DP - Que tal esse plano de Vinte e quatro horas?

QUE TAL ESSE PLANO DAS VINTE E QUATRO HORAS?
     

 
Antes de mais nada, o que diz o plano das vinte e quatro horas? Ele diz: "Viva a vida um dia de cada vez, Tanto para ficar longe da bebida, como para conduzir todas as outras atividades de sua vida; não deixe o ontem ou o amanhã desviá-lo do que você pode fazer hoje".
 

 
"Esse plano das vinte e quatro horas é o mais engenhoso artifício de falsidade intelectual e autodecepção que eu já vi! Vocês me dizem que tudo o que tenho de fazer é permanecer sóbrio apenas por hoje - quando eu sei muito bem que vocês esperam que eu abandone a bebida para sempre. Quem está brincando com quem? E, assim que eu aplicar o plano das vinte e quatro horas em "todas as minhas atividades", como poderei realizar algum trabalho, se não planejar antes?"
 

   Estas eram as palavras que eu gostaria de ter gritado a cada um, e a todos, quando cheguei em A.A. Não o fiz somente porque não tive coragem para tanto. Mas, intimamente, bem lá no fundo, frequentemente o fazia para mim mesmo.
   Nos anos subsequentes, vim a acreditar que o plano das vinte e quatro horas é a mais extraordinária receita para a produtividade, serenidade, e, sobretudo, felicidade que o homem jamais imaginou. Então, por alguns minutos, vamos examinar os quês e os porquês, os quandos e os para quês.
   Nos meus dias de ativa, eu tinha que viver no passado, ou no futuro. Eu oscilava, alternadamente, entre o esplendor das glórias do ontem (na maioria, frutos da minha imaginação), o remorso e o ressentimento das derrotas do passado. Ou entregava-me a sonhos sobre o que poderia fazer amanhã, ou torturava a mim mesmo com os medos de onde eu poderia falhar. Decididamente eu não conseguia viver o hoje. Isso demandaria mais ação e mais responsabilidade do que eu seria capaz.
   O plano das vinte e quatro horas tem sido a minha chave para a libertação dessa prisão. Ele é a arte de se viver onde temos condição de agir, de concentrar nossos esforços apenas no momento certo para aquilo que nos seja possível realizar - neste exato momento. Este é o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de beber ou deixar de fazê-lo, o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de levar a mensagem, e, nesse sentido, fazer algo a respeito de todas as atividades em minha vida.
   Isso quer dizer que eu não posso fazer planos para o futuro? Positivamente, não. Significa que posso planejar as minhas ações, mas não projetar o resultado. Significa que, se a coisa mais importante que eu devo fazer neste instante (primeiro as coisas primeiras), é planejar algo para amanhã, para o mês que vem, ou para o próximo ano, preciso dedicar-me neste momento para isso.
   Por que o plano das vinte e quatro horas funciona? Ele tem funcionado para mim porque divide a vida em segmentos que tornam possível manejá-la - uma coisa de cada vez. Faz lembrar aqueles velhos filmes de cavalaria, onde o mocinho, perseguido pelos índios, sempre se esconde em um estreito desfiladeiro, de onde ele pode eliminá-los, um de cada vez. Lembro-me que nos meus tempos de escola, o instrutor de remo costumava nos dizer, quando chegávamos aos últimos quatrocentos metros da regata, que devíamos esquecer os quatrocentos metros restantes, e simplesmente ir em frente, concentrados apenas em movimentar aquele remo para frente e para trás, uma vez mais.
   Os quatrocentos metros, a tribo de índios, toda uma vida, não são controláveis mas, uma remada, um índio, um dia, nós podemos manejar neste exato momento.
   Outra razão pela qual o plano das vinte e quatro horas funcionou para mim, é que ele oferece recompensas emocionais pelos êxitos obtidos. Se eu disser que nunca mais tomarei um gole enquanto viver, esteri em meu leito de morte antes de saber se o fiz. E, se for atropelado por um caminhão, nunca ficarei sabendo. Assim, a vida torna-se uma eterna busca por um objetivo que, provavelmente, eu nunca tenha a satisfação de alcançar. Mas se eu decido que não tomarei um gole hoje, no fim do dia eu saberei que consegui. Isso é uma conquista e, como todas as conquistas, traz satisfação. Faço o mesmo, dia após dia, e estou empilhando conquistas, adquirindo, assim, um equilíbrio que me é muito precioso - e, por essa razão, uma conquista que não estou propenso a abandonar - a cada que passa.
   Além do mais, a conquista pode se tornar uma rotina, tanto quanto o álcool. Um pequeno triunfo nos faz bem; assim, ansiamos por mais um pouquinho. Quanto mais a gente consegue, mais a gente quer e, de repente, estamos fisgados - fisgados por um hábito que é construtivo, e não destrutivo.
   Eu tinha que fazer, do plano das vinte e quatro horas, um hábito. Quando aderi a ele, displicentemente, e não funcionou e nem fazia sentido. Eu desconhecia o velho chavão de que, para o alcoólico em recuperação, a ação tem que vir antes do entendimento e da fé. Eu não havia compreendido que temos que dirigir o nosso modo de pensar para a forma correta, em vez de fazer o contrário.
   Nos últimos dias das minhas bebedeiras, eu não tinha fé - nenhuma fé: nem mesmo da existência de um Poder Superior bondoso. Afinal, se houvesse algum Poder Superior, ele teria que ser maldoso, do contrário, por que teria ele escolhido a mim para ficar sem a coisa mais relaxante da vida - beber?
   Assim, quando meu padrinho disse-me para agradecer a Deus, todas as manhãs, pelo dia que passou e pedir-lhe ajuda para o dia que tenho pela frente, eu disse a ele que não acreditava em Deus. Ele respondeu: "Faça assim mesmo".
   Então, finalmente, decidi colocar o plano das vinte e quatro horas de uma forma habitual. Eu o associaria a alguma coisa que faço todos os dias - tomar banho, por exemplo. Todas as manhãs, no chuveiro, eu estabeleceria as bases para as vinte e quatro horas daquele dia. Gradualmente, isso foi evoluindo, para se tornar, na acepção da palavra, um programa. Provavelmente, isso vai gastar um bocado de água, mas, pelo menos, água é bem mais barata do que vodca.
 
                  O Programa Funciona mais ou menos assim:
 

   1. Primeiramente, agradeço a Deus pela minha sobriedade durante o dia anterior.
   2. Depois, procuro em minha mente por algo que eu tenha feito melhor do que eu teria feito antes. Algum pequeno triunfo sobre um defeito de caráter - alguma pequena aplicação de coisas que eu tenha aprendido em A.A. E agradeço a Deus por isso. Isto é a parte do negócio de se adquirir o equilíbrio e de se ter sucesso por acréscimo. Porém, mais do que isso, é um remédio específico para o meu mais mutilante defeito - a falta de amor-próprio. O fato de estar ciente do que fiz corretamente, a cada dia, tem imperceptivelmentefeito por fertilizar todas as raízes do meu debilitado amor-próprio..
   3. Digo amim mesmo que sou um alcoólico. Eu sei que a mente humana, reflexivamente, apaga as lembranças desagradáveis, e estou decidido a contra-atacar esse reflexo, a fim de que eu jamais venha a achar que estou seguro e posso beber normalmente. Por isso, imagino uma bebida em minha mente (usualmente, um martini gelado) e então, conscientemente, relembro algum horrendo incidente aloólico. Assim, eu tenho bem atadas, em minha mente, a bebida e a inevitável consequência. Tenho feito isto por inúmeras milhares de manhãs e creio que não me seria possível procurar por um trago sem, ao mesmo tempo, vislumbrar um quadro detalhado do resultado. Construí o meu próprio anti-reflexo.
   4. Devido não tomar um gole no dia que está começando, e peço a Deus que me ajude a levar avante esta decisão. Nos primeiros meses e anos eu podia prever, com certeza, situações, no dia que nascia, onde eu sabia que estaria exposto à bebida - um almoço de negócios com um grupo de bebedores da pesada, ou fazendo hora no aeroporto de Cleveland. Podia visualizar a situação iminente em detalhes e dizer a mim mmesmo, "estou decidindo agora (no chuveiro), que eu não vou tomar um gole quando a situação ocorrer".
   5. Por último, eu decido por um "Dia Especial". Vim para o A.A. com tantas falhas e defeitos de caráter, que nem ao menos podia contá-los. Ainda tenho uma boa parte deles. Se, por um lado, inteletualmente, eu anseio por livrar-me deles, por outro, emocionalmente, ainda os acho mjeio engraçados. Com esse conflito em minha cabeça, o problema de trabalhar em cima deles se assemelha com tentar trocar um aperto de mão com um plovo. Desse modo, eu pego um defeito de caráter e concentro-me nele durante aquele dia, e peço a Deus que me ajude a ser bem sucedido.
 
                       A Prática
 
   Naturalmente esse programa diário não chega pré-fabricado em frente àminha porta. Ele se desenvolve com a prática.
   Em poucos meses, ele me provou a existência de um Deus benevolente.
   No dia em questão, eu sabia que teria de trabalhar até tarde da noite e teria um tempo ocioso na Grand Station, esperando pelo  último trem. Antevendo a situação, tomei a decisão de não me atirar para a minha costumeira série de "duplos" no bar, e pedi ajuda para manter-me firme na decisão. Na manhã seguinte, surpreendi-me ao compreender que eu passara uma hora na estação, lendo um jornal, sem que tivesse passado pela minha cabeça a idéia de beber.
   Eu poderia ter sido capaz de evitar que uma mudança de idéia se tornasse uma compulsão, ou que uma compulsão me levasse à ação, mas houve um Poder, muito maior que eu mesmo, para barrar até mesmo o pensamento vindo de minha própria consciência.
   Desse dia em diante, eu vim a acreditar.
   Os cinco passos da "ducha matinal" podem parecer meio complexos. Todos eles se resumem em se estar agradecido a Deus pela sobriedade e pelo crescimento, em admitir-se como alcoólico, e pedir ajuda para a manutenção da sobriedade e do crescimento - só por hoje.
   É facil: ao examinar o processo, você notará que els se incorporam a cada um dos Doze Passos, exceto o de "levar a mensagem", que é parte do Décimo Segundo - só por hoje.
   Talvez, esta seja uma maneira um pouco lenta de se adquirir sobriedade e crescimento. Mas, antes de mais nada, a sobriedade é uma muda, plantada recentemente. Se eu agir afoitamente e puxá-la com força pelo caule, com a intenção de fazê-la crescer mais rapidamente, corro o risco de arrancá-la inteira da terra. Mas, se eu adubar as raízes, dia após dia, estarei, certamente, garantindo uma colheita segura e saudável.
   Em outras palavras, resistir à compulsão do primeiro gole é como colocar uma nave espacial em órbita. É imprescindível que haja uma forte impulsão para que seja vencida a primeira etapa da atração da gravidade para tirar a nave do chão. Mas, uma vez em órbita, basta uma pequena correção, de vez em quando. É assim que funciona o plano das vinte quatro horas - um simples check-up diário e uma pequena correção, para nos manter longe da tentação daquele primeiro gole.
 
                      Um Plano Espiritual
 
   Em meus próprios esforços na aplicação do plano das vinte e quatro horas, tomei a liberdade de interferir em nossa Oração da Serenidade. Acrescentei sete palavras - e todas elas são a mesma palavra - "hoje".
 
   Concedei-nos Senhor, a Serenidade necessária "hoje" para aceitar "hoje" as coisas que não podemos modificar "hoje",
   Coragem "hoje" para modificar "hoje" aquelas que podemos "hoje"
   E Sabedoria "hoje" para distinguir umas das outras.

 
   Então, esta é a receita para a produtividade, a serenidade e, acima de tudo, a felicidade que A.A. tem me proporcionado. E é por essa razão que eu posso dizer do fundo do meu coração: "Obrigado Senhor por eu ser um alcoólico".
   
As religiões, as seitas e outros movimentos e irmandades, têm seus códigos de conduta. Seus membros podem respeitá-los, ou deixá-los de lado. A aplicação não é uma questão de vida ou morte. Mas, nós em A.A., temos o nosso plano das vinte e quatro horas, e a nossa razão para aplicá-lo é a própria vida.
 
Best of the Grapivine
 
 
VIVÊNCIA 44 - NOVEMBRO/DEZEMBRO 96