Artigos - Tesoureiro

Houve uma época, fazem anos, em que esse tesoureiro desfalcador poderia haver minado nossa confiança. Pois lembro muito bem a primeira vez que isso aconteceu. Lembro também o assombro e consternação que me causou quando um de meus amigos mais íntimos começou a me atacar sem piedade, porque não gostava da minha maneira de atuar na Fundação Alcoólica. Lembro das primeiras rupturas do anonimato ante o público, e todos os temores e violentas controvérsias que se introduziram. Tais eram os alarmes dos primeiros anos de A.A. Tínhamos medo de não conseguir nos manter sóbrios; tínhamos medo de que nosso Grupo não pudesse sobreviver; tínhamos medo de que o A.A. fosse por água abaixo.   Mas os tempos mudaram. O que antes nos fazia morrer de medo, agora nos faz morrer de rir - por exemplo, a história do tesoureiro viajante. Creio que neste relato encontramos algumas coisas muito boas. Consideremos: em nosso riso não havia nem uma pitada de desprezo ou ira. Não havia a menor idéia de impor castigos; e duvido que tenha havido entre nós algum que tivesse pensado em chamá-lo de ladrão. Neste riso havia uma compreensão compassiva, um reconhecimento de que qualquer um entre nós continua sendo capaz de uma boa loucura parecida. Por tê-lo compreendido tão bem, certamente, nos deu vontade de rir ao pensar o quanto ficariam estupefatos os nossos companheiros, organizadores da convenção, ao receber a notícia e ver que se encontrava sem um centavo; mas creio que o nosso riso tinha um significado muito mais profundo. Estou seguro de que, na realidade, riamos de nós mesmos, e de nossos velhos e exagerados temores. Nos alegrávamos de que houvessem desaparecido. Havia-se desvanecido o espanto e o temor do prejuízo que nos poderiam causar os erros e o comportamento de um só companheiro, assim como o velho conceito de que as pressões e os conflitos do mundo ao nosso redor poderiam invadir e destruir o A.A. algum dia. Creio que ríamos porque nos sentíamos liberados de todo o medo, e livres. Havíamos deixado de duvidar de nossa segurança coletiva. Estas reflexões me levam a outra idéia, e outro motivo de consolação. Parece ser verdade que, enquanto que em quase todas as nações e sociedades o comportamento coletivo com freqüência tem sido pior que o comportamento individual de seus membros. Por exemplo, no mundo de hoje, podem ser contados aqueles que anseiam entrar na guerra. Não obstante, muitos países atribuem as conquistas aos conflitos armados. Os países homenageados pela honradez individual de seus cidadãos falsificam seus livros de contabilidade, provocam a inflação do seu dinheiro, sobrecarregam a população com dívidas que nunca poderão pagar, e fazem todo o tipo de propaganda fraudulenta. Inclusive as grandes religiões, como organizações, em total desacordo com os seus ensinamentos, comportaram-se com uma violência e intolerância que a maioria de seus adeptos não pode imaginar, nem sonhar, imitar em suas vidas particulares. A massa faz todo tipo de coisa que os indivíduos que a compõem raramente as fariam sozinhos e por motivos próprios. Embora não nos corresponda fazer um inventário moral do mundo com algum sentimento de orgulho ou de superioridade, creio que é justo e oportuno fazer notar que os AAs, até esta data, têm manifestado um comportamento coletivo que talvez seja superior à nossa conduta individual. Em nosso caso, parece que o todo é algo melhor que a soma das partes. Somos mais uma turma de gente agressiva e sedenta de poder. Não obstante, A.A. como um todo, nunca repreendeu a ninguém. Como indivíduos, gostamos de dinheiro, porem mantemos pobres as tesourarias da nossa Irmandade. Gostamos do prestígio, porém de uma ou de outra forma, nos mantemos anônimos. Como indivíduos, somos propensos a ser agressivos; porém nossa Irmandade não é agressiva e não se envolve em assuntos alheios. 

(A Linguagem do Coração pg. 404-06)