Artigos - Um toque de amor

"UM TOQUE DE AMOR" 

Temática apresentada pela Dra. Vera no dia 19 de abril de 2003, por ocasião da XVI Convenção Nacional de Alcoólicos Anônimos, em São Paulo/SP.


Caríssimos membros da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Bom dia. Sejam todos bem-vindos.

 
Agradeço pela oportunidade que me foi conferida para desenvolver o tema: "Irmã Ignatia - um toque de amor".

Falar de uma pessoa como irmã Ignatia não é uma tarefa fácil, pois falar de sua grandiosidade como ser humano, e de sua importância para Alcoólicos Anônimos, que foi fundamental para a Irmandade, com certeza deixarei a desejar.

A Irmandade de Alcoólicos Anônimos desde os primórdios tempos, é repleta de amigos que acreditaram e acreditam em A.A. Uma dessas amigas foi Irmã Mary Ignatia.

Ela foi uma Irmã de caridade, da ordem de Santo Agostinho. Lecionava música, mas depois de ficar doente foi designada para tarefas mais menos rigorosas no setor de internação do Hospital St. Thomas, em Akron, EUA.

O nome de Irmã Ignatia está diretamente ligado ao do Dr. Bob, co-fundador de A.A., que desde o final da década de 20 ia com muita freqüência ao St. Thomas Hospital, e foi numa de suas primeiras visitas, em 1928, que conheceu a Irmã Ignatia.
Nesse hospital se desenvolveu aquela grande amizade entre os dois, Dr, Bob e a incomparável Irmã Ignatia.

Seu nome faz lembrar a clássica história do primeiro bêbado que ela e o Dr. Bob trataram. A supervisora noturna de Irmã Ignatia não estava muito interessada em alcoólicos, especialmente naqueles que tinham "delirium tremens", e o Dr. Bob tinha chegado com uma solicitação de um quarto particular para seu primeiro cliente.

A Irmã não entendia porque mandar embora um bêbado prestes a ter um "delirium tremens" e admitir outro com uma pancada na cabeça. Ambos estavam doentes e precisavam de ajuda.

Irmã Ignatia sabia que não havia nenhuma cama, muito menos quartos particulares, mas fez o que pode. E assim introduziu o primeiro candidato de A.A. para admissão. A partir desse incerto início de hospitalização, em tempos pioneiros, observou-se a marcha de crescimento de alcoólicos sofredores, conforme eles passavam pelas portas do Hospital St. Thomas e voltavam para o mundo outra vez, muitos deles para nunca mais voltar ao hospital, a não ser como visitantes.

Segundo Irmã Ignatia, seu primeiro encontro com Dr. Bob pareceu não ter nenhum significado especial. Ela não sabia nada sobre o problema do médico.

Nem Dr. Bob nem Irmã Ignatia souberam do exato momento em que começaram a conversar sobre tratar alcoólicos no St. Thomas Hospital.
Discutiam sempre o problema do alcoolismo e as tragédias causadas pelo excesso de bebida.
Uma vez houve um acidente no qual um motorista intoxicado foi a causa da colisão de três ou quatro carros. Levaram alguns para City e outros para o St. Thomas Hospital. Penalizada, disse ao Doutor que era uma pena ninguém fazer algo por essas pessoas antes que se envolvessem em desastres como aquele...

Ele então lhe respondeu que estavam tentando fazer algo por aqueles indivíduos, que estavam trabalhando com algo parecido a um tratamento. Não conseguiam muita coisa, mas estavam tentando.
Dr. Bob explicou que era uma combinação de medicina com espiritualidade.

Um dia, para sua grande surpresa, Dr. Bob contou sobre seu problema de bebida. Ela mal podia acreditar, pois nunca havia visto o Doutor sobre a influência do álcool. Contou-lhe sobre seu contato com o Grupo Oxford e como, depois de freqüentar as reuniões, encontrou-se com a Bíblia numa mão e um copo na outra. Relatou seu encontro providencial com Bill e fez um resumo de tudo o que foi realizado entre os anos de 1935 e 1938.

Nesse momento lembrou-se do dia em que Dr. Bob chegou ao St. Thomas, em agosto de 1939, depois que em outro hospital lhe disseram, em palavras que não deixavam lugar para dúvidas, "que buscasse refúgio para seus pacientes com tremedeiras em outro lugar". A Irmã nunca tinha visto o Doutor em depressão antes desse dia memorável. Ela pensou que estivesse doente, mas imediatamente compreendeu a causa de seu desânimo.

Contou Irmã Ignatia que Dr. Bob explicou seu problema, mas ela estava receosa em admitir um alcoólico. Pouco tempo antes aceitou um alcoólico por conta própria, colocou-o na enfermaria e lhe pediu para não fazer barulho ou dar trabalho. Na manhã seguinte, a supervisora da noite lhe disse em termos inequívocos que da próxima vez que admitisse alguém com "delirium tremens", seria melhor que preparasse para ficar em pé a noite toda correndo atrás dele pelos corredores.

Naturalmente, ficou intimidada depois desse acontecimento, e quando o Doutor propôs que aceitasse esse paciente, tremeu por dentro. Mas ele assegurou que iria providenciar para que o paciente não causasse nenhum problema; então consentiu na tentativa.

Na manhã seguinte estava muito orgulhosa de si mesma, porque não ouviu nenhum relato grave da supervisora da noite. Doutor Bob não satisfeito solicitou que a Irmã colocasse seu paciente em um quarto privado. Explicou que viriam, alguns homens para visitá-lo e gostariam de conversar em particular.

Ela disse: "Doutor, não temos leitos, muito menos quartos privados, mas farei o que puder". Olhou em volta para ver quem estava indo para casa. Finalmente, ocorreu-lhe de pensar na sala onde costumavam preparar flores dos pacientes.

Espantara-se com os homens que vieram, formavam um excelente grupo de homens. Não podia acreditar que todos fossem alcoólicos. Posteriormente comprovou perguntando a eles, e todos disseram que eram alcoólicos. Deviam ser uns quatro ou cinco. Programavam suas visitas para que não estivessem todos lá na mesma hora.
Ela foi orientada pelo Doutor quanto à duração da permanência de visitas e o tipo de tratamento.
Dr. Bob e Irmã Ignatia começaram a trabalhar cada vez mais próximos durante o outono de 1939, ao colocarem bêbados no St. Thomas para tratamento, e até o dia da morte de Dr. Bob, 4.800 alcoólicos foram admitidos no St. Thomas sob seus cuidados.

Irmã Ignatia e Dr. Bob começaram a estabelecer "um programa definido para cuidar dos pacientes alcoólicos". Obtiveram a aprovação do monsenhor do Decanato Clementine, que era a administradora do St. Thomas.

"Houve um tempo em que os alcoólicos eram uma grande aflição para nós", disse posteriormente a reverenda Madre. "Temíamos que pulassem de uma janela e arranjassem outro problema grave. Hoje, sob esse tratamento, as coisas mudaram. Evidentemente, Dr. Robert Smith sabe como tomar conta desses pacientes."

Em 1952, Irmã Ignatia foi transferida do St. Thomas para administrar a ala alcoólica no St. Vincent's Charity Hospital, em Cleveland. Sob sua sugestão, foi inaugurado com o nome de Rosary Hall Solarium. As iniciais R.H.S. gravadas em letras harmoniosas sobre a porta "simplesmente coincidiram" com as de Dr. Robert Holbrook Smith.

Essa grande tradição (o espírito cooperativo com as Instituições) vive graças à pessoa da Irmã Ignatia. Ela continuou seu trabalho de amor no Hospital de Caridade St. Vicent, em Cleveland, onde agradecidos AAs daquela área contribuíram com trabalho e dinheiro para reconstruir uma antiga ala do local que foi denominado "Pavilhão do Rosário" e destinado para o uso especial da Irmã Ignatia e seus colaboradores. Foram tratados 5.000 casos (a partir de 1957).
No curso de sua vida, Irmã Ignatia esteve envolvida no tratamento de milhares de alcoólicos.

Quando ela faleceu, em abril de 1966, foi elogiada como sendo uma pequena mulher, encantadora e radiante, com nenhuma outra aspiração a não ser a de uma humilde, dedicada e anônima Irmã de caridade.

O que Irmã Ignatia, Dr. Bob e o pessoal ligado a eles, no Hospital St. Thomas fizeram constituiu um excelente começo. O sonho e a esperança deles foram concretizados pelos hospitais de todas as denominações que cooperam nos dias atuais, com a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

Em 1949, 10 anos depois do pioneirismo do Dr. Bob e da Irmã Ignatia, a importância desse trabalho foi profundamente considerada pelos AAs de Ohio. Um comitê foi formado para colocar uma placa comemorativa no pavilhão para alcoólicos do Hospital St. Thomas, expressando claramente o que tantos de nós realmente pensavam e sentiam (pág. 7 - A.A. Atinge a Maioridade).

O apostolado do Dr. Bob, sua esposa Anne, Irmã Ignatia e primeiros veteranos de Akron constituiu um exemplo para a prática dos Doze Passos de A.A. que permanecerá para sempre.
A humildade da Irmã Ignatia sempre se fez presente em suas ações. O que proporcionou através de anos a divulgação de A.A., bem como nos transmitiu por suas ações à prática de nossos princípios.
Ela tinha um tremendo amor a Deus e às pessoas. Para muitos era uma mãe, uma Irmã e uma amiga.
"O capelão do hospital - padre Vicente Haas - não queria ouvir as confissões de pacientes alcoólicos, porque não achava que se arrependiam de verdade". No entanto, Irmã Ignatia o arrastava para dentro de um lugar tranqüilo e isolado para que pudesse ouvi-los".

Com essa atitude ela propiciava o exercício do Quinto Passo, onde na confissão admitia suas falhas a Deus e a outro ser humano.

Irmã Ignatia foi então designada à tarefa de fornecer um plano permanente de hospitalização para o tratamento de alcoólicos em cooperação com Dr. Bob. Assim como o próprio grupo de A.A. de Akron, o programa do St. Thomas ia proporcionar o modelo para muitos hospitais nas cidades por todo o país, senão pelo mundo.

"A princípio trabalhamos lenta e cautelosamente", explicou Irmã Ignatia. "Tentando arranjar acomodações de uma maneira conveniente para que os pacientes tivessem privacidade e os visitantes AAs pudessem conversar com eles. Ao ajudar o outro, a terapia de grupo lhe ajuda a esquecer de si mesmo e ele rapidamente aprende que é mais abençoado dar do que receber, e que é um privilégio ajudar aos outros. O indivíduo se mantém tão ocupado assistindo aos outros que não tem tempo para pensar em um trago."

Fica evidente seu entendimento na importância da transmissão da mensagem da experiência, forças e esperanças de um alcoólico para outro alcoólico - Décimo Segundo Passo - e, com isso, possibilitou a execução da Quinta Tradição pela Irmandade.

Com o passar do tempo, "chegavam ao St. Thomas pessoas alcoólicas de todas as partes". "Uma vez, houve uma exibição com um mapa do mundo, onde bandeiras vermelhas sinalizavam pacientes alcoólicos de diferentes países conduzidos ao St. Thomas.

Contam histórias do indivíduo que viajou em busca da "cura" num avião particular. "Por favor, rezem por mim", implorou este para Irmã Ignatia.

"Certamente rezarei", disse ela. "Mas reze por você mesmo, também. Não há nada que Deus goste mais de ouvir do que uma voz estranha."

Incentivava dessa forma que as pessoas através da oração, buscassem melhorar o seu contato consciente com Deus (Sétimo e Décimo Primeiro Passo).

Ela, naturalmente, dava mais ênfase ao lado espiritual do que muitas outras pessoas. Entretanto achava que Dr. Bob compartilhava seus pontos de vista nessa ênfase.

"Havia uma coisa que sempre irritava Dr. Bob", contou ela. "Algumas pessoas que estavam no programa por um período vinham até ele e diziam: 'Não consigo entender o ângulo espiritual'. Ouvi-o dizer repetidamente: 'Não existe um ângulo espiritual. É um programa espiritual' ".

"Acho que todas essas pessoas fogem de Deus", disse Irmã Ignatia. "Digo a eles: 'Somos todos filhos de Deus. Ele nos ama, ou não estaríamos aqui' ".
Ao mesmo tempo que Irmã Ignatia dava ênfase à oração, sabia como tornar claro seu ponto de vista com pessoas diferentes.

Contam a história de Morris, um membro judeu cujo padrinho era um policial irlandês. Morris se sentia um pouco deslocado no St. Thomas. "Quando os demais entravam para rezar na capela, Irmã Ignatia foi até ele e disse: 'Morris, porque você não se ajoelha ao lado da cama e reza para Deus como você O entende?' Depois desse episódio ela tornou-se uma santa para Morris e sua esposa."

Dessa forma ela transmitia a liberdade que o Segundo Passo nos dá em conceber o Poder Superior, possibilitando assim confiar e entregar suas vontades e sua vida a esse seu Poder Superior.

Embora Irmã Ignatia estivesse debilitada e com dores físicas numa boa parte do tempo, seu senso de humor nunca faltou. Em uma ocasião, um ex-paciente retornou para dizer: "Irmã, esse é o décimo aniversário de minha sobriedade." "Isso é maravilhoso", disse ela. "Mas não esqueça: se você alguma vez precisar novamente de nossos serviços, saiba que ainda temos o número de seu pijama."

A maneira de viver de A.A. nos prepara para uma nova vida; nos oferece condições de, dia após dia, em tempo bom ou ruim, permanecermos sóbrios, mantermos nosso equilíbrio emocional e vivermos utilmente sob quaisquer condições, onde o Prazer de Viver é o tema e a Ação sua palavra-chave. Estaremos vivenciando o dar pelo dar, nada pedindo em troca, pois trata-se do amor que não tem preço (Décimo e Décimo Segundo Passo).

Irmã Ignatia presenteava cada um de seus novos pacientes que tinham alta com um medalhão do Sagrado Coração, sob a condição que o devolvessem antes de tomarem o primeiro gole. Ocasionalmente, dava também uma medalha de São Cristóvão, dizendo a quem recebia para não dirigir em alta velocidade. "Ele abandona o carro quando se passa dos 80 quilômetros por hora", prevenia ela.

O próprio Dr. Bob entrevistava a maioria dos pacientes nos primeiros dias, mesmo antes ou depois de serem admitidos. Depois de fazer a ronda matinal, às vezes ele dizia: "Irmã, aquele bobo que está lá em cima não quer o programa". Então, ela ia vê-lo e contava uma história patética sobre sua esposa e a pequena família, e de como seu emprego estava em perigo se não se corrigisse. O Doutor balançava a cabeça e dizia: "Irmã, simplesmente ele não está pronto". "O Doutor estava sempre certo", dizia Irmã Ignatia.

"Aprendi através da experiência que era perda de tempo forçar qualquer um a aceitar o programa", disse Irmã Ignatia.

Neste instante ela nos mostra toda ênfase da Terceira Tradição, ou seja, que o desejo tem que ser do indivíduo e não de outra pessoa.

"Ela não percebia que o Dr. Bob sofria tanto, mas ele lhe contou posteriormente que, com freqüência, não percebendo que estava por perto, casualmente ouvia outros médicos dizendo: "Tem que ser um bêbado para conseguir um leito nesse lugar. Dizia ele que continuava em seu isolamento e fingia que não ouvia. Essas conversas o faziam sofrer, mas ele achou que depois as coisas mudaram bastante.

"Ela mesma tinha muitas dificuldades. Ouvia ocasionalmente observações de médicos, e até mesmo de enfermeiras, sobre o fato de ser difícil conseguir leitos no hospital, a menos que fosse um alcoólico. Mas ela ficava cega, surda e muda".

A rejeição aos alcoólicos na ativa desde sempre como até hoje é evidente e com suas ações de humildade, Irmã Ignatia não entrava em controvérsia, perseverando assim no objetivo primordial (Quinta e Décima Tradição).

Irmã Ignatia sempre fez questão de ajudar as pessoas entregues a seus cuidados com seus inventários pessoais do Quarto Passo, e dizia-lhes como tomar conta dos ressentimentos e da raiva.

Acreditava no Nono Passo, nas reparações, as quais achava, inclusive tal como recordava-se dos anos 50, não eram tão enfatizadas quanto nos primeiros dias.

"Posso me lembrar de quando alguns daqueles primeiros homens voltavam para me ver depois de fazer suas reparações", disse ela. "Um me informou: 'Sabe, sinto-me muito bem. Acho que eles são meus melhores amigos"

Irmã Ignatia sempre se empenhou em ver o que poderia fazer para reconciliar a família. "Se era o marido, ela fazia com que a esposa viesse um dia antes de sua saída. A esposa dizia: 'Não quero vê-lo. Para mim ele já não existe'."

Então Irmã Ignatia pedia que apenas viesse vê-la. Não tem que ver seu marido. Dizia-lhe: "Veja, você já passou muita coisa com esse homem. Não seria válido dar mais uma chance para esse programa? Esse não é apenas um processo de alcance de sobriedade. Não usaríamos um espaço de hospital tão valioso se tivéssemos a intenção apenas de alcançar a sobriedade das pessoas. A coisa que mais anima é que tantos que passam por aqui captam o programa e nunca mais têm nenhum problema. Agora baseado nisso, você não lhe daria mais uma chance?"

Quando estamos em paz um com os outros e com o mundo que nos rodeia, possibilitamos que nossos conflitos sejam resolvidos e nosso destino assegurado (Primeira Tradição).

O amor é um sentimento humano mais sublime que existe.

Os dicionários dizem: amor, sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa; sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou coisa, devoção, culto, adoração.

Entretanto, o amor verdadeiro, o amor divino, está bem acima de todas as formas de amor terrestre. O amor humano é sempre limitado, se doa para uns e exclui outros. Mas o amor dirige-se a todos os seres sem exceção.

A chave para todos os valores e faculdades divinos encontra-se na idéia do amor, amor a Deus, a si próprio e ao próximo. Tal amor só pode realizar-se em nossa vida mediante absoluto autoconhecimento. Portanto, para cada ser humano se faz necessária uma total mudança fundamental na vida, com a tentativa da derrocada dos defeitos de caráter.

Os princípios de A.A. nos ensinam a passar a usar o amor dentro de nós e muitas vezes está escondido atrás dos nossos defeitos.

Conseguir maior humildade é o princípio fundamental de cada um dos Doze Passos, pois sem um certo grau de humildade, nenhum alcoólico poderá permanecer sóbrio. Sem desenvolver essa preciosa virtude além do estritamente necessário à sobriedade, não terá muita probabilidade de ser feliz. Sem ela, não poderá viver uma vida de muita utilidade, convocar a fé, fazer da honestidade, da tolerância e do verdadeiro amor ao próximo e a um Deus amantíssimo a base do viver cotidiano.

Durante o processo de aprendizagem a respeito da humildade, o resultado mais profundo de todos foi a mudança de nossa atitude sobre Deus.

Começamos a superar a idéia de que o Poder Superior era um tipo de reserva no jogo, a quem apelávamos apenas numa emergência.

A noção de que seguiríamos vivendo a nossa própria vida, com uma ajudazinha de Deus de vez em quando, começou a se desvanecer.

Despertamos para as limitações dessa atitude. Recusando colocar Deus em primeiro lugar, havíamo-nos privado de Sua ajuda.

Percebemos que não era necessário sermos sempre levados à humildade por cacetadas e pancadas. Tanto poderíamos atingi-la, procurando-a voluntariamente, como pelo sofrimento incessante.

Um momento decisivo em nossas vidas chegou quando procuramos a humildade como algo que desejávamos, em vez de algo que precisávamos ter.

Nossas liberdades em A.A. criam o solo no qual o amor genuíno pode crescer, e assim desfrutamos do viver em paz consigo mesmo e com os nossos semelhantes, e queremos permanecer assegurados pela graça de Deus.

O amor de Irmã Ignatia pelos alcoólicos nasceu do sofrimento próprio e alheio.

A citação predileta de Irmã Ignatia era a parábola divina predicada pelo apóstolo aos gentios:

"As coisas tolas do mundo Deus as escolheu para que Ele possa confundir o sábio, as coisas frágeis do mundo Deus as escolheu para que Ele possa confundir o forte, e as coisas que carecem de importância no mundo, as que são depreciadas, as coisas que são nada e aquelas que podem tornar-se nada, Deus as escolheu para que nenhum ser humano possa se gloriar em Sua presença."

Irmã Ignatia foi, é e será um dos grandes exemplos do verdadeiro amor-dedicação ao próximo e a Deus.

E para expressar não só sua grandiosidade como ser humano, bem como nossa gratidão a ela, nada melhor do que as palavras daquele que com ela conviveu e compartilhou diretamente de seu amor - Dr. Bob -, que em resposta a uma carta que Irmã Ignatia lhe escreveu quando do falecimento de Anne (1949). Ele lhe respondeu com um bilhete breve, mas muito eloqüente (no Natal):

"Querida Irmã", sinto-me afortunado por ter sido abençoado com a amizade de uma pessoa tão dedicada e sincera como você. Você tem demonstrado de tantas formas amor, lealdade e bondade que não sei nem mesmo como começar a lhe agradecer adequadamente. Em toda uma vida, pode-se encontrar uma ou duas pessoas maravilhosas como você. Por isso, pelo meu raro privilégio de conhecê-la, sinto-me humildemente agradecido. Que Deus sempre lhe abençoe. Com muito amor, Dr. Bob Smith."

Muito obrigada.

Vivência 85 – Set./Out. 2003