DP - Uma geleira que se derrete

Eu estava sóbria há dezoito meses e sentia-me física e mentalmente melhor do que jamais estivera durante muitos anos. Estava muito envolvida nas atividades de A.A., mas continuava agnóstica acerca desse "negócio de Poder Superior". Achava que tinha procurado A.A. em busca da sobriedade, que tinha conseguido essa sobriedade e que A.A. era tudo o que eu precisava para me manter sóbria. De vez em quando gostaria de poder afirmar, como a maioria dos membros de A.A., que meu Poder Superior era Deus; mas a necessidade de honestidade me causara uma forte impressão e sabia que seria incapaz de admitir um Poder Superior a Alcoólicos Anônimos, até que estivesse firmemente convencida. Em um fim de semana, fiz planos especiais e pessoais (montei o palco) e o homem incluído nesses planos me desapontou (o ator não entrou no palco na hora da deixa). Sem aviso e aparentemente sem nenhuma causa suficiente, mergulhei numa crise de choro histérico, ficando cada vez mais desestruturada emocionalmente. Estivera hospitalizada seis anos antes, como psicótica, e agora estava experimentando a sensação de deslizar para um poço de torturas infernais. Sentia-me tão desesperada, da mesma forma como quando pedira a ajuda a A.A., um ano e meio atrás. Mas desta vez eu estava sóbria. Minha filha de quinze anos ficou mais alarmada do que jamais ficara antes, durante todos os meus anos de bebedeiras. Também ela começou a chorar de medo e sugeriu que eu chamasse um médico ou alguns dos meus amigos de A.A. Disse a ela: "Linda, nenhuma pessoa pode me ajudar. Eu preciso da ajuda de Deus". Essa palavra, "Deus", saiu-me automaticamente.Anteriormente, nunca fora capaz de dizê-la em voz alta. Chorando, minha filha respondeu: "Mãe, penso que Deus nos esqueceu". Essa resposta levou-me a chorar ainda mais compulsivamente e caí numa depressão desesperada. Eu havia comparecido a muitas e muitas reuniões de A.A. e ouvira o ABC do Capítulo Cinco do livro "Alcoólicos Anônimos", afirmando sempre que a resposta para o meu problema estaria esperando por mim nesse momento de necessidade. Estava convencida de que Deus poderia e iria me ajudar se eu O procurasse. Durante as seis semanas que se seguiram, nos momentos em que pude estar sozinha, fazia um esforço concentrado para determinar o que ou quem era Deus e qual era meu relacionamento com Ele. Começaram a acontecer coisas estranhas. Havia pensado que era feliz naqueles primeiros dezoito meses de sobriedade, mas agora tudo começava a parecer-me mais brilhante; as pessoas pareciam mais gentis e eu tive momentos de profunda percepção. Era como se as palavras e as sentenças que ouvira durante toda minha vida tivessem um significado mais profundo e estivessem tocando meus sentimentos, ao invés do meu intelecto. Era como se minha cabeça e meu coração finalmente estivessem integrados. Não parecia mais ser duas pessoas em uma, engajada em um esforço de guerra. Experimentei nesse período de seis semanas uma sensação de ser totalmente perdoada e nunca mais, desde então, senti a culpa que sentira durante toda minha vida anterior àquele período. Tive mais de uma vez a sensação de uma Presença que só posso descrever como sendo maravilhosamente cálida, edificante e confortadora. Embora não chorasse mais quando estava acordada, nesse período acordei muitas vezes durante a noite porque meu travesseiro estava úmido e frio. Era como se todo esse pranto estivesse derretendo uma geleira que envolvia meu coração - uma geleira que havia me afastado não apenas do mundo das pessoas, mas também do meu "eu" real. Posteriormente, quando confidenciei a estranheza desse interlúdio a outros AAs, disseram-me que eu tivera "o choro de A.A.". Foi um período de confusão, mas fui especialmente ajudada por ter observado uma nota de rodapé na primeira edição do livro "Alcoólicos Anônimos", transportando-me ao livro "As Variedades da Experiência Religiosa", de William James, cuja psicologia filosófica constitui uma grande parte do método pratico de A.A. para se obter a sobriedade e induzir um despertar espiritual voluntário. Como exemplo, James afirma (resumindo as opiniões do Dr. E. D. Starbuck), que "para a maioria de nós, a sensação de nossa iniqüidade atual é um componente muito mais distinto da nossa consciência do que a imaginação de qualquer ideal positivo que possamos almejar. Com efeito e na maioria dos casos, o 'pecado' quase que apenas aguça a atenção, de forma que a conversão seja 'um processo de empenho em nos afastarmos do pecado, ao invés de nos esforçarmos no sentido da retidão'". Exatamente como James descreve, eu não me sentia mais como uma pessoa dividida. Depois desse período de seis semanas, estava unificada. Desaparecera de meu plexo solar a "bomba-relógio" que sempre existira ali, esperando para explodir. Acredito que tenha sofrido não apenas de alcoolismo, mas também de "sérias desordens emocionais e mentais". Conseqüentemente, foi necessário que me rendesse não apenas em relação ao álcool, mas também em relação a Algo Mais. Ninguém disse isso melhor do que o Dr. Harry Tiebout, no seu livreto "O Ato da Rendição no Processo Terapêutico": "Para uns poucos, parece ocorrer um fenômeno que poderia ser chamado de rendição seletiva'. Depois que se dissipam os efeitos da experiência de rendição inicial, o indivíduo volta a ser em grande parte a mesma pessoa que era antes, exceto pelo fato de não beber e não travar nenhuma batalha nesse sentido. Sua rendição não ocorre em relação à vida, como uma pessoa, mas sim em relação ao álcool, como um alcoólico". A.A. me proporcionou um meio através do qual consegui superar a compulsão para beber e, mais importante, um meio através do qual pude conseguir uma mudança da personalidade ou um despertar espiritual - uma rendição em relação à vida. Embora eu tenha tido problemas, e foram problemas graves, desde aquele verão, dez anos atrás, minha fé não foi abalada. Não posso dizer que eu tenha encontrado Deus na forma em que O concebo, mas sim que tenho fé em Algo que continua sendo um mistério para mim e que continuo a procurar. 

VIEMOS A ACREDITAR 6/3