Artigos - Três Palestras às Sociedades Médicas por Bill W.

"Conheça a Literatura de Alcoólicos Anônimos para transmitir corretamente a mensagem".

O paciente, Sr. R., escolheu o Grupo Oxford da época como sua instituição religiosa. Terrivelmente castigado e quase sem esperança, entrou em grande atividade no grupo. Para sua alegria e assombro, prontamente cessou sua obsessão por bebidas. Retornando à América, o Sr. R. encontrou um velho amigo de escola, um alcoólico crônico. Esse amigo – a quem chamaremos de Ebby – estava prestes a ser internado num hospital psiquiátrico estadual. Nessa conjuntura, um outro elemento vital foi adicionado à síntese de A.A. O Sr. R., alcoólico, conversou com Ebby, também um alcoólico e companheiro de sofrimento. Essa identificação profunda veio a ser o segundo princípio fundamental de A.A. Através dessa ponte de identificação, o Sr. R. transmitiu o veredicto do Dr. Jung de como a maioria dos alcoólicos era desenganada, do ponto de vista médico e psiquiátrico. Ele então apresentou Ebby ao Grupo Oxford, onde meu amigo rapidamente ficou sóbrio.

Meu amigo Ebby conhecia bem minha situação. Eu havia percorrido o itinerário familiar. No verão de 1934, meu médico, William D. Silkworth, deu-se por vencido e desenganou-me. Ele foi obrigado a me dizer que eu era vítima de uma compulsão neurótica para beber; que nenhum tratamento, educação ou força de vontade poderia detê-la. Acrescentou ainda que eu era vítima de uma desordem física que poderia ser de natureza alérgica; uma disfunção física que provocaria dano cerebral, a insanidade ou a morte. Aqui estava novamente o deus da ciência – que era então meu único Deus – esvaziando-me o ego. Eu estava pronto para receber a mensagem que em breve viria por intermédio do meu amigo alcoólico, Ebby.

Ele veio à minha casa num dia de novembro de 1934 e sentou-se à mesa da cozinha enquanto eu bebia. "Não, obrigado", não queria nenhuma bebida, disse-me. Muito surpreso, perguntei-lhe o que havia acontecido. Olhando-me de frente, disse: "Tenho religião". Isso foi demais: uma afronta à minha formação científica. Tão polidamente quanto possível, perguntei-lhe que tipo de religião ele tinha. Então me contou de suas conversas com o Sr. R. e como o alcoolismo realmente era desesperador, segundo o Dr. Carl Jung. Acrescentando-se ao veredicto do Dr. Silkworth, esta era a pior notícia possível. Fui duramente atingido. Em seguida, Ebby enumerou os princípios aprendidos no Grupo Oxford. Embora aquela boa gente às vezes lhe parecesse agressiva demais, não poderia encontrar nenhuma falha na maioria dos seus ensinamentos básicos. Afinal, esses ensinamentos tornaram-no sóbrio.
Em essência, aqui estão, tal como o meu amigo os aplicava em 1934:
1. Ebby admitiu que era impotente para dirigir sua própria vida.
2. Tornou-se honesto consigo mesmo, como nunca fora antes; fez um "exame de consciência".
3. Fez uma rigorosa confissão de seus defeitos pessoais e, assim, deixou de viver sozinho com seus problemas.
4. Inventariou suas relações distorcidas com outras pessoas, visitando-as para fazer as reparações possíveis.
5. Resolveu dedicar-se a ajudar outras pessoas necessitadas, sem a usual necessidade de prestígio ou ganho material.
6. Através da meditação, procurou a orientação para a sua vida e ajuda para praticar esses princípios de comportamento por toda a vida.
Para mim, tudo isso soava ingênuo. Contudo, meu amigo continuou o singelo relato do que havia acontecido. Contou-me que, praticando esses ensinamentos, tinha parado de beber. Medo e solidão desapareceram e havia adquirido uma considerável paz de espírito. Sem rigorosas disciplinas ou grandes resoluções, essas mudanças começaram a surgir a partir do momento em que se pôs de acordo com esses princípios. Sua libertação do álcool parecia ser um produto secundário. Embora sóbrio há poucos meses, sentia-se seguro, pois agora tinha uma resposta básica. Evitando prudentemente os debates, despediu-se e partiu. A centelha que se converteria em Alcoólicos Anônimos tinha sido acesa. Um alcoólico havia estado falando com outro, estabelecendo uma profunda identificação comigo e colocando os princípios da recuperação ao meu alcance. A princípio, a história do meu amigo produziu uma confusão de emoções desencontradas. Eu estava indeciso e revoltado ao mesmo tempo. Minha forma solitária de beber continuou por mais algumas semanas, mas não pude esquecer sua visita. Vários assuntos ocorreram em minha mente: primeiro, que era estranho e imensamente convincente o seu estado de evidente libertação; segundo, que ele havia sido desenganado por médicos competentes; terceiro, que esses velhos preceitos, quando transmitidos por ele, tocaram-me com grande força; quarto, que eu não poderia, nem queria, seguir adiante com nenhum conceito de Deus e que não faria nenhum sentido para mim, nenhuma conversão. Resumindo, tentando brincar com meus pensamentos, descobri que já não podia fazê-lo. Pelos laços da compreensão, sofrimento e singela verdade, um outro alcoólico me havia enlaçado a ele. Não podia me desligar.

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Uma manhã, após beber, tive uma inesperada revelação. E perguntei: "Quem é você para escolher a forma como recuperar-se? Mendigos não têm o direito de escolher. Suponha que a medicina diga que você tem um carcinoma. Você não iria tratá-lo com cosméticos. Tomado de medo, rapidamente suplicaria ao médico para dizimar aquelas diabólicas células cancerosas. E se ele não pudesse detê-las e você acreditasse que uma conversão religiosa poderia fazê-lo, o seu orgulho seria posto de lado. Se preciso fosse, por-se-ia de pé em praça pública e chorando diria 'Amém' junto a outras vítimas. Então, qual a diferença entre você e uma vítima de câncer? Seu corpo está se desintegrando. Do mesmo modo, desintegra-se a sua personalidade e a sua obsessão leva-o à loucura ou a funerária. Vai experimentar a fórmula do seu amigo ou não?" Naturalmente, experimentei. Em dezembro de 1934, compareci ao Hospital Towns, de New York. Ao me ver, meu velho amigo, Dr. William Silkworth, balançou a cabeça, incrédulo. Tão logo me liberei dos sedativos e do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Ebby veio me visitar. Embora me agradasse vê-lo, retraí-me um pouco. Temia a evangelização, mas isso não aconteceu. Após conversar um pouco, pedi-lhe que falasse novamente com clareza da sua fórmula de recuperação. Mansa e calmamente, sem exercer nenhuma pressão, explicou-me. E então partiu. Deitado e em grande conflito, mergulhei na mais negra depressão que havia sofrido. Por um momento, meu obstinado orgulho foi esmagado. E exclamei: "Agora estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa para receber o mesmo que o meu amigo Ebby". Embora não esperasse nada, fiz esse frenético apelo: "Se existe um Deus, que se mostre por inteiro". O resultado foi instantâneo, elétrico, indescritível. O quarto iluminou-se de uma brancura intensa. Entrei em êxtase e vi-me numa montanha. Um vento intenso soprava, envolvendo-me e penetrando-me. Para mim, o vento não era feito de ar, mas de espírito. Veio-me fulgurante à mente um pensamento fantástico: "Você é um homem livre". E então o estado de êxtase cessou. Ainda deitado na cama, descobri dentro de mim um novo mundo de consciência, inundado da "presença". Unido com o universo, uma grande paz caiu sobre mim. "Então esse é o Deus dos pregadores, essa é a grande realidade." Mas, rapidamente, recobrei a razão e minha educação formal assumiu o comando. Eu deveria estar louco. Fiquei terrivelmente assustado.
Dr. Silkworth, um santo médico como nunca houvera igual, veio para ouvir-me contar hesitante esse fenômeno. Após interrogar-me cuidadosamente, assegurou-me de que não estava louco e que talvez eu tivesse tido uma experiência psíquica que poderia resolver o meu problema. Como um homem da ciência cético que era até então, essa foi uma resposta compreensiva e sagaz. Se tivesse dito "alucinação", eu poderia agora estar morto. A ele dedico minha eterna gratidão.

A boa sorte me perseguia. Ebby me trouxe um livro intitulado Variedades da Experiência Religiosa e eu o devorei. Escrito por William James, psicólogo, sugere que a experiência da conversão pode ter uma realidade objetiva. A conversão modifica a motivação e, de forma quase automática, possibilita uma pessoa ser e fazer o que era antes impossível. Interessante foi o fato de que as experiências de conversão ocorreram na maioria das vezes com pessoas que sofreram derrota total em determinada etapa da vida. O livro mostrava certamente essas variedades. Mas, se essas experiências eram brilhantes ou embaçadas, súbitas ou graduais, de caráter teológico ou intelectual, tais conversões tinham um denominador comum, operavam mudanças em pessoas completamente derrotadas. Assim afirmava William James, o pai da moderna psicologia. Após compreender esses fatos eu venho tentando aplicá-los. Para os bêbados, a resposta óbvia era a deflação profunda, e quanto maior melhor. Isso me parecia claro como a água. Eu tive a formação de engenheiro e a visão autorizada do psicólogo significou tudo para mim. Esse renomado cientista da mente veio confirmar tudo que o Dr. Jung havia dito e ele havia documentado exaustivamente tudo o que havia afirmado. Desse modo, William James confirmou os fundamentos pelos quais eu e muitos outros temos nos mantido sóbrios todos esses anos. Eu não tenho tomado nenhuma bebida alcoólica desde 1934.

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Armado com absoluta certeza e animado pelo meu inato desejo de poder, lancei-me à tarefa de curar alcoólicos por atacado. Era duplamente impulsionado e as dificuldades nada significavam. Não me apercebia da enorme presunção do meu projeto. Recrutei a força durante seis meses e a minha casa se encheu de alcoólicos. Discursos bombásticos não produziram o menor resultado. (Para meu desapontamento, Ebby, meu amigo da conversa à mesa da cozinha e que estava mais doente do que eu supunha, demonstrou pouco interesse nesses alcoólicos. Esse fato pode ter sido a causa de suas recaídas, embora tenha eventualmente se recuperado.) Mas tinha descoberto que trabalhar com outros alcoólicos era de enorme importância sobre a minha própria sobriedade. Contudo, nenhum dos meus candidatos estava conseguindo ficar sóbrio. Por quê? Pouco a pouco, os erros da minha abordagem tornaram-se claros. Algo semelhante a um fanático religioso, obcecado com a idéia de que todos teriam que ter uma "experiência espiritual" como a minha. Eu esqueci que James havia dito existir uma grande variedade de experiências transformadoras. Meus companheiros alcoólicos olhavam-me incrédulos ou zombavam sobre o meu "clarão". Sem dúvida, isso arruinava a forte identificação que era tão necessária estabelecer com eles. Tornei-me um evangelista. Obviamente teria que mudar a minha abordagem. O que havia acontecido comigo em seis minutos seriam necessários seis meses com os outros. Tive que aprender que as palavras eram apenas palavras e doravante teria que ser prudente.
Nessa conjuntura – a primavera de 1935 –, o Dr. Silkworth advertiu-me que eu havia esquecido tudo a respeito da deflação profunda do ego. Havia me transformado num pregador. E me disse: "Por que você não coloca a dura realidade da medicina a essas pessoas antes de mais nada? Esqueceu o que disse William James sobre a profunda deflação do ego? Dá-lhes os fatos médicos, com toda clareza. Não lhes conte do "clarão". Enumere extensivamente os seus sintomas, a fim de estabelecer uma profunda identificação. Se você agir dessa forma, os seus candidatos poderão vir a adotar os singelos princípios morais que você vem tentando ensinar a eles". Aqui estava a contribuição vital para a síntese. E uma vez mais foi feita por um médico. Incontinente, substituiu-se a ênfase atribuída ao pecado pela enfermidade, a doença fatal, o alcoolismo. Nós citávamos a opinião de vários médicos que asseguravam de que o alcoolismo era mais letal que o câncer e que consistia numa obsessão mental acompanhada de crescente sensibilidade física. Esses eram os nossos fantasmas gêmeos. Loucura e morte. Apoiávamos nos muito na declaração do Dr. Jung de quão desesperadora poderia ser essa situação e logo aplicávamos uma dose devastadora de conhecimentos a todo alcoólico ao nosso alcance. Para o homem moderno, a ciência é onipotente, virtualmente um Deus. Por isso, se a ciência proferir uma sentença de morte a um alcoólico e nós colocarmos esse veredicto terrível numa transmissão constante ao alcoólico, uma vítima falando a outra, pode abalar totalmente o ouvinte. Então o alcoólico pode voltar-se para o Deus dos teólogos, simplesmente por não ter mais lugar para onde ir. Por mais verdadeiro que fosse esse estratagema, certamente continha o seu lado prático. Imediatamente todo o ambiente modificou-se. As coisas começaram a melhorar. Passados alguns meses, fui apresentado ao Dr. Robert S., um cirurgião de Akron. Era um alcoólico em péssimo estado. Desta vez não fiz nenhum sermão. Contei-lhe da minha experiência e do que conhecia sobre o alcoolismo. Porque nos entendemos e precisávamos um do outro, estabeleceu-se uma reciprocidade pela primeira vez. Esse encontro marcou o fim da minha postura de pregador. Essa idéia da necessidade mútua, acrescida ao ingrediente final da síntese da medicina, religião e da experiência do alcoólico constitui agora Alcoólicos Anônimos.