DP - Sou realmente honesto?

 O que dizer sobre a honestidade no Quarto Passo? De início, quero salientar que pela primeira vez estou tentando, com todas as minhas forças e com a ajuda de Deus, praticar os Doze Passos. Aprendi a duras penas (recaídas e mais recaídas) que não bastava ler a literatura de A.A. ou às vezes ficar passivamente assistindo às reuniões. Era preciso um engajamento total, onde entra fé, mente aberta, boa vontade e honestidade.

 Pois bem, escrevi o Quarto Passo e estou terminando o Quinto. Achei inicialmente que eu reunia esses requisitos, sobretudo a honestidade. Deleitava-me com a convicção de que sempre fui correto nos negócios, pois nunca havia enganado meus semelhantes, nunca havia recebido propinas (embora minha posição profissional assim possibilitasse), nunca subornei ou fui subornado. Então, estava satisfeito, achava que o requisito honestidade estava preenchido. Entretanto, desconfiado de minha proverbial arrogância, decidi aprofundar-me no tema. Conversei a respeito com outros companheiros, consultei os livros editados por A.A., principalmente "Os Doze Passos e as Doze Tradições" e "Na Opinião de Bill", quando comecei a compreender a verdadeira dimensão da honestidade. Foi bom, muito bom, pois olhando melhor para dentro de mim mesmo, consegui fazer meu inventário moral mais "minucioso e destemido". Percebi nesse difícil, porém frutífero Quarto Passo, que era pouco honesto comigo mesmo e, por conseguinte, não o era com os outros e com Deus. Como a maioria dos alcoólicos, levava uma vida dupla. Era um ator que gostava de representar no palco da existência. Concluí, muito a contragosto, que "vender imagem" é desonestidade para com todos. E não é só.

 Graças ao companheiro Bill, constatei que muitas de minhas ações careciam de reta intenção. Com efeito, em inúmeras ocasiões, ocultei um interno e mau motivo (vaidade, orgulho, desejo irracional de aparecer) atrás do bom, o externo, aquele que surgia aos olhos de meus irmãos. Quiçá enganei meus semelhantes e a mim mesmo, mas não ludibriei meu Poder Superior.

 Há mais. Usei e abusei, sob o manto de uma "completa honestidade", do "direito" de dizer "verdades" a outra pessoa, 
magoando-a desnecessariamente.

 Notei, também, que sempre fui um manipulador de fatos e responsabilidades. Um costumeiro inventor de álibis para acobertar minhas bebedeiras e suas conseqüências. Em suma, a autojustificação ou racionalização, tão do meu agrado, era uma forma de desonestidade comigo mesmo. E como já se ressaltou, quem não é honesto consigo, não é também com o próximo e com Deus.

 Fiquei arrasado com essas auto-revelações, porém, mais uma vez encontrei luz na indispensável literatura de A.A. Cheguei à conclusão de que só Deus pode saber o verdadeiro significado da honestidade absoluta. Eu, simples e falível humano, jamais alcançarei o ideal da honestidade absoluta. O que posso e devo fazer é atingir uma melhor qualidade de honestidade. Para tanto, os citados Quarto e Quinto Passos são preciosos instrumentos, porquanto, para mim, estão servindo como indicadores de minhas imperfeições, possibilitando-me ser mais humilde, corajoso e honesto.

 Finalmente, é bom realçar que a honestidade é tão importante para ser efetivamente compreendida e praticada, que é considerada um princípio de ouro. "A honestidade é a melhor forma de vida". Doravante, esse será o meu caminho e com a ajuda de Deus e de meus companheiros de A.A., quero trilhá-lo. 

(VIVÊNCIA Nº 63)