DP - Quinta Tradição - Por B. L.; Manhattan, NY.

"QUINTA TRADIÇÃO"

Por B. L. Manhattan, NY.

"Cada grupo é animado de um único propósito primordial: o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre."

O AUTOR EXPRESSA:
As Doze Tradições em minha experiência, resultaram vitais para conservar-me sóbrio e também têm sido úteis em todos os meus assuntos.

(Este artigo foi publicado originalmente na Revista Grapevine e republicado na Revista "ELMENSAJE" de setembro de 1974)

O quarto dia depois de meu ingresso em A.A., eu me encontrava sentado, muito triste e quebrantado, em um de nossos úmidos salões de reunião. Todos os A. As. que eu havia conhecido tinham sido muito amáveis em seu desejo de ajudar-me, mas, até então, nenhum havia sequer mencionado a palavra dinheiro. E tal como milhares de novos membros, eu estava convencido de que meu problema principal era o financeiro. Não obstante, ninguém me havia oferecido o empréstimo de que necessitava.

De imediato, apareceu um daqueles veteranos, grandalhão, de boa aparência, de meia idade, e elegantemente vestido, abrindo um grande sorriso. Estendeu sua mão e me saudou vigorosamente. "Se posso fazer algo por você é só dizer, pois terei muito prazer em ajudar, me declarou afetuosamente".

Pretendendo ser tão informal como quem pede um fósforo, eu lhe disse: "Creio que sim. É que, veja, necessito que me emprestem uns dois mil pesos".

Houve um silêncio glacial. Finalmente, ele respondeu: "Se enganou quanto ao lugar, amigo. Aqui não emprestamos dinheiro. Este lugar não é para isto". Senti-me gelar. E ele prosseguiu: "Aqui não iremos ajudá-lo em seus problemas econômicos, nem familiares, nem vamos lhe arranjar trabalho, ou roupa, ou remédios, ou comida, ou lugar onde passar a noite. Tudo o que fazemos cm A.A. é ajudar a permanecer sóbrio; depois você mesmo poderá resolver seus próprios problemas.

"Não é verdade que estando sóbrio você poderá por a vida em ordem?" Essa palavra "sóbrio" me chocou. Mas, o que eu poderia falar com referência a isso? "Sim, claro", falei entre os dentes, envergonhado de que na minha ignorância eu tivesse dado um "passo em falso", assim como se alguém me houvesse surpreendido comendo sem talheres.

Aquilo que aquele homem me dissera tinha um claríssimo sentido. Eu tinha alguns dias de abstenção e poderia encarregar-me de meus próprios assuntos. Então, pondo minha cabeça para trabalhar, já um pouco mais desnublada, lembrei de um primo a quem não havia recorrido durante muitos meses e lhe enviei um telegrama e consegui algum dinheiro.

Para minha surpresa e pesar, quase instantaneamente me embebedei. No lapso de umas poucas horas, meu benfeitor me dera em palavras bem francas um prático resumo das Tradições Quinta, Sexta e Sétima. E ao voltar a beber, eu havia ilustrado perfeitamente o sentido especial que se oculta por trás da Quinta. O que eu mais necessitava, evidentemente, não era dinheiro. Uma vez conseguido, continuava com o problema alcoólico que me levara a buscar a ajuda de AA., primeiro que tudo.

Aquilo ocorreu em janeiro de 1945, e as primeiras insinuações do que viriam a ser as Doze Tradições, apareceram na edição da Grapevine de julho de 1945, onde Bill W. escreveu: `Eu gostaria de abordar nos próximos números alguns tópicos como anonimato, liderança, relações públicas, ao uso de dinheiro em A.A., e temas similares".

Por conseguinte, o que eu encontrei em A.A. durante os meus primeiros meses, antes que se escrevessem as Tradições, foram costumes de conduta em A.A. que alguns membros seguiam porque haviam aprendido que dentro de A.A. há alguns métodos que funcionam e outros que não. Esta é a razão da autoridade que têm as Tradições para minha vida pessoal. Eu as respeito, não apenas pelo autor que tiveram, nem porque tenham o número místico doze, ou porque tenham sido aprovadas pela Comunidade na Primeira Convenção Internacional de Cleveland em 1950. Eu as que cultivo porque funcionam. Permitem que meus companheiros e eu possamos permanecer sóbrios, unidos, levando a mensagem a outros alcoólicos.

Porém, eu n gostava das Tradições no inicio, principalmente quando estavam em conflito com aquilo que eu desejava. Eu tinha um caráter suspeito que amiúde se convertia em farsante para obter o que queria. Durante aquelas primeiras semanas permaneci intrigado sobre o que "aqueles A.As." tinham realmente para oferecer, e o proveito que eu poderia tirar deles.

O verdadeiro milagre estava fundamentado no fato de que a maioria deles atuava com extraordinária amabilidade. Sem importar as manobras que eu arquitetava para tirar vantagem, eles ocupavam-se unicamente em transmitir-me a Mensagem.

Nos anos subseqüentes, eu procurei novamente usar mal o A.A. de duas formas: Procurei obter algo além que a Mensagem de sobriedade. Uma vez, aproveitei-me de um trabalho de meio expediente que me tinha sido dado por um companheiro do grupo para obter vantagens indevidas.

Quando chegava tarde, eu dizia para mim mesmo: "Afinal, ambos somos alcoólicos e ele deveria compreender meus pequenos defeitos". Ele também me explorou, fazendo com que eu trabalhasse horas extras sem pagar-me porque eu era um companheiro. Começamos a nos concentrar no que cada um devia ao outro como indivíduos, não no que nós devíamos um ao outro como membros de A.A. Nenhum dos dois chegou a recair, mas nossa amizade se esfriou totalmente.

Em outra ocasião, me utilizei A.A. para um romance, e realmente encontrei um bálsamo para meu coração solitário através de uma companheira de grupo. O certo é que encontramos um romance e perdemos a sobriedade.

Passaram-se muitos anos desde o período em que eu alegava minha "infância" em A.A. como desculpa para minhas tendências de pendichão. Hoje em dia procuro ver a Quinta Tradição como algo para dar mais do que para receber, O quadro não é ainda para orgulhar-me. Nem sempre é fácil Ainda hoje, é uma dificuldade manter meus desejos pessoais à distância quando vou transmitir a mensagem. Quero aplausos como orador de A.A., felicitações como escritor da Grapevine. Quero ter "êxito" corno padrinho, isto é, desejo ser quem deu a sobriedade a alguém.

Descobri que prefiro levar a Mensagem a alcoólicos agradáveis, atraentes e agradecidos que fazem aquilo que lhes digo e me concedem todo o crédito pela sua recuperação. Há ocasiões em que eu quisera não ter que levar a Mensagem e desejaria poder ficar sentado esperando que as pessoas viessem a mim para tomá-la.

Por outro lado, me regozijo de poder participar agora de tantas boas maneiras de cumprir nosso objetivo primordial. Posso ajudar a organizar reuniões públicas e outras atividades de informação pública para fazer chegar a Mensagem aos alcoólicos que estão por aí bebendo, doentes, atemorizados, inseguros, completamente ignorantes quanto ao nosso desejo de atraí-los, e completamente equivocados em sua noção do que seja a vida de sobriedade. Posso ir visitar os Grupos dos hospitais e os cárceres. Posso servir no Comitê de Recepção de meu Grupo, para dar as boas-vindas àqueles que nos visitam pela primeira vez. Posso assistir as reuniões de principiantes e coordená-las. Posso ajudar a manter nosso escritório local de Intergrupos e o Escritório de Serviços Gerais, que alcançam os alcoólicos que não estão ao meu alcance, em locais onde não posso ir. Posso me dispor a tomar café, depois das reuniões, com o companheiro novo, em vez de sair correndo para formar uma reunião com meus velhos amigos.

Em verdade, meu grupo melhorou muito com respeito à nossa Quinta Tradição n que tange sua forma de transmitir a Mensagem. Minha própria história em A.A. tem se ampliado consideravelmente a partir do momento em que pude vislumbrar pela primeira vez a sabedoria (preservadora da sobriedade) que se falava na forma de se fazer as coisas em A.A., posteriormente resumida em nossas Tradições. Descobri recentemente algo maravilhoso na Quinta: em parte alguma diz que os A. As. somente devem ajudar aos recém-chegados. Não estou de acordo que o recém-chegado seja a pessoa mais importante na reunião. Na minha opinião, são igualmente importantes àqueles antigos que nos sinalizaram os caminhos e que podem estar sofrendo, e não apenas os muito novos. Se bem que seja certo que os recém-chegados são o sangue vital de A.A., não é menos certo que os de algum tempo e os antigos são a pele e a espinha dorsal. Como seria o caos em que estaríamos sem eles!

Então, na próxima reunião em que se mencione a Tradição que fala sobre "levar a Mensagem ao alcoólico que ainda sofre", lembre-se, por favor, não apenas dos novos, mas também do companheiro antigo que está ao seu lado. Esse poderia ser eu. E eu ainda sofro em certas ocasiões. Eu preciso ouvir a Mensagem...

B.L. Manhattan, N. Y.