DP - Um ato de coragem

("Vencer estigmas, medos e até mesmo o orgulho".)

Há algum tempo em uma conversa acalorada confesso, eu disse a uma pessoa que estar em A.A. era um ato de coragem. Naquele momento movido por um impulso que causou excitação não pude refletir bem sobre o que havia dito.

Hoje, passado um tempo, me pego pensando nisso e concluo que, mesmo sem muito refletir não falei nenhuma bobagem, pois para chegar a A.A. é necessário não só certa dose de humildade para reconhecer a impotência diante do álcool, mas também certa dose de coragem para vencer estigmas, medos e até mesmo o orgulho, que tanto nos impede de reconhecer nosso problema.
 
Reconhecer significa para muitos de nós admitir que somos mesmo sem o conhecimento prévio do 1º passo, impotentes perante o álcool. Isso nos leva a uma completa admissão e posterior aceitação da necessidade de auxilio na árdua tarefa de rompimento com velhos conceitos, valores e hábitos que tantas supostas alegrias nos trouxeram, apesar do alto preço. Isso requer coragem!

Dentro de A.A. defrontamo-nos com nosso interior, muitas vezes expressado na fala de nossos companheiros. Momento difícil esse, pois, sem o álcool, instrumento tão bem utilizado por nós para abafar nossas frustrações, nossos insucessos, nossos desencantos, nossas mágoas e dores com nós mesmos e/ou com aqueles com quem de forma direta nos relacionamos. 

Como encarar as coisas de frente, sem a devida dose de coragem?

Durante o processo de recuperação somos acometidos por crises de abstinência, variáveis de individuo para individuo. Podem se manifestar não somente pelo desejo quase incontrolável de ingerir uma bebida alcoólica, o que é também uma conseqüência do lado obsessivo-compulsivo da doença, como também por insônia, convulsões, variações de humor e de comportamento, dentre outras crises tão bem explicadas e detalhadas pela medicina.

Se não nos apegarmos à crença em um Poder Superior a nós mesmos, alicerçados pela coragem, com certeza teremos grandes dificuldades.Para nós, alcoólicos em recuperação desenvolver a coragem é imperioso, pois, sendo A.A. um programa de oportunidades tem-se às mãos uma nova chance de nos reencontrarmos, de voltamos à vida.

Vencer as etapas iniciais mantendo-nos sóbrios; auxiliar outros a se manterem afastados do álcool, buscar e manter nosso equilíbrio são metas a
serem trabalhadas. 
 
Elas se tornarão menos dolorosas, menos desgastantes e menos constrangedoras se nos fundamentarmos no apoio de todos aqueles que desejam sinceramente nos auxiliar e também em nossa coragem, em nossa fé e em nossa força de vontade.
 
(Vivência nº 106 - Mar./Abr.- 2007)