Artigos - Sacola, algo mais que auto-suficiência

"Todos os Grupos de A. A. deverão ser absolutamente auto-suficientes, rejeitando quaisquer doações de fora" 
Na verdade a 7ª Tradição de A. A. contém muito mais significados do que aqueles que se pode apreender de uma simples e sumária leitura de seu texto. 

Quase todos os membros de um grupo de A. A., depois de algum tempo de freqüência, começam perceber que seu grupo em particular e a Irmandade, de um 
modo mais geral, tornaram-se para ele a coisa mais importante de suas vidas. Assim entendem, porque sabem que tudo, família, trabalho, cultura, lazer, 
dinheiro e o mais que possa existir, para ser usufruído, depende de sua sobriedade. Esta, a sobriedade, por sua vez, depende do grupo de A. A. e da prática do programa sugerido. Uma vez perdida a sobriedade, através da ingestão do primeiro gole, tudo o mais estará também perdido. É dura, porém inexorável, verdade do alcoólatra. 

Partindo dessa premissa o alcoólatra em recuperação sente a necessidade de preservar a vida de seu grupo, como uma célula primaria de um organismo maior 
que é a Irmandade em seu todo. Em seguida, descobre o que lhe informa a 5ª Tradição, ou seja, que "cada grupo é animado de um único propósito primordial – 
o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre". Para isso é necessário que a Irmandade tenha grupos com as portas abertas para recebê-los. 
Mas não apenas isso. Há que oferecer-lhe subsídios para a sua recuperação. Informações para a reformulação de suas vidas, através de ampla e livre troca de 
experiências nos grupos. Literatura de A. A. para ele se esclarecer a respeito do programa. Processos e meios para ele praticar o 12° Passo, isto é, "transmitir a mensagem de A. A. aos alcoólatras". E para que isso tudo possa acontecer são necessários meios materiais. Há que se pagar o aluguel da sala de reuniões, a luz, a água, o cafezinho. Há que se ter literatura disponível para os companheiros e para os que ainda estão fora das salas de reuniões. Há ainda que se contribuir para a estrutura de serviços de A. A., ou seja, para as intergrupais, para as áreas distritais, para o Escritório de Serviços Gerais, para a Junta Nacional de Serviços, para a Conferência, Junta de Custódios, etc. 

Depois de algum tempo o novo companheiro toma conhecimento de tudo isso e ler na 7ª Tradição que o A. A. rejeita qualquer doação de fora. A conclusão torna-se óbvia: tudo depende da contribuição dele e dos companheiros. Tudo depende da arrecadação da sacola dos grupos. Tudo depende das contribuições dos grupos aos escritórios de serviços e destes para os órgãos nacionais de serviços de A. A. 

Fica-lhe nítida na mente a idéia de auto-suficiência da Irmandade. Mas o que haverá mais além...? Qual a natureza ética da contribuição nas sacolas? Será ele 
um óbolo, uma esmola, uma caridade, um ato de filantropia, um pagamento ou uma obrigação? Na verdade, a contribuição de cada membro de A. A. é muito mais do que tudo isso. É, em última análise, a conseqüência natural da maturidade do grupo. 

Com efeito, um grupo amadurecido é caracterizado por uma atitude de conscientização; por uma situação grupal de cooperação entre os membros e por um 
sentido de amortização. 

Assim vejamos. A conscientização nada mais é que o percebimento encarado de modo genérico. É cada um tornar-se cônscio de si mesmo, abrindo cada vez mais brechas na auto-ilusão que caracteriza muito os alcoólicos. É conhecer e gostar de si mesmo. É sentir sua própria importância no grupo. É aprender a ser responsável perante os companheiros. É reconhecer as conseqüências pessoais de suas ações e de suas palavras integrar-se à consciência coletiva do grupo. É vivenciar intensamente a importância do grupo para a própria sobrevivência e para o crescimento psicológico de cada um de seus membros. 

Por sua vez, a cooperação ampla entre os membros de um grupo e dos grupos entre si, constitui-se na fase mais adiantada do processo de maturação grupal. 
Cooperar é produto de uma aprendizagem que se inicia logo que o ingressante chega. É o melhor remédio para o egocentrismo, pois a prática cooperativa vai 
gerando mais amor e inteligência objetiva, o que conduz a uma atitude sociocêntrica. A primeira cooperação do alcoólatra é fazer-se presente às reuniões. É ouvir os companheiros. É servir de "fundo" para que o companheiro seja "figura". É cooperar prestando serviço ao grupo; limpar e preparar a sala para as reuniões é ato de cooperação; providenciar o café é cooperação; coordenar a reunião é cooperação; atender aos novos que chegam é cooperação; por   
dinheiro   na sacola é cooperação. Enfim, tudo que se faz em prol do coletivo e de cada um em particular é cooperação. 

Finalmente, a amorização é a aprendizagem do verdadeiro amor. Daquele amor que não é apego, que não é posse do objeto amado, que não é exclusivismo, que não pe apenas atividade sexual, que, enfim, não é condicional, porque de nada depende. Esse amor é o supremo ato de liberdade, através do qual conseguimos ver o mundo com os olhos do outro, de sentir o que se passa nele como ele o sente, de entender a realidade como ele a entende, de ser capaz de dar sem esperar 
recompensa. 

Assim, no grupo psicológico e espiritualmente amadurecido, onde seus membros estão bem conscientizados, onde a cooperação e a amorização são uma constante, a contribuição da sacola não pode ser uma esmola, nem, por outro lado, constitui-se em uma obrigação. Ninguém precisa dar nada para freqüentar uma reunião ou ser membro de A. A.. A contribuição na sacola enquadra-se bem no conceito ético de um "direito-dever" . "Direito" porque é um privilégio que se 
só se estende aos membros de A. A. e "dever" porque é um puro ato individual de consciência, de participação e doação de si mesmo. Sejamos maduros, e, 
conseqüentemente, generosos na sacola de A. A. 

Vivência n° 3