DP - Que AA sou eu ? > RV. 046

QUE AA SOU EU? 
 
  Se  eu  fosse  um  membro  de  A.A.  com  cerca   de  dois  anos sem beber e me mudasse para um outro país onde  não existisse Alcoólicos Anônimos, o que eu faria?
  Eu teria feito algum tipo de trabalho para  iniciar um Grupo nesse  país?  Eu teria trabalhado incansavelmente por cerca  de  três anos,   sem  desanimar, fazendo abordagens, promovendo reuniões, pedindo ajuda para o escritório de  outro  país,  procurando  jornais,  rádios, traduzindo e editando livretos? 
Tudo isso tendo ainda que cuidar da própria vida, da família e trabalhar para viver?

  Eu teria feito tudo isso? De maneira tão firme que hoje, neste ano de 1997, a Irmandade estivesse completando cinquenta anos de existência com cerca de sete mil Grupos e uma estrutura de serviços formada?
Não. Provavelmente eu teria bebido. Como é que eu iria frequentar reuniões num país estranho, se nem um Grupo havia? Não sei se estou  sendo injusto ou  excessivamente  impiedoso  comigo  mesmo,  mas  o  fato   é  que  fiquei 
curioso a meu próprio respeito. Nesse ano de 1997,  em  que  só  se  fala  do cinquentenário de A.A. do Brasil, vale a pena uma introspecção, uma olhada para dentro de mim, a partir de um fato concreto.

  O fato concreto é que um dia, no ano de 1946, um sujeito chamado Herb D. chegou ao Brasil, mais precisamente ao Rio de Janeiro, para morar e exercer o seu ofício. Era um membro de A.A. nos Estados Unidos, com cerca de dois anos de sobriedade. Ao tentar participar de uma reunião, descobriu que não havia A.A. em lugar nenhum daquele país.  Qual foi  sua reação?  Foi  aquela descrita no início deste artigo. Durante cerca de três anos, junto com os que começaram a chegar, lutou o tempo todo até que,  ao  ir  embora,  deixou  o embrião da  Irmandade  em  nosso  país,  ou  seja,  um  Grupo  funcionando regularmente.
   Com dois anos de A.A., eu já havia me casado pela segunda vez e era muito apegado ao meu lar. Com muito  favor, ia às duas  únicas  reuniões  semanais de  meu   Grupo,  prática  que   facilmente  podia  reduzir-se  a  uma  vez   por semana, dependendo de outros compromissos.  Durante  aqueles  primeiros anos,  prestei  alguns  poucos  serviços.  Nada  muito  estafante...  Coordenei reuniões durante algum tempo e também instalava a sala. Quem coordenava naquele tempo também tinha que instalar e desinstalar  o  Grupo.  É  que  se situava  numa  sala  dos  fundos  de  uma   igreja,   onde   além   de  A.A.,   se desenvolviam   várias  outras  atividades   da   comunidade.  O   nosso  Grupo, mesmo quando não estava tendo reunião,   ficava localizado  dentro  de duas caixas de madeira em cima de um armário velho. Quem ia coordenar chegava uma hora antes, varria a sala, abria as caixas e instalava o Grupo. Arrumava a mesa com a toalha, os livros, a campainha, o relógio,  a sacola,  pendurava na parede os Passos, as Tradições, a oração e diversas frases, inclusive o desenho meio gasto de uma tartaruga, com o lema "Vá com calma" escrito em cima.
  Certa  vez,  fui  eleito  RSG.  Antes  de   me  candidatar,  fui  perguntar  a  um veterano o que fazia o RSG. Ele me respondeu que  o RSG servia para eleger o Delegado, o   que  acontecia  uma  vez  por  ano  (o  que  não  deixava  de  ser verdade, já que naquela época não havia ainda estrutura de serviços). Fiquei bastante animado com o encargo. Uma reunião por ano, eu podia fazer esse sacrifício. (Hoje em dia, já velho mentor - pelo menos eu gostaria - de vez em quando me pego no pulo dizendo para   os  mais  jovens:  "Com  dois anos de A.A., eu já trabalhava como RSG.")
  Quando o Grupo passou a ter  reuniões  diárias,  fiquei  confuso.  Entendam, com duas semanais, se eu faltasse  uma  reunião  por  semana,  ainda  assim estaria participando de cinquenta por cento das atividades do Grupo. Reunião todo dia complicou. Assim, mudei de Grupo.
  Foi espantosa a paciência e a tolerância que meus padrinhos sempre tiveram comigo.  Ambos  foram  e  ainda  são muito  ativos no A.A.  Uma  ocasião, em períodos sucessivos, os dois se elegeram para encargos  no escritório  local  e prestaram serviços marcantes. Eu apoiei entusiasticamente essas  iniciativas, porém fiquei de fora. "Eu preferia ser anônimo servidor de Grupo", dizia para mim mesmo. Muitas vezes eles e outros bons  servidores  vieram  jantar  em minha casa e tivemos reuniões memoráveis até o último trem de metrô, com assuntos intermináveis, recheados de muitas risadas. Eu participava de todos os assuntos, dava palpites de como administrar bem o escritório,  mas nunca fui   lá.   Eles   também,   "macacos  velhos",   não   ficavam   me   convidando. Limitavam-se a fazer a parte deles, a dar o exemplo. Nessa época, eu andava querendo posar de velho mentor no Grupo onde ia uma vez por semana,  ou seja, recusando-me à candidatura em encargos  "para  dar  espaço  aos  mais novos".
  Aproximando- me  de  uma  década  de  um  programa  meio  titubeante,  a Providência interveio. Na verdade,  eu  me  sentia  atraído  pelo  exemplo  de meus padrinhos, mas eu me continha com o  argumento  de  que  não  tinha tempo. Pois bem, de  repente  aconteceu  de  me  sobrar  todo  o  tempo  do mundo. Tive que fazer uma cirurgia na  minha  perna  esquerda, velha amiga que me dá um trabalho extra desde uma longínqua  madrugada  em  que  se misturaram uma vasta bebedeira, um carro emprestado e um  poste. O  fato é que entrei em uma prolongada licença.
  Um dia,  após ler  todos  os  livros  que  tinha  em  casa,  perguntei  ao  meu padrinho se havia algo para fazer no ESG onde ele  estava  com  um  encargo. 
Ele, meio distraído e sem acreditar muito no  que estava ouvindo,  me  disse 
que sim,  que  havia  lá  muita  coisa  para  fazer,  especialmente   cartas  que estavam se acumulando. O fato é  que comecei  a ir.  Naquela   época,  havia algumas   novidades.  Estava  saindo   o   primeiro   número  do   Bob  Mural, formava-se o primeiro Comitê de Literatura, falava-se que dali a alguns  anos 
a Vivência deveria vir para São Paulo, sede da JUNAAB. Comecei a gostar das pessoas e do que fazia. E continuo indo lá até hoje. Prestei alguns serviço s e tenho tido alguns poucos encargos. Nada muito estafante, repito. Ou que eu não gostasse de fazer. Sou daqueles que escolhem o que fazer. Na dúvida, eu falo não. Se me convidarem para ser tesoureiro de meu Grupo, é bem  capaz que eu suma do mapa. No duro no duro, acho que o meu sonho mesmo é ter  de volta aquele meu encargo de RSG dos meus dois anos de A.A. Aquele  em que só precisava ir à uma reunião por ano.

   Ultimamente   ando  pensando  em  me  aposentar de A.A.  Como  diz   um companheiro mais antigo que se afastou recentemente, "não vou fazer mais nada, só ir às reuniões do meu Grupo, me sentar na  última fileira  como  um velho resmungão e passar o tempo  todo  pigarreando  com  ar  reprovador".
Na verdade, dando um balanço  final, fiz muito pouco -  nem  de  longe  fiz  o que  poderia  chamar  de  "a minha parte".  Recebi  de  A.A.  uma  nova  vida quando tudo estava perdido. A maior parte do tempo eu me  esqueço disso.
O que eu faria se, membro da Irmandade há dois anos, chegasse para morar num país estranho e lá não tivesse A.A.? Provavelmente eu teria bebido.
 E você, companheiro?

 
 José Roberto
 
 Vivência 46 – Mar/Abr 97