DP - Resgatando o direito de viver > RV. 130

Tenho que usar a chave da boa vontade para que eu possa abrir quantas portas eu necessitar.
 
 
Estou  no  A.A.  há  10 anos  e  sem beber. Iniciei a beber com 16 anos e continuei bebendo até os 28 anos. Bebia na  brincadeira e fui  aumentando cada vez mais a dose, sem parar  nem um dia. Tive muitas perdas, deixei tudo dentro de um copo sujo de bebida.
 
Fico refletindo meu passado. Diz uma passagem de A.A.;: "nunca se esqueça dos últimos dias de bebedeira". Passados alguns anos, vejo o quanto me fez bem essa sugestão, por  eu  ter cavado  o  fundo  do  meu  poço. Nessa  trajetória  acumulei várias experiências de bebedor problema.
 
Eu   pensava   que   bebia   socialmente;    puro    engano    meu.    Encontrava-me totalmente   desequilibrado,  quebrado  financeiramente,  fraco  espiritualmente, sem rumo. A verdade  é que eu  não tinha  mais em  que  me  segurar. Tinha uma opinião  desastrosa de  todos  e  tudo, o  mínimo de  lucidez, nenhum  projeto  de vida, sem sentido. Fiz do alcoolismo uma verdadeira  fuga estratégica, tornando-me um problema para mim e para os outros.
 
Chegava  a  minha  casa  caindo  de  bêbado, altas horas  da  noite. Minha  esposa sempre estava me esperando com o jantar no forno. Recolhia-me  para dentro de casa, ajudava-me até a tomar banho para curar um pouco a ressaca, limpar meus vômitos na roupa. Estava igual um porco. No outro dia  tinha que  trabalhar, não se  sabe  como. Por  isso  digo sempre  que  "mães  ou esposas de alcoólicos serão sempre santas, sem nunca ter recebido  nenhum título  do  PAPA". Porque eu, no meu alcoolismo desenfreado, deixava  todos doentes com aquela situação, minha família sempre ficava chorando.
 
Durante umas das minhas várias bebedeiras, conversando com o cara do espelho da minha casa, tinha que decidir mudar minha vida. Como fazer  isso? Por acaso, um  vizinho  convidou-me  a  participar  da  reunião  do  A.A., cansado de  me ver chegar todos os dias  caindo  de bêbado. De  cara  neguei  o  convite. "HOJE NÃO VOU A NENHUMA REUNIÃO".
 
Continuei  sem  freio,  bebendo,  achando  que  podia  por  mais  15 dias,  de  uma forma  mais veloz e  intensa, chegando mais  rápido à  beira do abismo, no fundo do  meu  poço.  Uma  noite,  sei  lá   como   cheguei,  estava   totalmente   bêbado. Procurei   novamente   meu  vizinho.   Pedi-lhe   implorando:  " ajude-me,  vamos àquela TAL REUNIÃO DE A.A.". 
 
Então, fomos à minha primeira  reunião. Mas tive  que passar no  bar para tomar uma  saideira, criando coragem  de conhecer algo  totalmente desconhecido para mim.  Cheguei  à  sala  de  reunião  do  A.A., pouco  entendi.  A  não  ser,  naquele momento, umas  saraivadas de  desabafos, sendo  a  maioria direcionada  a  mim mesmo.  Fui   logo   retrucando   ao   meu  vizinho:    "Como  essas   pessoas  nem  me conhecem e sabem tudo da minha vida, sendo  que a  maioria dessas pessoas nem eu conheço?". Foi-me respondido que as nossas  histórias  de alcoólicos  são iguais, somente muda o personagem. Isso me impressionou muito.
 
Fui observando os vários depoimentos. Naquele  momento, encontrei-me junto a meus iguais. Ficando bastante desconfiado, pensei: "mas  é  possível  esse fato?". No  decorrer  da   reunião   foi   lida   a   literatura  do   Primeiro   Passo.  Fui   me acalmando, me informando melhor.
 
Hoje tenho outra visão de  tudo. Consigo  aproveitar, valorizando  melhor a vida. Naquele  exato  momento  recebi  minha  primeira  lição  de vida. Que  a  vida  no alcoolismo, no  mundo  da  ilusão,  não  era  como  eu  achava  e  pensava.  Ali  eu tive que achar uma maneira de  mudar  de vida. Ingressei  no  A.A. Agarrei-me  à única tábua de salvação, nesse grande Oceano para que um dia o  Poder Superior me encontrasse. Quebrei a viola da minha vida. Ela ficou em  vários  cacos. Hoje, com  todos  os  meus  irmãos  do  A.A.,  estou   tentando  sempre   consertar   esta viola. Vou  consertando,  pedacinho  por  pedacinho, nem  que  leve  a  vida  toda. Espero que nunca termine de consertar, senão vou achar que já estou curado, ou pensar que já sei tudo em A.A. Hoje  sou  totalmente  livre,  mas  sou  um  sujeito bastante  limitado  pela  minha  doença   do   alcoolismo,  pois   ela   é   incurável, progressiva  e fatal.
 
Tenho que usar a chave da boa vontade para que eu  possa  abrir  quantas  portas eu necessitar. Estarei sempre agradecido a essa  Irmandade que me resgatou, me ajudando a ser  inserido  na  sociedade  novamente. Aqui  aprendi  muitas  coisas boas  e  sei  que  esses   dois  "A"   significam  muito  para   mim,  e  querem  dizer primeiro,  ACEITAÇÃO-AÇÃO-ATITUDE-AJUDA-AMOR  e  o  mais importante, AQUI E AGORA. Sem  a  bebida  fui  trazido  para  uma  nova vida, foi  devolvida minha sanidade mental e espiritual. "BOM É ESTAR SEMPRE SÓBRIO,  MAS O MELHOR DE TUDO É VIVER SÓBRIO".
 
Desejo a todos muitas 24 horas da tranquila e saudável sobriedade necessária.
 
OBS: últimas  palavras de Robert Smith  (Dr. Bob.) - É melhor mantermos os pés firmes no chão. Nós  aprendemos  por uma  dura  experiência  que  os  Alcoólicos precisam  do  Anonimato, para  protegê-los  de  estigmas  sociais, e  para  manter seus egos tolos sob controle.
 
 

 
                                                                                                                                                                 Lauro Elias
                                                                                                                                         São José dos Pinhais/PR

 
Vivência nº 130 - Março/Abril/2011