DP - Sobriedade emocional


A chave para uma digna, útil e feliz 


fui percebendo que poderia adquirir algo que buscara durante toda a vida: uma sobriedade emocional capaz de enfrentar quaisquer adversidades que a vida pudesse me impor.

Quando cheguei a Alcoólicos Anônimos, talvez não trouxesse aquele requisito mínimo para ser membro de nossa Irmandade: o desejo de parar de beber; mas as circunstâncias em que me encontrava naquele momento fizeram-me parar de beber e permanecer em A.A. O que eu não podia imaginar – naquela época – é que nossa querida Irmandade e meus milhões de irmãos espalhados pelos quatro cantos do mundo tinham muito mais a oferecer do que o simples parar de beber; fui percebendo que poderia adquirir algo que buscara durante toda a vida: uma sobriedade emocional capaz de enfrentar quaisquer adversidades que a vida pudesse me impor.


Após alguns meses lutando contra a minha vontade de beber, comecei a observar um crescimento espiritual e uma alegria de viver que já me eram desconhecidos. Tudo parecia muito bom e, naquele momento, abster-me do álcool, frequentar as reuniões, fazer parte do serviço do grupo, compartilhar com meus companheiros, tudo isso me parecia suficiente para que pudesse ter uma vida com que sempre sonhara. Após alguns anos vivendo essa doce ilusão, no entanto, aconteceu algo que mudaria substancialmente a minha visão em relação aos Doze Passos de A.A.


Cheguei profissionalmente destruído a Alcoólicos Anônimos. Praticamente todas as portas haviam se fechado. Embora ainda continuasse trabalhando como professor, não conseguia aumentar minha carga horária. Nenhum empresário quer em seu quadro alguém que não cumpre seus compromissos e, muito menos, alguém que não cumpre seus compromissos por ser um bêbado. Graças a um amigo de adolescência que era dono de colégio, comecei a trabalhar algumas horas semanais a mais. Esse amigo me deu a oportunidade de recomeçar e, pouco a pouco, fui reconquistando o prestígio profissional. Passaram-se dois anos, e durante esse tempo fui me destacando como um dos mais requisitados professores daquela instituição. Cheguei, em determinadas épocas do ano, a ter quase cem horas de aula semanais. Após esses dois anos – e já com três anos em A.A. –, resolvi pedir um aumento salarial, afinal de contas eu já trabalhava com praticamente todas as turmas do colégio. Após conversar com meu amigo e patrão, ele prometeu-me um aumento, na época do dissídio, o que ocorreria dentro de três ou quatro meses. Desfrutando assim dessa confortável reputação e deixando-me inebriar pelos louros da vitória, passei esses deliciosos três ou quatro meses cogitando a possibilidade de um aumento salarial à minha altura; claro, o colégio em que eu trabalhava não podia mais passar sem mim. Eu era querido por todos, alunos, direção e funcionários. Na verdade, eu merecia um aumento e – quem sabe? – uma verdadeira gratificação pelos préstimos ao colégio.


Finalmente, a época do dissídio chegou, e fui chamado por meu amigo, que me anunciou o percentual de aumento.


O que ocorreu em seguida mudaria radicalmente o meu modo de enxergar a minha recuperação. Meu patrão e amigo informou-me que meu aumento seria de vinte por cento. Mas aquele valor estava muito abaixo do que eu esperava! Tentei argumentar, afirmando que trabalhava muito, que já tinha dois anos de casa, sem que tivesse tido aumento salarial, e que não podia ser aquele valor, pois aquilo estava muito aquém do que eu almejara. Então, veio o golpe fatal... Ele afirmou que, sendo assim, teria que reduzir substancialmente a minha carga horária, pois não tinha condições de manter-me com o valor que eu queria. Senti que o mundo à minha volta caía sobre a minha cabeça. Faltou-me o chão. Como então podia acontecer aquilo comigo?! Passou-se uma sucessão de imagens absurdas na minha cabeça; não conseguia mais raciocinar de maneira a criar argumentos quaisquer que fossem; não consegui dizer mais nenhuma palavra... Tive que sair da secretaria do colégio. Desci as escadas. Para onde iria? Que fazer? O que estava acontecendo comigo? Como podia ser tão injustiçado, depois de tudo o que tinha feito? Subia-me pelo abdômen uma sensação tão esquisita, tão inesperada, tão desconhecida! Por que não ir para o meu grupo de A.A.? Não consegui...


Naquela noite, saí do colégio por volta das sete horas e só cheguei a casa quase à meia-noite. Perambulei por meu bairro até me cansar. Hoje, mesmo que faça um esforço de memória, não tenho certeza dos pensamentos que me vinham à mente, nem por onde fui. Só sei que não bebi e que caminhei durante horas pelas ruas de meu bairro, que iam ficando desertas à medida que a noite avançava.


Já em casa, deitei-me, mas não consegui dormir. Passaram-se horas até que a exaustão tomasse conta de meu corpo e de meus pensamentos...


Pela manhã, acordei com uma sensação que há muito não sentia: ressaca. Como podia ser? Eu não tinha bebido! Imediatamente, lembrei-me do que havia acontecido no dia anterior e, novamente, a raiva tomou conta de meus pensamentos. Que sensação pavorosa! Talvez percebesse intelectualmente o que acontecia comigo, mas não conseguia fazer com que aquilo se apagasse do meu espírito. Que dor, a dor da alma!


Fui ao meu grupo base à noite e não consegui dizer nada, compartilhar o que acontecia comigo. Todos esses sentimentos negativos, destrutivos, que me corroíam permaneceram durante toda a semana. No domingo seguinte, fui a outro grupo de meu bairro onde havia uma reunião californiana de sentimentos. Só então comecei a dizer, a compartilhar o que me acontecia. Os companheiros tiveram a paciência de me ouvir durante mais de meia hora. A partir daquele momento, comecei a entender a importância do Décimo Passo, do inventário periódico, do reconhecimento de minhas emoções. Somente a partir daquela experiência, comecei a perceber a magnitude da doença do alcoolismo, a doença das emoções, a minha doença incurável, progressiva e de terminação fatal se não for tratada.


No início de minha caminhada, ouvia alguns companheiros dizerem dos perigos das recaídas emocionais e da necessidade da busca incessante por uma estabilidade de minhas emoções. Ouvia falar sobre bebedeira seca, ressaca emocional, raiva, ressentimentos... Naquela época, essas coisas me chegavam como algo que só devia acontecer com alguns companheiros que não se dedicavam à Irmandade ou que tinham pouca frequência a reuniões, ou eram teimosos ou não liam a literatura de A.A. Acreditava que coisas assim nunca me aconteceriam, já que participava dos serviços do grupo e do distrito, frequentava diariamente as reuniões, tinha admitido incondicionalmente a minha impotência e, desde os primeiros tempos na Irmandade, interessava-me pela literatura. Mas as circunstâncias da vida provaram-me o contrário: eu não estava imune às recaídas emocionais...


Principalmente através do Décimo, Décimo Primeiro e Décimo Segundo Passos, tive a oportunidade de perceber que o orgulho ferido tinha me levado àquela situação que, até aquele momento, nunca havia vivenciado. O orgulho me fizera ter sonhos inalcançáveis, exatamente como fazia quando bebia. Os louros da autossuficiência extremada, da vaidade e da soberba fizeram-me acreditar que ninguém passaria sem mim. Sem beber, construíra castelos de sonhos, que ruíram quando a minha vontade própria foi contrariada. A contrariedade, portanto, era minha maior inimiga. O orgulho era meu maior inimigo. E ambos os sentimentos são produzidos por mim mesmo; logo, eu era capaz de transformar minha vida num inferno, sem beber. Mesmo em recuperação, eu era capaz de me transformar em meu maior inimigo. Não, eu não estava imune às recaídas emocionais. E, se eu não bebera, fora graças à minha frequência às reuniões e ao serviço de A.A.


Mas o que faria daí por diante? Estaria sempre propenso a essas recaídas? Tinha que evitar qualquer circunstância que me levasse a elas? Não, ninguém pode fugir à realidade; como membro de A.A., eu não tinha mais o direito de fugir às circunstâncias da vida. Sendo assim, era preciso tomar algumas atitudes: reconhecer os meus sentimentos, fossem eles bons ou ruins, identificar as situações que poderiam me tirar o equilíbrio emocional. Na verdade, ninguém está imune às recaídas emocionais. Elas podem ocorrer em menor ou maior intensidade. O que eu precisava era adquirir a capacidade de enfrentar quaisquer situações da vida.
A lição que pude aprender através da dor é que, embora tenha parado de beber e possa ter uma vida relativamente normal, não posso ficar parado, tenho que ser sempre vigilante quanto aos meus sentimentos. Tenho que reconhecer e admitir os meus erros, tenho que compartilhar os meus sentimentos com meus companheiros e tentar viver os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos. Só assim alcançarei uma saudável harmonia interior e a tão desejada sobriedade emocional, a verdadeira e única chave para uma vida digna, útil e feliz.


Vivência nº 141 Jan/Fev 2013