DP - Uma filosofia prática

Estando integrado ao ambiente de A.A., me mantenho sóbrio há mais de oito anos. Tenho recebido ajuda de uma filosofia muito prática - uma forma de raciocinar que gera resultados reais. "Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos." O Terceiro Passo pode ser uma ordem dura, especialmente quando não se é muito religioso ou se enfrentou alguns problemas na área de "Deus". A reformulação do Passo me ajudou muito: "Deus, na forma em que não O concebo" e entregar minha vida aos cuidados do Bem". Essas duas idéias permitem que um pagão como eu descarte o aspecto religioso e comece a experimentar os benefícios espirituais de A.A. Para muitos de nós, a concepção de Deus esbarra no fato frustrante de não O concebermos. Foi um enorme alívio para mim saber que eu simplesmente não tinha que concebê-Lo. Afinal de contas, você não precisa saber como cresce uma árvore, para fazer uma cerca de madeira. E A.A. é pratico. Tentar conceber Deus antes de trabalhar o Terceiro Passo, na minha opinião é uma tarefa impossível. É impraticável. Posto isso, como se poderá praticar esse Passo? Minha sugestão é que será proveitoso parar de tentar praticá-lo. Por que? Porque tentar praticar o Terceiro Passo pode ser apenas outra forma de tentar conceber Deus. Outra vez, isso é impraticável.Muitas pessoas decidem elaborar planos a partir de coisas que não exigem nenhum trabalho. Viemos a acreditar que nada de bom é conquistado sem esforço e que a auto-indulgência é sempre ruim. Minha opinião é que o Terceiro Passo não exige nenhum trabalho e que ele pode ser melhor implementado através da auto-indulgência mais agradável. Permitam-me ilustrar com uma pequena experiência que me aconteceu, após estar em A.A. por cerca de um ano. Minha situação profissional era, segundo me parecia, muito ruim. Mal podia aturar aquilo que fazia, simplesmente continuei ganhando tempo. Subitamente, apresentou-se uma nova oportunidade. O novo emprego exigia que eu me mudasse e era em uma empresa conhecida por contratar e despedir as pessoas sem nenhuma consideração. Não obstante, o salário inicial era um terço maior do que eu estava ganhando. Meu velho emprego fora uma preocupação constante e significativa para mim, a partir do momento em que me tornara sóbrio; na época da nova oferta vinha, há muitos meses, fervendo e me irritando noite e dia por causa do velho emprego. Estivera, na realidade, tentando modificar minha situação no emprego através da minha vontade própria, escrevendo memorandos, queixando-me, tentando moldar a empresa segundo minha forma de pensar. Bem, havia quarenta pessoas na empresa, além de mim. Não conseguiria mudá-las todas. Agora chegava aquela oferta e complicava ainda mais minha cabeça. Não queria me mudar; estava me tornando parte de um grande Grupo de A.A. e havia feito muitos amigos AAs. Fiquei dividido entre a oportunidade de um grande salário e a segurança do emprego pré-existente; entre mudar-se para uma cidade estranha e ficar com os amigos que havia recentemente conseguido. Isso pode não parecer muito preocupante para quem está preso, por exemplo, mas, para mim, foi o suficiente para levar-me a um médico atrás de pílulas contra azia, arruinar meu humor e perturbar totalmente minha vida. Finalmente, fui procurar um amigo de A.A. que tinha muitos anos de sobriedade de excelente qualidade. Ele não me falou acerca do Terceiro Passo - pelo menos não pelo nome. O que ele disse foi: "Por que você simplesmente não adia essa decisão durante um ano?" Perguntei-lhe o que ele queria dizer com isso. Aconselhou-me a permanecer no emprego atual. Sugeriu que simplesmente parasse de me preocupar em estar ou não ganhando dinheiro o suficiente, que fosse simplesmente trabalhar todos os dias, desfrutasse do privilégio de não me preocupar com a minha situação, vivesse um dia de cada vez e fizesse o   que me parecesse melhor a cada dia, conforme as circunstâncias - e que fizesse tudo isso durante um ano. Um ano livre de preocupações! Melhor do que férias pagas. Bem, eu fiz isso. Estava tão cansado de aborrecer-me com aquela droga de emprego que foi um prazer ir simplesmente trabalhar todos os dias e não me preocupar. Em outras palavras, desisti - mas de uma maneira bastante saudável. Meu humor melhorou, assim como meu trabalho. No fim de um ano, havia sido promovido duas vezes e recebera dois aumentos de salário. Posteriormente, fui trabalhar em outra empresa, mas mantive relações cordiais com meus colegas anteriores. Aquele foi a ano mais valioso da minha vida. Aprendi da maneira mais prática a verdade daquele velho chavão segundo o qual você só pode mudar a si mesmo e não o resto do mundo. Aprendi que você pode praticar o Terceiro Passo sem tentar praticá-lo. Você pode praticar o Passo, deixando de se preocupar durante um ano. Ao final de um ano, se houver gostado muito de não se preocupar, tire outro ano de folga. Todos nós temos que fazer alguma coisa todos os dias - trabalhar em um escritório ou uma fabrica, ser soldado, cuidar de uma casa ou qualquer outra coisa. Nenhum de nós precisa compreender Deus ou se preocupar sobre coisas que estão além do nosso controle. Podemos nos dar ao luxo de não nos preocuparmos. Qualquer um de nós pode suportar apenas um dia; tudo que cada um de nós precisa é tentar isto em seu próprio trabalho, em sua própria vida familiar. Não temos que tentar consertar o mundo todo ou entender o que nenhum teólogo, de qualquer credo, jamais entendeu. Paramos, simplesmente de nos meter nos assuntos de Deus. E, na minha opinião, quando paramos de nos agitar e nos preocupar, entregamos nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus (ou do Bem), na forma em que O concebemos (ainda que não O compreendamos).
San José, Califórnia,