DP - Trabalhar com os outros é o segredo

Trabalhar com os outros é o segredo Difícil para mim foi permanecer sóbria. Os dois primeiros meses foram uma sequência de dias cheios de medo e angústia. Sentia muita compulsão pelo primeiro gole. O que definitivamente me salvou dele nesse período foi a minha constante frequência às reuniões. Quando voltava para casa após as reuniões, a vontade de beber era torturante. Eu não só era dependente do álcool, era também dependente daqueles ambientes que frequentava: bares barulhentos, cheios de fumaça e de intermináveis conversas... onde sempre se revelava o absurdo da existência, a falta de sentido da vida. E, nos fins de noite buscava desesperadamente libertar-me da solidão... da infelicidade... E agora minhas noites se arrastavam assim: entre o choro e a Oração da Serenidade. Gosto muito de ler, então, em pouco tempo já tinha "devorado" alguns livros da nossa literatura: Viver Sóbrio, Alcoólicos Anônimos, Os Doze Passos, As Doze Tradições, A.A. Atinge a Maioridade...

Foi quando descobri o segredo: o coração de A.A. é um alcoólico falando com outro alcoólico. A convite de uma amiga, que é enfermeira em um hospital psiquiátrico, comecei a ir lá para conversar com duas mulheres que estavam em tratamento por problemas com álcool. Na época, eu nem sabia ainda o que era o Comitê Trabalhando com os Outros (CTO). Apenas ia lá para contar-lhes a minha história e lhes falar da Irmandade. Quando a minha vontade de beber chegava, eu me lembrava delas e sentia que precisava me manter sóbria para poder ajudá-las. Elas nunca vieram para A.A., mas eu lhes serei eternamente grata por terem me ouvido e, com isso, terem me ajudado a evitar o primeiro gole. Talvez a minha inexperiência, a euforia excessiva, o desconhecimento de como se faz uma abordagem correta tenham atrapalhado mais do que ajudado...

A partir daí fui apadrinhada por companheiros do CTO da minha cidade e nunca mais deixei de trabalhar com os outros. Hoje, mais experiente, sem cometer tantos erros, tenho percebido que o remédio para todos os seus males espirituais e emocionais é levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre e, mais que isso, tenho procurado viver os princípios que A.A. me sugere, em todas as minhas atividades.

Parece-me que a agonia dos primeiros dias de abstinência está tão longe... Mas para que eu possa manter a minha decisão de evitar o primeiro gole é preciso que, hoje, eu encontre um bêbado em meu caminho, para que possa levar-lhe uma palavra de esperança, para que eu possa ter com ele um pequeno gesto de amor, para que ele sinta em mim a presença de um Poder Superior, que eu chamo de DEUS, que poderá salvá-lo, como me salvou, da dor, do sofrimento e da morte. 

(Vivência nº 61 - Set/Out 99)