Artigos - Uma reflexão sobre A.A. e os adolescentes

Sabemos que A.A. é para todos, porém quando o assunto são os adolescentes paira certa dúvida. Se pensarmos nas escolhas, nas abstenções e nas negativas que deverão ser feitas a tantos estímulos e convites externos – e por que não dizer internos? – recebidos por eles, e mais, pensando segundo a cultura e o modo de vida atual deles, temos justificada nossa dúvida.
Pela nossa experiência, reconhecemos que, para caminharmos dentro da programação de A.A., que é uma programação de reformulação de vida, é necessário mais do que vontade. Temos que participar, ter atitude, entrega e disposição para, diante de tantas possibilidades, escolher aquela que mais nos convém naquele momento e no seu correspondente futuro. Conseguimos pensar nos adolescentes dispostos a isso?

Bem, não estamos aqui querendo dizer que seja impossível para qualquer adolescente pensar e agir dessa forma; apenas analisamos segundo a realidade que percebemos.

O fato é que A.A. não deve impor nenhum obstáculo à chegada e à possível permanência de qualquer pessoa. No caso dos adolescentes, em especial, a mensagem deve ser transmitida considerando não a nossa perspectiva, de pessoas mais vividas que, de certa forma, já experimentaram o que hoje eles experimentam e perceberam a necessidade de, diante de tantos transtornos, desconfortos e malefícios causados pelo consumo excessivo do álcool, mudar a direção de suas vidas, mas sim, segundo a perspectiva deles, pessoas que passam por um intenso momento de autoafirmação de suas personalidades e necessitam de experiências para os balizarem em suas escolhas e definições.

Para transmitirmos a proposta de A.A. aos adolescentes, em muitos casos, deveremos adequar nossa ideia e nossa fala ao universo vivido por eles, considerando que, para alguém dessa faixa etária, não é tão simples evitar os prazeres, as festas, as baladas, os rocks, mas que é possível, por mais que pareça impossível, viver tudo isto evitando o consumo de qualquer substância que altere seu comportamento. É importante alertá-los quanto à progressividade do alcoolismo e que, com consciência e bom senso, “pode-se evitar quinze a vinte anos de puro inferno em suas vidas”.

Reconhecemos não ser uma tarefa simples para nós, membros de Alcoólicos Anônimos, habituados a dialogar com pessoas mais vividas e de uma faixa etária maior, dentro de nossos grupos.

Para obtermos êxito na proposta de transmissão da mensagem de A.A. aos adolescentes, penso que teremos que sair de nossa zona de conforto, investir em nossa capacitação, reciclar nossas ideias e falas, adequando-as a essa nova realidade, reconhecendo que, se êxito obtivermos na transmissão da mensagem de A.A., estaremos contribuindo não somente para nossa melhoria de vida, que tem um de seus suportes no Décimo Segundo Passo, mas na melhoria de vida da comunidade da qual fazemos parte e que, de certa forma, tanto prejudicamos com nossa forma inconsequente de ingestão da bebida alcoólica.

Revista Vivência nº 143