Artigos - Quem está no comando

Um alerta sobre os riscos de sobrepor as personalidades à consciência coletiva.

O que diferencia A.A. de todas as outras organizações é o fato de não existir nenhum individuo com real poder de autoridade dentro de nossa estrutura. Somente um Deus amantíssimo manda. Por meio de nossa Segunda Tradição, buscamos a orientação divina para os nossos grupos e nossa Irmandade como um todo, desenvolvendo assim a nossa consciência grupal, segundo a qual a palavra de nenhum membro poderá ter mais peso do que a de outro. O contato entre Deus e a consciência do grupo está diretamente ligado à humildade de seus membros e à democracia que reina entre eles. Embora possa parecer frágil ou meio anárquico à primeira vista, a ausência de liderança humana possibilitou à nossa Irmandade prosseguir em seu crescimento, de forma humilde, pela graça de Deus. Nas palavras de um antigo Custódio, “...nós somos, mais do que quaisquer outros, conscientes do efeito devastador que a ganância por prestigio e poder tem sobre o ser humano e precisamos nos assegurar que ela não invada a nossa  Irmandade”. Creio que precisamos discutir abertamente o fato de que cultos de personalidades estão se proliferando dentro de A.A.

Por culto de personalidades, estou me referindo a indivíduos que têm assumido ou sido investidos de autoridade para definir a mensagem de A.A., inclusive a própria conduta da Irmandade ou a forma de vestir de seus membros. Tal autoridade é vinculada normalmente a uma tradição de forte apadrinhamento ou respeito pelos membros da velha guarda. Entretanto, o que realmente ocorre é o fato de uma só pessoa assumir a direção do grupo. A autoridade de tais personalidades restringe-se a um ou a poucos grupos. Todavia, mais e mais grupos estão surgindo em todo país, até mesmo na zona rural onde o fundador local obtém sua autoridade e controle de um responsável (padrinho, nesse contexto?) numa outra área. Não há necessidade de citar nomes  nosso objetivo não é “fazer justiça” ou atribuir responsabilidades  desejamos apenas abrir o debate. Somos uma Irmandade espiritualizada, não um tribunal.

Existem grupos nos quais o fundador decide, em caráter perpétuo, quem será o orador principal. Outros, estabelecem um padrão de vestuário obrigatório a todos os seus membros. Sob essa orientação houve encontro em convenções nos quais o orador principal recusou-se a falar enquanto um dos participantes da audiência não tirasse o chapéu, em respeito a A.A. Esse único fato seria capaz, por si só, de arrasar por completo com grupos religiosos inteiros, imaginem então como seria desastroso caso fosse tomado como representativo de A.A. como um todo. Existem até mesmo boatos de indivíduos sendo financeiramente sustentados por seus grupos e afilhados. Nenhuma dessas atitudes se enquadra nas Tradições, princípios ou espírito de A.A., e creio que elas possam de fato afetar outros grupos e A.A. como um todo.

O crescimento dos chamados grupos de oradores de circuito (ou itinerantes), um pequeno número de pessoas que fala rotineiramente em convenções por todo o país, favorece a criação do culto de personalidades. Existem cada vez mais convenções, e as mesmas pessoas continuam falando. Alguns desses oradores voam até o local e aterrissam nas convenções quase todos os fins de semana, o que faz disso uma vocação. O perigo é que a mensagem de A.A. está sendo transmitida por uns poucos indivíduos imbuídos de fortes convicções. Quanto mais eles monopolizarem as convenções e quanto mais citarem uns aos outros em suas falas, tanto mais perderemos a bela diversidade da recuperação concedida a nós por Deus, que é a nossa Irmandade. Um de nossos fundadores alertou-nos para o perigo da idéia de que “nós possuímos a única e verdadeira marca de A.A.  seria melhor que vocês a aceitassem!” (“Na Opinião de Bill”, página 199). É também importante considerar aqui a Décima Segunda Tradição, e como o princípio
da verdadeira humildade é diretamente relacionado ao anonimato. Não tenho intenção de sugerir que tais oradores estejam levando uma mensagem deturpada de A.A. Aqueles que são por eles apadrinhados estão certamente sóbrios e são membros extremamente ativos. Entretanto, como os primeiros membros lembraram a um de nossos fundadores, algumas vezes o “bom é inimigo do melhor”. O Livro Azul avisa-nos claramente para evitarmos que os recém-chegados tornem-se mais confiantes em nós do que em Deus. Minha maior preocupação é a autoridade excessiva atribuída a certos indivíduos dentro da Irmandade. Tem sido amplamente divulgado que os grupos que não seguem as Tradições fecham-se em si mesmos. Contudo, minha opinião é que o fenômeno de poder e prestigio adquirido por determinados indivíduos dentro de nossa Irmandade, está crescendo ao invés de diminuir. Através dessa carta, espero encorajar nossas reflexões, a dos grupos e a dos nossos comitês de serviços. A verdadeira intenção de nossos Doze Passos é formar uma base de sólida confiança em Deus  e não em nós mesmos ou em outros.

A verdadeira natureza das Doze Tradições é ajudar-nos a manter nossa fragilidade humana afastada da sordidez das coisas e permitir que somente Deus seja responsável pela nossa Irmandade. A confiança de nossos grupos em Deus, e em nossas vidas, requer uma tremenda coragem e fé, apesar dos resultados nunca serem menos que milagrosos. A recuperação individual, assim como a continuidade de nossa Irmandade, prova dia a dia que Deus jamais nos abandonará. Podemos continuar a servir de forma humilde e em alegre uníssono.

VIVÊNCIA N° 64  MAR/ABR. / 2000.