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Trabalhando o emocional

"Muitas vezes não enxergamos nosso interior, daí a importância do apadrinhamento".

O alcoolismo é definido como uma doença emocional, e realmente isso é verdade quando olho para meu passado. Eu até conseguia parar de beber por algumas vezes antes de vir para AA, mas isso não durava por muito tempo, e sempre que voltava ao copo tinha recaídas emocionais.

O encontro com os Doze Passos tem me ensinado a encontrar a paz interior. Se eu não estou em paz, algo errado há comigo. Se a perturbação continua, eu preciso me mudar, mas não de lugar, de emprego, parceira, etc. É o meu interior que preciso mudar. Só que muitas vezes não enxergo meu interior com meus próprios olhos. Aí que vem a importância do apadrinhamento.

É um bom padrinho ou madrinha aquele que me ajuda a dissecar a minha parte de responsabilidade no problema, por mais que eu pareça ter razão.

A falta de um bom apadrinhamento faz perpetuar o sofrimento e a perturbação e a gente não melhora apesar de dias e mais dias.

A dor que eu sinto no orgulho é forte quando ouço verdades, mas é momentânea quando souber aceitar as verdades que estão contidas. A paz interior retorna após a aceitação.

Aprendemos a aceitar as verdades passo a ter menos recaídas emocionais. Aprendi que sou apenas um ser humano, portanto cometo erros, então, preciso aceitar as minhas falhas no episódio.

Mas essa técnica de aceitar a mim mesmo é para eu me lembrar do meu tamanho e não para justificar os erros que continuo cometendo.

Se eu continuo cometendo erros, o meu emocional não melhora, pois a consciência continua a me cobrar e o sofrimento não passa.

O meu grande aprendizado no Primeiro Passo foi quando resolvi fazer a pergunta: Será que eu perdia o controle só quando dominado pelo álcool?"

Na verdade, toda vez que eu fazia minhas vontades, sem me importar com a vontade de Deus, eu perdia o controle da situação.

Ao insistir na minha vontade, eu tomava o caminho do sofrimento, da perturbação, da desarmonia, que me levavam cada vez mais ao fundo do poço.

Só parei de insistir na minha vontade quando as águas já batiam no meu queixo, portanto, eram as minhas vontades que me levavam ao fundo do poço, não era o álcool o culpado.

Por isso mesmo, só parar de beber não resolve o problema. Com esse aprendizado, hoje eu tenho uma referência para não sofrer muito: quando começo a sofrer tento abandonar as minhas vontades; quando estou perturbado tento ouvir alguém. Através da meditação, tento perceber qual é a vontade de Deus para comigo. Não é muito fácil fazer essas coisas. O orgulho me impede de todas as formas, me ajudando a fazer justificativas e procrastinar, me causando incômodo, dizendo que o orgulho ferido é terrível, mas isso não é verdade.

O restabelecimento da paz da alma é algo muito maior que o orgulho ferido. Das minhas reações quando alguém diz coisas para mim, eu tirei uma lição: se fico alterado ou não. É bom parâmetro para ver se estou realmente num bom caminho:

a) Não me dói. Pois sei que quem me diz está equivocado, ou na verdade está dizendo para descarregar o incômodo interior dele mesmo. A minha consciência quanto ao assunto está tranqüila.

b) Fico apenas incomodado. Estou começando a aceitar o que me foi dito. Já estou usando o programa. Estou me dando chance de melhorar.

Nas duas situações acima estou de bem com a vida, meu emocional está bem. A terceira situação, em que fico alterado, é a descoberta que me ajuda muito:

c) Fico com raiva. É porque não estou aceitando de jeito nenhum, Estou num forte estado de negação; sinto raiva de quem me disse porque me atingiu. Justifico: - quem é a pessoa para falar aquilo para mim? Faço de tudo para desqualificar as palavras a mim dirigidas.

É importante notar que quando a pessoa que me acusa realmente não tem razão, não fico tão atingido assim, talvez fique bravo na hora, pois é uma inverdade, mas logo passa pois nem vale a pena, se tenho consciência limpa quanto ao assunto; mas quando a raiva persiste é porque minha consciência me cobra e meu orgulho está brigando para calar a minha consciência.

Penso ser esse o verdadeiro motivo da perturbação; não é Fulano ou Sicrano. Se senti raiva, estou transferindo a causa; é o meu orgulho que quer me proteger.

As perturbações emocionais só acabarão se eu tiver coragem para enfrentar a causa.

Será que não estou insistindo demais nas minhas vontades?

A pergunta é incômoda, mas muitas vezes tem me levado à resposta.


Revista Vivência nº 91