DP - Sapateiro, não vás a além da tua chinela...

"Melhor é fazer alguma coisa extremamente bem do que fazer mal muitas coisas".

Quando ingressei em A.A. meu único e sincero desejo era o de abandonar a bebida. Procurei a irmandade, por não me suportar mais como bêbado, passando por humilhações e me matando aos poucos sem perceber. A compulsão pela bebida alcoólica estava me furtando a oportunidade de prolongar minha vida e me tirando o direito de viver bem e em paz comigo mesmo. Em minha primeira reunião dentro de uma sala de A.A. os companheiros que lá estavam transmitiram-me a mensagem:- "nosso propósito primordial é mantermos-nos sóbrios e transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre". "Trata-se da nossa dádiva divina e cuidar que ela seja também conferida a outros como nós é o único objetivo que hoje em dia move os AAs em todo o mundo". Eu poderia deter minha doença que até então, era desconhecida por mim, e modificar minha vida para melhor se eu assim realmente desejasse. Disseram-me que alcoolismo é uma doença que ataca o físico, a mente e a alma, progressiva, incurável e fatal.
Naquela noite meio que perdido e sem saber o que ou quem iria encontrar dentro da sala fiquei maravilhado com a recepção calorosa. Fui muito bem apadrinhado por vários companheiros que lá estavam que, além de me orientarem sobre o problema, acrescentaram ainda que eu poderia a partir daquele dia, se eu assim o quisesse, fazer parte de um time de vencedores que, após tantas derrotas e uma vida inútil, conseguiram modificar a tática do jogo. Percebi que para isso teria que me afastar de algumas pessoas e deixar de lado alguns "prazeres da vida", pelo menos temporariamente, ou seja, até que já tivesse alguma estrutura dentro do programa de recuperação sugerido em A.A. Cada companheiro que sentava naquela cadeira transmitia-me mensagens de força, fé, esperança e amor, enfatizando seu fundo de poço e como conseguiram se levantar, ou estão se levantando praticando honestamente o programa de recuperação. Como fui àquela reunião logicamente guiado por um Poder Superior, com o firme propósito de deixar de beber, sai bastante aliviado por tomar conhecimento do porquê da minha compulsão pela bebida alcoólica e as atitudes erradas que tomava perante a vida. Percebi também que poderia me redimir de todo sentimento de culpa que carregava e começar a ter paz. Fiquei ainda mais contente por saber que freqüentando as reuniões, estaria no meio de pessoas que tinham o mesmo problema meu e que daquele dia em diante não estaria mais sozinho. Hoje em recuperação há algumas 24 horas me preocupo, e muito, com o que vou falar em meus depoimentos, principalmente quando há alguém pela primeira vez ou companheiros com poucas 24 horas na Irmandade. Preocupo-me porque sei que devo transmitir a mensagem de Alcoólicos Anônimos, da mesma forma que me fora transmitida em minha primeira reunião. Não devo focar meus depoimentos em outros assuntos que não dizem respeito ao nosso programa de recuperação (se deixei de fumar ou não, se sou praticante de alguma denominação religiosa ou não, se gosto de futebol ou não, etc...., etc...., etc....), pois se assim o fizer estarei fugindo completamente do nosso Propósito Primordial. E ainda mais: estarei perdendo a ótima oportunidade de naqueles dez minutinhos preciosos dizer ao recém chegado que existe uma forma e um lugar onde se consegue deter a doença do alcoolismo evitando o 1º gole “Só por Hoje”, pois esta é a habilidade única de cada A.A. em identificar-se com o recém chegado e reabilitá-lo, não dependendo do grau de instrução ou capacitação especifica. A.A. oferece estrutura e condições para seus membros viverem em paz e com qualidade de vida. Gostaria de deixar registrado aqui a sugestão de não deixarmos escapar a chance de salvarmos outras vidas!

A única coisa que importa para mim é ser um alcoólico que encontrou a chave da sobriedade e deseja compartilhá-la com outros que sofrem, assim como aconteceu comigo.

Desejo aos companheiros o mesmo que desejo a mim: - mais 24 horas de serenidade necessária e sobriedade alcoólica.

Vivência Nº108 - Jul. / Ago. - 2007