sou. Para mim, a coisa mais difícil do mundo é me aceitar como eu sou e eles fazem isso sem nenhum esforço. É espantoso, eu fico pasma de ver. Daí eu paro, me vejo no espelho e agradeço. O amor e o sofrimento são nossos grandes mestres. Peço ao Poder Superior, com todas as fibras do meu ser, que a humanidade aprenda a escolher o amor como via de aprendizado, daqui pra frente, pondo em prática o que sugere o Terceiro Passo. Só por hoje.

O que vivi enquanto eu bebia e o que vivo, tentando aceitar o exemplo de Bill e Bob, me ensinam lentamente a aceitar ser amada, mais que isso, desvencilham- se de mim para amar de volta. Com entusiasmo!

Edição 44 - Novembro / Dezembro 96