.TRADIÇÕES

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 As Doze Tradições de A.A. 
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Décima Segunda Tradição



12ª  TRADIÇÃO  >>>>>>>>>>>>  O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades.

A substância espiritual do anonimato é o sacrifício. A subordinação dos anseios pessoais ao bem comum é a essência de todas as Doze Tradições. Porque A.A. não podia permanecer como uma sociedade secreta. Os princípios estão acima das personalidades. Cem por cento de anonimato no nível público. O anonimato é a humildade verdadeira.






"DÉCIMA SEGUNDA TRADIÇÃO" 

Por B.L., Manhattan, NY.
"O anonimato é a base espiritual de todas as nossas Tradições, lembrando-nos sempre que devemos antepor os princípios às pessoas".

O AUTOR EXPRESSA: "As Doze Tradições de A.A. têm sido freqüentemente para mim algo vital para manter-me sóbrio, e sempre uma ajuda poderosa em todos os meus assuntos".
(Este artigo foi publicado originalmente na Revista Grapevine e republicado na Revista "EL MENSAJE" de agosto de 1977)

Com muita freqüência, devo perguntar a mim mesmo, "Quem pensas que és, na tua maneira de ser?" A pergunta me amarra ao poste orientador que é a nossa Duodécima Tradição, assim como uma forte corda amarra uma mula teimosa. Quando me encontro agarrado a este poste, vejo-me reprimido para vagabundear em territórios perigosos da vaidade e da autocompaixão. Estas duas condições parecem atrair-me e procuram alimentar meu ego oferecendo com sua forragem sempre verde a possibilidade de cair em alguma das duas tentações que poderia me conduzir de volta à bebida.

Examinando bem esta Tradição, procuro entender seu profundo significado pela lógica ou por alguma outra rota e uma e outra vez me tenho sentido aliviado face à descoberta de que aqui, neste contexto, a palavra "anonimato" tem um significado simples, que pode ser por mim utilizado.

Os periódicos e as revistas, a televisão e o rádio, muito raramente encontram em alguns de nós algo em particular que justifique o interesse do público em saber se estamos sóbrios ou não. Mas, quando tal acontece, a Undécima Tradição amplamente oferece cobertura à situação, segundo creio. (Nunca houve, por certo, a pretensão de que nos abstivéssemos de revelar nossa afiliação a A.A. quando de forma privada.)

Porém aqui na Duodécima Tradição, a palavra "anonimato" sugere expressamente algo muito maior que isso, algo que está no coração de todos os ensinamentos de A.A. Hoje em dia, até onde posso compreender, esse algo é a humildade.

A palavra humildade tem sido, em minha visão, ao mesmo tempo, algo temível e digno de respeito dentro de A.A. No início, além de 1945, pensei no desprezível, choramingado, indigno, falso de Uriah Heep, o personagem de Dickens. Eu não tinha qualquer dúvida de que essa não era a humildade que A.A. queria exprimir.

Em seguida, a palavra me sugeriu a sensação de estar humilhado. Pareceu-me muito difícil entender como e porque isso me ajudaria a permanecer sóbrio. A humilhação havia sido uma das partes mais penosas do meu alcoolismo. Como é que A.A. queria que eu tolerasse mais humilhações, porém sóbrio?

Foi um grande alívio, durante esse primeiro ano, escutar conversas sobre humildade, durante horas e horas, sobre xícaras de café que consumíamos em grande quantidade na cafeteria da Grand Central Station. E eu disse para mim mesmo que humildade não quer dizer abjeção, nem significa desvalorização; pelo contrário, era a significação de um bom propósito.

Posteriormente, ao investigar idéias religiosas com a orientação de meus companheiros de A.A., encontrei uma enorme ajuda através de explicação de Emmet Fox. Ele diz que humildade não significa ser pobre de espírito nem deixar de ter idéias próprias. Ao revés, isto quer dizer estar disposto a aprender o que nos ensinarem.

Depois de uma recaída que tive em 1946, acreditei pôr em prática um passo maior para a compreensão da humildade quando decidi me empenhar no aprendizado do desinteresse. Para mim, isto significava praticá-lo, mas pôr-me em movimento muitas vezes, como se fosse um exercício, necessário para alguém que se vira perdido na autocompaixão e na preocupação vaidosa de si mesmo. Tive que encontrar pequenas coisas que eu pudesse fazer em benefício de alguma pessoa.

Logo, tive que me manter calado com referência a estas iniciativas, em vez de procurar cobrar qualquer crédito por eles.

Isso nem sempre foi fácil, posto que me sentia convencido de que aquilo que fazia não tinha nada de fácil. Deveria ter algum custo, ainda que mínimo, ainda que não fosse mais do que o meu tempo na busca do progresso espiritual. Para o meu propósito, vi que eram melhores as tarefas menores — tais como lavar os cinzeiros em meu grupo. O ponto era, segundo a minha visão, que para a minha própria sobrevivência tinha que aprender a colocar o bem-estar dos outros antes do meu próprio bem-estar, e aprender a fazê-lo assim sem a recompensa do elogio dos demais.

(Tais exercícios são ainda úteis para mim quando me vejo desejando um crédito que não obtenho, tanto dentro quanto fora de A.A. E tenho também o mal hábito de contradizer. Cada vez que aprendo esta lição, tenho que lembrar a mim mesmo à necessidade de ser generoso para dar o crédito quando realmente ele é merecido. Às vezes sou mais pródigo na críticas do que nos elogios, infortunadamente).

Pensei que estava começando a captar o significado da humildade em ação. Então, numa manhã, quase ao meio-dia, antes do almoço, meu chefe entrou repentinamente no escritório e entregando-me algumas folhas escritas e me ordenou: "Tire cópia de todos estes escritos", e se retirou.

A ira me paralisou totalmente. Senti-me tão ofendido quanto se ele houvesse me mandado varrer o escritório. Quem ele pensava que eu era? Por que me ordenou fazê-lo, em vez de dar o serviço para uma secretária? Por que eu, em vez de um auxiliar do escritório? Senti-me tão irado que perdi a capacidade de pensar — simplesmente me dediquei a sentir.

Finalmente, fui para a máquina copiadora, assegurando-me de que Tom, meu chefe, me visse. Também me assegurei de que me escutasse dizer em voz alta: "Não vou poder ir almoçar, porque tenho que fazer este trabalho". Pobrezinho, eu!

Quando comecei a passar aquelas folhas pela máquina — operação que não tomou mais de dois minutos — tratei de me refrear um pouco e olhar para o meu interior, um truque que meu bom psiquiatra me havia ensinado a praticar quando me sentisse com a cara roxa, O que vi foi uni homem de quarenta anos, arrogante e pomposo, fazendo a pirraça de uma criança de quatro anos. Vi-me tão ridículo que comecei a rir de mim mesmo, e a respirar novamente. Não fazia muitos anos, era um bêbado, um vagabundo a quem ninguém podia dar-lhe trabalho. E agora me havia convertido num "grande personagem" que pensava que era demasiado importante para realizar uma simples tarefa mecânica. Realmente, quem estava eu pensando que era?

Já sem estar enceguecido pela minha própria vaidade agravada, lembrei de algo mais que havia esquecido temporalmente. O velho Tom era um bêbado. Com isto quero dizer que se tratava de um bêbado miserável, temeroso, trêmulo, suarento, que bebia o dia todo, mas procurava ocultar. As pessoas riam de seu esforço se perfumando, da dificuldade de fazer a barba, cortando-se, da garrafa que mantinha guardada por trás dos livros, de seus demorados almoços depois dos quais ficavam reduzidos seus tremores matinais.

Eu já havia falado muito sobre as minhas bebedeiras no passado para que se apercebesse de que éramos totalmente afins em nosso interior. (Inclusive procurei manobrá-lo para que me perguntasse a maneira pela qual eu podia permanecer sóbrio). Por isso, quando repentinamente pensei naquelas lastimosas sempre tremendo, senti vergonha de mim mesmo. Obviamente, antes do almoço, ele não podia colocar essas páginas na máquina copiadora posto que sequer podia segurar um lápis.

Simplesmente havia necessitado de um favor de um amigo em quem podia confiar, e eu penso que era tal amigo. Entretanto, eu estava tão orgulhoso de mim mesmo e de minha posição na Companhia que esquecera por completo das necessidades e dos problemas que ele tinha.

Realmente eu não estava colocando "os princípios acima das personalidades". Em meu profundo romance com a mais fascinante personalidade do mundo (comigo mesmo, certamente) havia deixado por um momento de ter em conta um princípio básico de A.A., que é nos preocuparmos com o alcoólico que ainda sofre. Senti-me tão miserável que o convidei para almoçar em seu bar favorito, um local tenebroso e escondido, e lhe dei quatro ou cinco martinis duplos, enquanto eu consumia biscoitos e gingerale.

Durante várias semanas, senti-me naufragar no lodo do sentimento de culpa, tomado pela convicção de que eu era o pior de todos os membros de A.A. Praticamente, comecei a proclamar com orgulho minha preeminência na vergonha e no fracasso. Foi quando um companheiro muito querido em A.A. observou que alguns de nós faríamos qualquer coisa objetivando obter distinção.

Profundamente comovido, comecei a meditar. Algo começou a acalmar-se dentro de mim. E pouco depois, pude ridicularizar essa furna de desespero, tanto quanto havia conseguido rir de mim mesmo quanto à caverna de minha autocompaixão. Sempre, desde os extremos da autoexaltação e da humilhação daqueles dias, faz já quinze anos, tenho estado buscando um meio-termo entre os dois extremos. Sei que existe a humildade genuína, da qual se encontra ausente o falso orgulho, mas que tem presente o auto-respeito, porque isto tem sido demonstrado por muitos membros de A.A. através dos quais tenho aprendido os princípios de Alcoólicos Anônimos.

Acredito que também tenho captado algumas idéias dessa humildade ao escrever sobre as nossas Tradições (e espero que vocês a arrolem em sua lista do inventário).
Se alguém daqueles que lêem a Grapevine desejar compartilhar sua maneira diferente de ver as nossas Tradições, eu serei o primeiro a alegrar-me quando a ler. Depois de tudo, a compreensão das nossas Tradições é semelhante a permanecer sóbrio; não tenho qualquer mérito em fazê-lo, pelo menos enquanto estiver em A.A.
Quem creio que eu sou, depois de tudo?




O Anonimato - Vivendo nossa Tradições

“Em nossas Doze Tradições, temos nos colocado contra quase todas as tendências do mundo "lá fora". Temos negado a nós mesmos o governo pessoal, o profissionalismo e o direito de dizer quais deverão ser nossos membros. Abandonamos a beatice, a reforma e o paternalismo. Recusamos o generoso dinheiro de fora e decidimos viver à nossa custa. Queremos cooperar com praticamente todos, mas não permitimos que nossa sociedade seja unida a nenhuma. Não entramos em controvérsia pública e não discutimos, entre nós, coisas que dividem a sociedade: religião, política e reforma. Temos um único propósito, que é o de levar a mensagem de A.A. para o doente alcoólico que a deseja. Tomamos essas atitudes, não porque pretendemos virtudes especiais ou sabedoria; fazemos essas coisas porque a dura experiência nos tem ensinado que A.A. tem que sobreviver num mundo conturbado como é o de hoje. Nós também abandonamos nossos direitos e nos sacrificamos, porque precisamos e, melhor ainda, por que quisemos. A.A. é uma força maior do que qualquer um de nós; ele precisa continuar existindo ou milhares de alcoólicos como nós certamente morrerão".

Bill W.

Eis porque, plenamente solidário com os elevados propósitos e princípios que regem a nossa Irmandade, sentimo-nos verdadeiramente feliz em poder, mais uma vez, earrow2 com vocês, desta feita, para dialogarmos sobre o controverso tema O Anonimato - Vivendo as Nossas Tradições, por sinal, assunto central da 39ª Conferência de Serviços Gerais de A.A., realizada na cidade de New York, no período de 23 a 29 de abril de 1989, reunindo servidores dos E.E.U.U./Canadá.

É oportuno ressaltar que todo cuidado foi tomado para que o nosso trabalho não se confunda com outras interpretações, de modo que, ao inserirmos breves e concisas noções sobre o tema enfocado, o fizemos na certeza de que, aqueles que as aceitarem, terão uma verdadeira compreensão do que fazem e porque o fazem.

Assim, faz-se necessário dizer que, pela simplicidade do trabalho, é bom de se ver que a sua finalidade outra não é senão a de subsidiar e orientar e, por isso mesmo, não dispensa a complementação eficiente de companheiros mais experientes, que vivenciam, com dedicação e zelo, o programa de recuperação oferecido por nossa instituição.

Por isso, imbuído, somente, da intenção de poder ser útil, alimentamos a esperança de que os conceitos aqui expostos sejam resposta para as dúvidas que se nos apresentam no dia-a-dia de nossa recuperação.

Desse modo, para que o tema enunciado seja desenvolvido, faz-se mister a conceituação do que venha a ser Anonimato, razão que nos leva a tentar esclarecer, sem a pretensão descabida da elucidação do termo. Será, assim, este trabalho, um lembrete aos companheiros, para que o tema levantado seja, posteriormente, aprofundado e enriquecido com experiências outras e saberes os mais diversos, sempre visando a ajudar ao alcoólico que sofre.

De uma forma geral, Anonimato é o artifício usado por aquelas pessoas que não querem ser identificadas. Para nós AAs, esse termo tem uma conotação mais abrangente, haja visto que representa o maior símbolo de sacrifício pessoal, a maior proteção que a Irmandade pode ter, a chave espiritual para todas as nossas Tradições e para todo o nosso modo de vida.

Escrevendo sobre o Anonimato, Bill W. diz em certo trecho:

"Começamos a perceber que a palavra anônimo tem para nós uma grande significação espiritual. De maneira sutil, mas vigorosamente, lembramo-nos de que devemos colocar os princípios antes das personalidades; que renunciamos à glorificação pessoal em público; que. nosso movimento não apenas prega, porém pratica uma verdadeira humildade".

Foi dentro desse princípio, de ajudar anonimamente, que Bill W. recusou o título de Doutor Honoris Causa que lhe fora oferecido por uma Universidade Norte americana; nesse mesmo passo, Bill W. renunciou a grande soma de dinheiro a ele oferecida por companhias cinematográficas norte-americanas, para filmar a sua vida; foi esse mesmo Bill que, recusando o prestígio pessoal, não permitiu que o seu retrato fosse estampado na capa da revista "Times", quando de uma reportagem que ele solicitara sobre Alcoólicos Anônimos.

De outro lado, temos a clássica história envolvendo Bill, Dr. Bob e alguns de seus amigos. Conta-nos Bill que, "quando se soube com toda a segurança que o Dr. Bob estava para morrer, alguns de seus amigos sugeriram que se erguesse um monumento ou mausoléu em sua homenagem e à sua esposa Ane - algo digno de um fundador e de sua esposa. Naturalmente, esse era um tributo muito espontâneo e natural. O comitê chegou inclusive a mostrar-lhe um esboço do monumento proposto. Contando-me a esse respeito, o Dr. Bob sorriu e disse:

"Deus os abençoe”. "Eles têm boa intenção, mas pelo amor de Deus, Bill, que sejamos enterrados, tanto você como eu, da mesma maneira como são todas as pessoas."

O que nos deixa perplexo, é o fato do nosso co-fundador haver escrito há 35 anos atrás a realidade do mundo moderno. Em seu artigo: "Por que o A.A. é Anônimo" ele diz entre outras coisas:

"Como nunca, a luta pelo poder, prestígio e riqueza, está arrasando a civilização - homem contra homem, família contra família, grupo contra grupo, nação contra nação. Quase todos aqueles envolvidos nessa violenta competição declaram que seus objetivos são: a paz e a justiça para eles mesmos, para seus semelhantes e para suas nações. "Dê a nós o poder", eles dizem, e faremos justiça: dê a nós a fama, e daremos nosso grande exemplo; dê a nós o dinheiro, e ficaremos satisfeitos e felizes. As pessoas do mundo inteiro acreditam profundamente nisso e atuam de acordo com isso. Nessa espantosa bebedeira seca, a sociedade parece earrow2 entrando num beco sem saída. O sinal "pare" está claramente marcado. Ele anuncia "desastre".

Por isso, no mesmo artigo, ele acrescenta:

"Quando o primeiro grupo de A.A. tomou forma, logo começamos a aprender muita coisa sobre o sacrifício e suas resultantes. Descobrimos que cada um de nós tinha que fazer sacrifícios pelo bem earrow2 comum. O Grupo, por sua vez, descobriu que deveria renunciar a muitos de seus próprios direitos para garantir a proteção e bem-earrow2 de cada membro, bem como de A.A. como um todo. Esses sacrifícios tinham que ser feitos ou A.A. não poderia continuar a existir."

Toda a Irmandade tem conhecimento de que o Anonimato foi o tema que mais preocupou os nossos co-fundadores, haja vista a maneira errônea como tem sido interpretado pela maioria. A prova disso está no fato ocorrido quando de sua última mensagem enviada aos companheiros que lhe prestavam solidariedade, por ocasião dos seus 36 anos de sobriedade. Já sem forças, Bill pediu a Lois - sua esposa - que o representasse, lendo aos companheiros solidários a seguinte mensagem:

“... meus pensamentos hoje são cheios de gratidão para com a nossa Associação, pelo sem número de bendições que nos tem dado a graça de Deus. Se me perguntassem qual dessas bendições era responsável por nosso crescimento como associação e mais vital para nossa continuidade, eu diria: “O Conceito do Anonimato””.

Feitas estas considerações, resta-nos à luz da literatura e experiências pessoais, vivenciadas no dia-a-dia de nossa recuperação, entrar no ponto axial do tema proposto, cuja essência está inserida nas 11ª e 12ª Tradições, in verbis:

“11ª Tradição - Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção. Cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.”

12ª Tradição - O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”.

Embora, as 11ª e 12ª Tradições sejam completamente distintas, jamais poderão ser analisadas separadamente, haja vista que, ambas se completam para mostrar ao grande público, que Anônimos somos nós - membros de A.A. - e não a irmandade de Alcoólicos Anônimos. Portanto, a irmandade pode e deve ser divulgada, nós não. Enquanto a 11ª Tradição diz respeito ao Anonimato Pessoal, a 12ª encerra, pura e simplesmente, a Tradição do Anonimato.

Dissecando, então, o conteúdo dessas Tradições (11ª e 12ª), verifica-se com facilidade que a 11ª Tradição faz referência a preservação do Anonimato Pessoal, única e exclusivamente em termos de mídia, o que significa dizer, que não existe Anonimato em nossas relações interpessoais.

De outro lado, ao nos lembrar da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades, a 12ª Tradição visa demonstrar, de forma explícita, que a “substância do Anonimato é o sacrifício”, e que, é através desse sacrifício que devemos procurar vencer as paixões e submeter a nossa vontade individual em prol de toda uma coletividade.

Ante as razões apresentadas, é fácil concluir que:

  • Quando um membro se identifica, como A.A., nas suas relações interpessoais, está, apenas, dando abertura ao seu Anonimato, o que, aliás, deve ser feito, sempre que possível, visando a ajudar ao alcoólatra que sofre. Se essa identificação ocorre em termos de mídia, aí está havendo a quebra da Tradição do Anonimato, o que, por sua vez, deve ser evitada sob pena de colocar as personalidades acima dos princípios.
  • De outro lado, quando o membro identifica outra pessoa como seu companheiro de A.A. está, não só ferindo os princípios da irmandade, como também, quebrando a Tradição do Anonimato.

Portanto, ao assumirmos a responsabilidade de levar a mensagem salvadora ao alcoólatra que sofre, devemos sempre ter em mente o seguinte:

  • A informação pública é orientada pela Tradição; entretanto, a informação pessoal, muito mais eficiente, depende da vontade de cada membro.
  • Nosso trabalho será bem mais eficiente se deixarmos que os outros nos recomendem.
  • Não há Anonimato nas nossas relações interpessoais.
  • Por princípio, não há quebra de Anonimato, mas, simplesmente, abertura do Anonimato. Quando existe a quebra, não é do Anonimato, mas da Tradição do Anonimato, o que são duas coisas bem distintas.

Assim, procurando deixar o leitor bem familiarizado com o tema, nas suas mais diversas formas e aspectos, condensamos, dentro do possível, o que segue abaixo:

Anonimato Pessoal: Deve ser mantido na Imprensa, no Rádio, na Televisão e no cinema, da seguinte forma:

  • Na Imprensa - evitar fotografias e dá apenas o primeiro nome e a inicial do sobrenome.
  • No Rádio - dá o nosso primeiro nome e a inicial do sobrenome.
  • Na Televisão e no Cinema - aparecemos de costas ou de perfil, usando um jogo de luz e sombras que nos permita apenas transmitir nossas silhuetas. Aqui também só usaremos o primeiro nome e a inicial do sobrenome.
  • Nas Correspondências - nos casos pessoais, devemos evitar a sigla “A.A.” nos envelopes; em outras ocasiões tomamos as seguintes precauções:
    - De companheiro para companheiro é uma correspondência normal, desde que tomemos os cuidados acima.
    - De grupo para grupo - é também uma correspondência normal, podendo inclusive ser usadas as iniciais "A.A.".
    - De companheiro para grupo - evitamos o nosso nome e endereço no envelope, tendo em vista que o grupo está identificado como sendo de A.A.
    - De grupo para companheiro - usamos apenas o primeiro nome com a inicial do sobrenome do companheiro.
  • Nas Reuniões - dependendo de sua natureza - aberta ou fechada -, tomamos os cuidados seguintes:
    - De caráter fechado - não há anonimato, tendo em vista que a ela têm acesso somente membros de A.A.
    - De caráter aberto - usamos apenas o primeiro nome, se o orador é membro de A.A.; se for não -A.A., usamos o nome completo, inclusive com sua profissão e posição social.
    - De pessoas falecidas - seguimos orientação dos familiares que, por certo, saberão do desejo do falecido quando vivo.
    - De pessoas celebres - a identificação de pessoas como membros de A.A., cabe a elas próprias, sejam célebres ou não.
  • Anonimato das Listas Confidenciais - as listas é que não deveriam existir, pois nenhum benefício traz ao alcoólatra ou ao grupo.
  • Anonimato da Doença - alcoolismo, como doença, é assunto da medicina.
  • Anonimato de Grupos - não deverá existir, pois seu único objetivo é ajudar ao alcoólatra que sofre.
  • Anonimato da Irmandade - não existe, haja visto que anônimos são seus membros.

Ao fim, se nenhum de nós desperdiçarmos publicamente nosso valor, ninguém possivelmente irá explorar A.A. para benefício pessoal. O Anonimato não é apenas algo para nos salvar da vergonha e do estigma alcoólico; seu propósito mais profundo é, na verdade, manter nossos egos tolos, sob controle, evitando que corramos atrás do dinheiro e da fama pública à custa de Alcoólicos Anônimos.

Com efeito, ainda em seu artigo “Por que Alcoólicos Anônimos é Anônimo”, Bill afirma:

“... o temporário ou aparentemente bom pode muitas vezes não ser aquilo que é sempre o melhor. Quando se trata da sobrevivência de A.A., nem o nosso melhor será bom o suficiente.”

E conclui:

“Agora nos damos conta de que cem por cento do anonimato diante do grande público é tão vital para a vida de A.A., como cem por cento de sobriedade o é para a vida de cada membro em particular.

RV. 012 - Out/Dez 89