Artigos - Segunda Tradição em Foco

"Somente uma autoridade preside, em última análise, ao nosso propósito comum um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos lideres são apenas servidores de confiança: não têm poderes para governar".
Quando se analisa o anunciado dessa tradição verifica-se que ela abrange conceitos importantes; que envolve tanto o membro individualmente, como o grupo e a Irmandade de A.A. no seu todo. Dentre esses conceitos destacamos: autoridade, propósito comum, Deus, consciência coletiva, lideres, servidores de confiança e governo. Cada um desses conceitos daria um estudo e exigiria uma análise que ultrapassaria e muito uma simples explanação dessa importante tradição. Ela é tão importante que os Doze Conceitos são praticamente uma continuação prática da sua aplicação na estrutura de A.A. Por isso mesmo ela é citada diretamente por cerca de 17 vezes e cerca de 3 vezes indiretamente no livro "Doze Conceitos para Serviço no Mundo", que é o nosso Terceiro Legado. Assim pode-se dizer que ela está presente nos nossos Três Legados e é muito importante, também, na recuperação individual de cada membro. Tentaremos vislumbrar cada um desses aspectos dessa tradição.
É comum e até aconselhável, se fazer a leitura e explanação do Preâmbulo da Irmandade em nossas reuniões abertas e públicas. E ele começa assim: "Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade de homens e mulheres...". Aqui quando se fala em Irmandade quer se dizer que em A.A. somos todos irmãos e irmãs, que somos totalmente iguais, sem distinção de raça, credo ou condição social e econômica. Isso quer dizer, também, que em A.A. não temos nenhuma forma de governo central e nenhuma autoridade, que ninguém manda e todos obedecem somente aos princípios sugeridos da Irmandade.
No final do Preâmbulo se diz que: "Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade". O que significa que A.A. só tem uma única finalidade e só faz isso: "Transmitir a sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre". Esse é o único propósito de A.A. conforme estabelecido na nossa Quinta Tradição.
Após ingressar em A.A. sugere-se ao recém-chegado que ele venha a acreditar em um Poder Superior a ele mesmo (Segundo Passo) e que ele entregue sua vontade e sua vida aos cuidados de Deus, na forma em que ele o conceba (Terceiro Passo). A partir daí esse Deus de sua concepção passa a fazer parte ativa na sua recuperação e na continuação da prática dos Doze Passos sugeridos. Assim, no Passo Cinco ele admite perante Deus... a natureza exata de suas falhas. Assim, no Passo Seis ele se prontifica a deixar que Deus remova todos os seus defeitos de caráter. No Sétimo Passo sugere-se ao recém-chegado que ele rogue a Deus para que Ele o livre de todas as suas imperfeições. Da mesma forma sugere-se a ele que procure através da prece e da meditação melhorar seu contato consciente com esse Deus de sua concepção. Portanto o conceito de Deus e a forma de nos relacionarmos com Ele estão estabelecidas nos Doze Passos, que passam a fazer parte de nossas atividades diárias, uma vez que através do Passo Doze "...procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades".
Vem agora o quarto conceito: consciência coletiva. O dicionário nos diz que consciência é: "sentimento ou percepção do que se passa em nós; voz secreta da alma aprovando ou reprovando nossas ações". E coletiva significa comum. Portanto consciência coletiva pode ser dita, simplificadamente, como a percepção comum, a voz secreta comum, a voz secreta do coletivo que aprova ou desaprova nossas ações comuns. Assim, com essas conceituações preliminares, pode-se dizer que a primeira parte da Segunda Tradição torna-se clara e consistente: "Somente uma autoridade preside, em última análise, ao nosso propósito comum um Deus amantíssimo que se manifesta em nossa consciência coletiva...". Isso quer dizer que as atividades de serviço, feitas para atender ao propósito comum de transmitir a mensagem de A.A. aos alcoólicos (Quinta Tradição) estão sujeitas, única e exclusivamente, à consciência coletiva de cada grupo de A.A., que é a representação ou manifestação da única autoridade a que o Grupo de A.A. está submetida: Deus.
A segunda parte da Segunda Tradição nos diz que nossos "lideres são apenas servidores de confiança". Servidores de confiança são aqueles membros a quem o grupo delegou a responsabilidade pela execução de um determinado serviço. Esse servidor tem sob seu cuidado a responsabilidade de prestar contas ao grupo do seu serviço realizado (Oitava Tradição). Como diz o conceito Dez, onde responsabilidade e autoridade equivalente são definidas, "todos os servidores de confiança possuem uma autoridade adequada e claramente definida para executar o seu trabalho diário e para desincumbir-se das suas claras responsabilidades". Portanto, um servidor de confiança é apenas um "empregado" a quem o grupo confiou uma determinada tarefa, e cuja "remuneração" tem um valor inestimável: a sobriedade.
Com relação ao que é um líder e sua liderança em A.A. nada melhor do que o Conceito Nove para nos elucidar esse tema. Segundo Bill W. "A liderança em A.A. é sempre uma necessidade vital" e para isso nenhum líder é impessoal e nenhum líder é perfeito. Ele, também, disse que os lideres não lideram por mandato e sim pelo exemplo e, para mim, ele deu a melhor definição que poderíamos desejar de um verdadeiro líder em A.A.: "Um líder em serviço de A.A. é, portanto, um homem ou mulher que pode pessoalmente colocar princípios, planos e normas em ação de maneira tão delicada e efetiva que leva o resto de nós a querer apoiá-lo e ajudá-lo na sua tarefa". Além disso, ele dá os qualificativos que melhor definem um líder em A.A., são eles: tolerância, responsabilidade, flexibilidade e visão.
Isto posto, cremos ter, com ajuda da literatura de A.A. procurado elucidar e incentivar o debate dessa tradição ímpar e fundamental que, podemos dizer, dá embasamento e alicerça a estrutura de serviço de A.A. Assim, sob o manto protetor das tradições de A.A. que possamos crescer juntos em ação e amor e, acima de tudo, que possamos nos colocar à disposição da consciência coletiva do Grupo para aprender, crescer e servir.
"Que possamos nos colocar à disposição da consciência coletiva do Grupo para aprender, crescer e servir".

Vivência nº 106 – Mar./Abr. – 2007