DP - Recuperar... o que?

Uma das conseqüências benéficas de nossa participação em Ciclos de Passos, é o aumento da capacidade de nos auto-analisarmos e a força para as modificações necessárias para o bom convívio com as demais pessoas no nosso dia-a-dia.
 
No meu caso, após o último Ciclo em que participei, em maio último, notei que a minha busca de recuperar determinadas coisas ou posições destruídas em  minha vida alcoólica ativa, era mais um sonho, pois a palavra RECUPERAR significa voltar a ter algo perdido, e, no meu passado, vejo que minhas condições de ser qualquer coisa foram praticamente nulas.

Em minha capacidade de me relacionar-me e no desespero para participar da vida, sempre usei máscaras: quando se fazia necessário, de filho, ou de pai, ou de marido e assim por diante. Mas eram sempre atitudes falsas, forçadas, que impediam qualquer tipo de relacionamento, pois a espontaneidade é vital para nossa vida.
 
Com o passar do tempo, essa necessidade de ligação mental foi desaparecendo. Entrei no processo do alcoolismo de dependência física, isto é, não era mais considerado um excêntrico e sim um mero bêbado. A capacidade de colocarmos máscaras desapareceu e não conseguia nem ter falsas atitudes. Minha verdade era visível para todos.
 
No meu caso o fim foi a solidão total. Eu comigo mesmo e ninguém para culpar da situação. Não tinha mais qualquer pessoa para ser a causa de meu estado e o meu alcoolismo finalmente era eu comigo mesmo. Sabemos que só procuramos uma solução quando "nós sofremos", pois o sofrimento dos outros apenas nos faz beber mais. O pior é que só aprendi isso com a prática.
 
Nessa ocasião, o encontro com Alcoólicos Anônimos e, após alguns meses, a vontade de modificar-me para tentar uma solução. Os Passos para mim são claros: são a chance de voltarmos à comunidade. Voltamos a nos relacionar com os outros e participar da vida, com equilíbrio e discernimento. Nos Passos, primeiramente me conheci, mesmo tendo que aceitar que nunca fui. Era uma ausência completa perante qualquer responsabilidade. Foi sempre um sonho e depois um pesadelo, mas tudo muito surrealista, sem nexo ou sentido.

E você não sendo, os outros também não foram. O desespero é tanto que, mesmo com o início de espiritualidade, ainda muito tênue, há a necessidade do Quinto Passo, para o desabafo. O jogar para fora aquele câncer que me matava. E daí o início da maioridade, da maturidade, apesar de meus quase quarenta anos. Era um início, mas pelo menos existia consistência. Não eram mais posições forçadas, mas já havia um começo de coragem, de autenticidade.
 
Vemos que só a partir do Nono Passo é que passamos para o mundo exterior, um mundo para nós desconhecido. Vamos ter que nos relacionar com pessoas que, inclusive, já tinham nos excluídos de suas vidas e não tinham mais esperança em qualquer tipo de recuperação. Mas essa era a minha realidade e, por pior que fosse, era o que existia. Por isso a preocupação, não tanto de falar, mas sim o de ser. O que assusta os outros, após o A.A. , são as nossas novas reações. O nosso levar tudo muito a sério e o não mais brincar com as emoções alheias.
 
Não tenho que provar aos outros que sou novo, que sou outro. Durante a convivência eles têm que sentir isso, e esse processo é demorado. Alguns, inclusive, jamais vão voltar a nos aceitar; porém, daí já é um problema que não é nosso mas sim deles, pois o principal não é o julgamento alheio, mas sim o que sabemos de nós mesmos. Finalmente, um dia nos sentimos participantes e incluídos no contexto. As máscaras já fazem parte do passado e nossas atitudes são reais. Vivemos o fato de sermos filhos, pais, esposos, amigos, e isto porque, a partir de determinado momento, entendemos que nossa função não é a de sermos amados, e sim de amar.
 
Daí, essa minha reflexão. Recuperei o quê? Honestamente, creio que apenas adquiri. O quê? Basicamente uma identidade. E, partindo do ser, do sentir, a maravilhosa capacidade, para mim nova: de amar, de compreender e de compartilhar.
 
(Vivência - Jul/Ago 1995)