DP - Raiva em casa

A companheira fala de seu esforço para manter o equilíbrio com os seus filhos.

Preciso admitir: existem momentos nos quais uma raiva quente me invade, uma revolta, que explode em palavras e gestos. A raiva vem, é um clarão que cega tudo, daí ela some. Fica a perplexidade. Por quê? De onde?

Que momentos são esses? Pois são exatamente aqueles quando preciso aprender alguma coisa dos meus filhos tipo limites ou liderar pelo exemplo. Eu me descubro resistindo às lições que meus filhos exemplarmente me ilustram. Eles são meus mestres em muitas e muitas coisas. Em primeiro lugar, são filhos de uma alcoólica em recuperação (recuperada, como diz corretamente a Georgina), e além disso são filhos, netos, sobrinhos, bisnetos etc., de comprovados porém não-recuperados alcoólicos, pelo lado do pai.
 
 
É dose dupla. Agora, acima de tudo, são agentes de amor, luz, transformação e alegria, em minha vida. Apesar de saber de tudo isso, e apesar de me sentir extremamente grata por eles terem-me escolhido como mãe ainda não aprendi como conservar-me devidamente equilibrada, em situações de crise doméstica. Se estou cansada, tudo vira uma crise doméstica, esse é o problema.

Bom, agora pelo menos já consigo me ver dizendo e fazendo as bobagens que faço, quando me descontrolo. E aí vou me concentrando no Programa, e vou desacelerando. Começo a pedir por paciência e flexibilidade ao Poder Superior, só por hoje, só por este minutinho. 
 
 
E já vou passando ao Nono Passo, pedindo desculpas e recomeçando a rotina de um relacionamento sadio e alegre. Por sorte, sou alcoólica em A.A., procuro fazer o meu Programa (como posso e não como desejo). Então, essas tormentas emocionais acabam geralmente numa honesta troca de opiniões, numa sincera vontade de não reincidir.
 

Busco a reconciliação entre os meus atuais limites e a ilimitada liberdade criativa de meus filhos. Lidar com a resolução pacífica de conflitos em minha própria casa (não berrar, não castigar, não xingar, não querer saber tudo melhor, etc.) é ainda o tema mais atual e o mais complexo em minha vida. Não dá mais pra me esconder dentro da garrafa. 
 
Minhas raízes,minha própria infância, o modo como meus pais me trataram, isso tudo precisa ser revisto, é um trabalho constante, diário, inadiável, sem moldes nem receitas infalíveis. Perdoar, entender, aceitar, recomeçar, agradecendo pelo dia de hoje, que me vê sem beber, procurando fazer o caminho ao andar. Ser mãe é ser tanta coisa, hoje em dia, que preciso escolher os papéis, para não misturar demais. Sinto-me aluna “neste dia em uma grande escola”.

(Vivência n.°42 jul./ ago. 1996)