DP - Um Papo sobre os Passos.

 É como lhe digo, companheiro. Para que Doze Passos? Quem precisa disto? Ao pensar assim, raciocinava: "Já fiz uma grande concessão em parar de beber. Não estou aqui para entrar nessa pieguice! Tenho minha casa, meu trabalho, algum dinheiro e agora sei que, não bebendo, as coisas vão entrar nos eixos!"

 Naquela oportunidade, eu achava que meu único mal era a bebida e que as coisas ruins que me aconteciam eram conseqüência exclusiva do álcool. Claro está que assim entendendo, isto é, transferindo para o álcool a culpa pelo meu comportamento, eu "não reconhecia em mim a origem desse meu modo de ser e achava que, cortando o álcool de minha vida, eu me transformava em um "bom menino".

 É claro que isto não funcionou. Estava com toda minha força de vontade e apenas com um pouco de boas intenções, me abstendo do álcool, mas a vida estava uma droga.

 Os sentimentos antigos, as paixões, estavam ali, pressionando-me para que fossem satisfeitas, sem que houvesse qualquer interferência do álcool, pois me encontrava abstêmio.

 O programa de felicidade, que me havia sido acenado, não estava acontecendo. Não para mim.

 Mas via em outros companheiros sinais de tal felicidade, através de um semblante calmo, descontraído, transmitindo uma certeza de serenidade.

 Dizia a mim mesmo que aqueles não tinham os problemas e as responsabilidades que eu tinha. Mais uma vez eu queria ser diferente. Embora sem sentir, eu queria encontrar razões que me convencessem de que meu alcoolismo era algo acidental, decorrente de uma conjunção de fatores que atingiram a mim.

 Mas os fatos passados estavam frescos em minha memória. Principalmente aqueles vergonhosos, mais que os trágicos. Para estes eu sempre encontrava uma sustificativa que, se não isentasse, minimizava minha culpa. Para aqueles, não havia justificativa que livrasse minha cara.

 Não sei dizer com precisão quando se fez a luz que me mostrou, de forma inequívoca, que eu precisava de algo mais, muito mais do que tampar a garrafa. Só a partir daí é que a tão falada e mencionada REFORMULAÇÃO começou a fazer sentido. Mas eu precisava, exigia uma evidência lógica que me justificasse: POR QUE A REFORMULAÇÃO? POR QUE OS DOZE PASSOS? Por que os seres humanos não-alcoólicos poderiam ficar "numa boa" com seus defeitos, enquanto EU, ALCOÓLICO, tinha que ter permanentemente sobre a minha cabeça, pendente, qual espada de Dâmocles, a ameaça de ser perfurado se não me modificasse?

 Alguém, um dia, mencionou que o nosso programa é extremamente factual. Não teorizamos. Falamos de uma história real que no meu caso, qual o de outros, era uma hitória trágica, de sofrimento, principalmente porque o álcool, afastando a minha censura, permitia que todos os "meus diabos quisessem se soltar". E agora que eles, os diabos, tinham aprendido o caminho, queriam manter sua liberdade de se manifestar e a única forma seria adormecer, pelo álcool, a censura presente.

 A necessidade de REFORMULAÇÃO foi reconhecida por K. Jung como indispensável para coroar um processo de recuperação (as cartas trocadas entre Bill W. e K. Jung se referem a isto). Daí que os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos são o processo conhecido de reformulação que nossa Irmandade sugere.

 Seu conteúdo, embora simples, é bastante drástico, no sentido de que "DEVEMOS ESQUECER TUDO QUE PENSÁVAMOS SER E TENTARMOS NOS CONHECER".

 Os Passos, escritos em uma ordem, uma sequência magistral, nos dão meios de assumir, de forma categórica, nosso verdadeiro tamanho, com relação aos outros seres humanos e principalmente com relação a Deus, na forma como cada um de nós O concebe. Mais que isto, propõem-nos, com extrema sabedoria, uma outra vida em que preferimos ser melhores não para sermos santos, mas para não sofrermos. Mostra-nos qual o nosso papel nesta vida. E este papel é a vontade de Deus e. ainda, nos leva a dividir com outros estes princípios.

 Claro está que de meu lado esta percepção não veio de imediato. Foi necessário que eu "entrasse" nos Passos. E no momento em que aceitei "entrar" nestes Passos, fiz o meu primeiro movimento no sentido de recuperação, quando ABRI A MINHA MENTE SEM IDÉIAS PRECONCEBIDAS, PARA CONHECER O QUE HAVIA POR TRÁS DOS DOZE PASSOS. 

(Vivência nº 38 Nov/dez 95)