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UMA PARCERIA FUNDAMENTAL
PROFISSIONAIS DA SAÚDE E ALCOÓLICOS ANÔ
​NIMOS

Dr. Raul Castro Miranda
Médico Psicoterapeuta
Petrópolis/RJ

Se Voltaire (1694 1778) ainda estivesse vivo, talvez não reafirmasse que “os médicos se valem de medicamentos que pouco conhecem para curar doenças que conhecem menos ainda em seres humanos dos quais nada sabem”.
Afinal, de lá para cá a medicina evoluiu tanto, que a afirmação do renomado escritor, hoje, parece já não fazer mais nenhum sentido.
Mas, será sempre assim mesmo?
Se observarmos o que sabemos hoje sobre o alcoolismo, por exemplo, verificaremos que se, por um lado, estamos muito distantes da época em que acreditávamos que aqueles que bebiam demais eram seres degenerados ou estavam possuídos por espíritos malignos, por outro lado, devemos admitir que ainda não conhecemos e não conheceremos tão cedo alguns aspectos fundamentais dessa doença, como a sua causa, ou a sua cura, por exemplo.
Mas, se é assim, como lidar então com essa importante moléstia que, afinal de contas, não pode ser ignorada, já que é tão frequente e acomete uma em cada dez pessoas do planeta; é tão grave que só mata menos do que o câncer e as doenças do coração?
Sigmund Freud dizia que “só um homem que realmente sabe é modesto, pois ele sabe quão insuficiente é o seu conhecimento”.
Talvez seja disso que estejamos necessitados aqui: um pouco de modéstia!
Esclareço.
A formação dos profissionais especializados em alcoolismo (médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, conselheiros em DQ, etc.) tem por objetivo capacitá-los a compreender como funcionam o corpo, a mente e os principais acontecimentos da vida de um (a) alcoólico (a). Eles aprendem, por exemplo, que o (a) alcoólico costuma se alimentar muito mal (desnutrição), que o seu estômago costuma chiar (gastrite, úlcera), que o seu fígado tende a degringolar (cirrose), que os seus neurônios podem não aguentar (atrofia cortical), que o seu ser chega a delirar (delirium tremens), que os seus negócios teimam em sucumbir (falência, dispensa do trabalho), que os seus amores costumam esmorecer (distanciamento, separação), que os seus limites insistem em desobedecer (agressão, acidente), que as suas verdades valem tanto quanto as suas mentiras (decepção, calote), que as suas culpas “se mandam” rápido para debaixo do tapete (embora sempre permaneçam lá), que o seu choro e o seu sorriso podem impressionar (embora possam nada significar), que os únicos parceiros leais costumam ser os de copo (ainda que eles nunca possam ser chamados de amigos), enfim, que a sua vida, tal qual uma estranha ilha, é uma garrafa de álcool (grande) cercada de coisas (pequenas) por todos os lados...
Tudo isso, e muito mais, ainda, o profissional especializado pode e deve aprender. E se aprender com afinco, se dedicar-se com presteza ao seu ofício, poderá vir a ser, em algumas ocasiões, a diferença entre a vida e a morte dos seus pacientes.
Uma coisa, entretanto, ele jamais poderá compreender. Por mais que tente, que se esforce que se dedique, ele jamais saberá, de fato, o que é SER UM ALCOÓLICO. Por isso, quando se der conta dessa verdade, ele deve deixar de lado os próprios preconceitos (e eles geralmente estão presentes, sim) e procurar conhecer, ainda que superficialmente, os Alcoólicos Anônimos.
Se tiver sensibilidade e boa vontade, ali ele descobrirá que todas as vezes que um alcoólico fala ou ouve o depoimento de outro alcoólico, realiza-se uma façanha que nenhum profissional não alcoólico jamais poderá realizar: a da transmissão, através da palavra, da única força no mundo capaz de ser respeitada por quem está tão acostumado a desrespeitar: a FORÇA DO EXEMPLO.
Não o exemplo do mestre ou do herói, sempre pronto a ditar regras de conduta, mas o exemplo do homem comum, que bebeu muito mais do que podia ou devia e que finalmente compreendeu que a atitude de largar a bebida é muito importante; sim, mas é apenas a primeira etapa de um processo de reformulação interna que tem por objetivo atingir uma outra coisa muito mais importante: A SUA SOBRIEDADE!
Se for inteligente e tiver juízo, o profissional especializado estabelecerá então com a Irmandade uma espécie de parceria informal que eu considero fundamental para o sucesso do manejo do paciente alcoólico.
Nela, fica “acertado” que enquanto os primeiros se ocuparão de cuidar do corpo e da mente desses enfermos, aos segundos caberá o exemplo, o apoio e o acompanhamento desses companheiros recém-chegados dos seus dolorosos caminhos de perdas e danos.
Que sejamos sempre bem sucedidos nessa empreitada!

Vivência nº 105 – Janeiro/Fevereiro/2007.