DP - Um cartãozinho branco

Quando cheguei a A.A., eu era uma atéia autoconsagrada, uma agnóstica em tempo parcial e uma antagonista em tempo integral - antagonista em relação a todos, a tudo em geral e a Deus em especial. (Isso se devia em parte, suponho, ao fato de eu tentar me agarrar ao conceito de Deus adquirido na minha infância.) Nunca existira uma mulher mais desnorteada, confusa e impotente. Ao que parece, eu havia perdido primeiro a fé em mim mesma, depois a fé nas outras pessoas e finalmente a fé em Deus. Havia apenas uma coisa boa acerca da minha recusa em acreditar que eu tivera um Criador: essa descrença certamente libertava Deus de uma responsabilidade embaraçosa.
Não obstante tive uma experiência espiritual na noite em que telefonei para A.A., embora só percebesse isso mais tarde. Apareceram dois anjos trazendo-me uma mensagem de esperança real e me falaram a respeito de A.A. Meu padrinho riu quando neguei que tivesse rezado pedindo ajuda. Eu disse a ele que a única vez em que havia mencionado Deus fora quando, no meu desespero por não conseguir ficar nem bêbada ou sóbria, havia gritado: "Deus! O que é que eu vou fazer?"
Ele replicou: "Creio que essa oração até que foi boa, sendo a primeira e vindo de uma atéia. E além disso, foi respondida".
Em um estado que parecia mais o rigor mortis do que uma ressaca aguda, fui levada à minha primeira reunião de A.A., a aproximadamente cento e cinco quilômetros da minha casa. No caminho, visitamos a casa de um membro e eu vi pela primeira vez a Oração da Serenidade, em parede. Foi chocante! Pensei comigo mesma: "Como sempre meti-me novamente numa grande confusão por causa da bebida. Espero que essa oração não tenha nada a ver com A.A., pois era só o que me faltava!" Evitei cuidadosamente olhar naquela direção durante a tarde toda.
Mal sabia eu que, a partir das vinte e quatro horas seguintes, a Oração da Serenidade seria minha companheira e minha esperança de salvação durante cinco dias e cinco noites apavorantes.
Depois que chegamos à reunião fechada de A.A., no inicio da noite, toda minha atitude começou a se modificar a despeito de mim mesma. Aquelas pessoas tinham alguma coisa que me faltava. E eu queria essa coisa! (Mais tarde aprendi que a origem daquilo que elas possuíam era um Deus amoroso na forma em que elas O concebiam.) As pessoas agiam como se eu fosse a resposta a uma prece, e realmente queriam que eu estivesse ali. (Eventualmente, a fé que esses AAs tinham em mim levou-me a acreditar neles e depois novamente em mim, e finalmente em Deus.)
Uma das mulheres me entregou um cartãozinho branco com a Oração da Serenidade impressa. "E se eu não acreditar em Deus?", perguntei.
Ela sorriu e comentou: "Bem, eu acho que Ele acredita em você. Você não disse que estava disposta a fazer qualquer coisa?" E acrescentou: "Apenas se agarre a este cartão como se fosse sua vida! Se você se sentir tentada a tomar esse primeiro gole, leia a oração. Ou então leia, se enfrentar algum problema grande demais para você controlar".
De volta à minha casa, apenas vinte e quatro horas depois, comecei a me agarrar àquele cartãozinho "como se fosse minha vida". Meu marido de vinte e cinco anos entrou em delirium tremens. Na sua loucura, ele me impediu de telefonar ou ir buscar ajuda. Nenhum de nós dormiu durante cinco dias e cinco noites e houve momentos em que me tornei parte dos pesadelos dele e vi minha vida ameaçada.
Durante esse tempo todo não deixei que o cartãozinho saísse da minha pessoa. Li e reli a Oração da Serenidade. Embora a casa estivesse tão estocada de bebida quanto um pequeno bar, o milagre maior foi que eu não bebi! Eu, imaginem - que havia solucionado todos os meus problemas com bebidas fortes. Ao invés disso, agarrei-me àquele cartãozinho e murmurei as palavras vezes sem conta, durante os cinco dias a cinco noites. Não me lembro de haver tomado nenhuma decisão de acreditar. Sentia penas que o Deus dessa gente de A.A. poderia ter piedade de mim e me ajudar. Mas certamente havia chegado a acreditar que estava derrotada. Como diz o nosso Livro Grande. "O alcoólico não tem, em determinados momentos, nenhuma defesa mental contra o primeiro gole. Exceto em alguns casos raros, nem ele nem qualquer outro ser humano pode proporcionar essa defesa. Sua defesa tem que vir de um Poder Superior".
Tudo isso após minha primeira reunião! A experiência completa levou-me a ouvir atentamente as histórias dos outros membros, sobre como vieram a acreditar; levou-me a ler e reler o capítulo "Nós, os Agnósticos" do Livro Grande e as informações sobre o mesmo assunto em "Doze Passos e Doze Tradições". Finalmente cheguei à conclusão que havia uma "maneira mais fácil, mais suave" - mais fácil do que qualquer coisa que eu houvesse tentado sozinha antes de A.A. E vim a acreditar.
E, antes que eu me esqueça... Ainda tenho em meu poder um cartãozinho amarfanhado e apagado, com a Oração da Serenidade que salvou a minha vida, minha sobriedade e restaurou minha fé no Deus do meu entendimento.

Viemos Acreditar 3.5 
Brighton, Colorado