DP - AA on line sugestoes ou dogmas ?

"Aceito as sugestões como dogmas incontestáveis; elas me salvaram a vida; me reintegraram à sociedade e despertaram em mim algo que até então
desconhecia: a fé em Deus."

Alcoólicos Anônimos não é uma entidade religiosa e não encontramos dogmas ou doutrinas por aqui.

A Irmandade apenas faz sugestões através de seus princípios. Mas quem duvida que um doente alcoólico é impotente perante o álcool e que perdeu o domínio de sua vida?

O Primeiro Passo está lá, enunciado daquele jeito e não me consta que uma complexa tese tenha sido minuciosamente defendida antes que aquela frase simples viesse ser formulada. É acreditar naquilo ou continuar bebendo.

Então, a questão da fé, crença, confiança, firmeza na execuçãode um compromisso, já aparece logo no Primeiro Passo.

Nem é preciso ter fé em um Poder Superior para evitar o primeiro gole. Basta acreditar que se é impotente perante o álcool e que se estava quadradamente enganado quando se supunha dominar a própria vida.

Quem consegue baixar a crista e constatar a devastação que a ingestão da bebida faz em sua vida costuma tratar de manter uma prudente
distância da garrafa.

Nos outros dez passos seguintes, seis deles nos remetem explicitamente a um Poder Superior e outro fala em despertar espiritual, o que acaba dando na mesma, pois parece que quem desperta espiritualmente está suficientemente lúcido e pacificamente conectado consigo próprio para que daí resulte em uma conexão com algo maior, mais amplo, poderoso e superior que o próprio umbigo.

Em tais passos, outro tipo de fé entra na jogada. É aquela fé que implica uma adesão e anuência pessoal a um Poder Superior como cada um o concebe. Mas eu acho que, feito o Primeiro Passo, tudo o resto vai acontecendo ao seu tempo e com naturalidade.

Os quatro passos que não falam em Poder Superior tratam de propor um serviço de saneamento básico em quem admitir que acumula em si poluições de toda ordem e necessita ser saneado para não correr o risco de ser asfixiado pelo seu jeito de ser nem de sucumbir sob seus dejetos mentais, morais, emocionais, ainda que não esteja bebendo.

Uma leitura superficial me fez ver com horror os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos, que me pareciam dizer que o preço a ser pago para evitar o primeiro gole seria que eu aceitasse me transformar em um santo, logo eu, um libriano típico e voraz degustador (hoje em dia mais comedido e
parcimonioso) dos prazeres da vida.

Com a sucessão das vinte e quatro horas (e eu não bebendo), relaxei e passei entender os Doze Passos como um poderoso e eficaz instrumento para que a minha vida se tornasse suportável de início e progressivamente boa, muito boa com o passar do tempo, sem que para tanto fosse necessária a ingestão de um golinho sequer, nem mesmo na forma, odor e sabor de um mimoso bombom com licor.

Hoje aceito as sugestões contidas nos princípios de Alcoólicos Anônimos como leis; mais que isso, aceito-as como dogmas incontestáveis, pois além de me salvarem a vida e me reintegrarem na existência, fizeram brotar em mim uma coisa grandiosa e que até então me era desconhecida: a fé em Deus.

Não estou mais só. E o melhor de tudo (para mim que detesto ser mandado), sem ter tido que ouvir sermão de quem quer que seja, exceção feita à minha mulher, que foi quem me levou pelas orelhas à minha primeira reunião de A.A.

Muito da minha aceitação e compreensão dos princípios da nossa Irmandade devo a AABR, um grupo on line de A.A., onde os princípios e a literatura de A.A. são assuntos do cotidiano, abordados várias vezes ao dia.

Por funcionar na Internet, o grupo fica "aberto" o tempo todo e estes assuntos chegam a mim a qualquer hora do dia ou da noite, todos os dias e todas as noites.

Obrigado, companheiros e companheiras por não ficarem me buzinando no ouvido o que é certo ou errado, que têm toda esta paciência comigo e permitem que eu me mantenha sob o abrigo dos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos, doces e singelas sugestões, blindagem fundamental e indiscutível que me protegem do primeiro gole e de mim.

Vivência n° 96 - Jul./Ago.2005