Artigos - Unidade na diversidade

Natureza, ou, se quiserem, Deus, é um artista original. Nunca se repete. Existem mais de cinco bilhões de pessoas na face da terra. Cada uma diferente das outras. Cada uma com sua própria individualidade, suas características pessoais imutáveis e intransferíveis.

Assim também acontece em Alcoólicos Anônimos. Cada alcoólico com seu próprio perfil.

Todavia, se não somos iguais, pelo menos temos traços comuns a nos tornar semelhantes. Um deles é a nossa doença: crônica, incurável, a exigir daqueles que alcançaram a recuperação uma vigilância contínua, um dia de cada vez. Outro
é o sofrimento. 
 
São raros os que chegam sem ter sofrido, sem ter comido o pão que o diabo amassou. No dizer do poeta:"Quem amou nesta vida e não sofreu, Foi espectro de homem,não foi homem.  Passou pela vida e não viveu".

Poder-se-ia parodiar: Quem bebeu nesta vida e não sofreu, nunca foi bebedor, realmente, nunca bebeu. Porque a dor, o sofrimento, a vergonha, o remorso, a rejeição, o desespero, o arrependimento, as promessas de nunca mais beber, com um porre no mesmo ou no dia seguinte, fazem parte da história de quase todos os alcoólicos, recuperados ou não.
 
Foi essa dor que nos fez baixar a crista e, humildemente, aceitar aquele convite para assistir, sem compromisso, aquela primeira reunião de Alcoólicos Anônimos e na qual nos identificamos como alcoólicos graças às histórias ouvidas de companheiros mais antigos, todas elas salpicadas de lágrimas doridas e doloridas, não somente nossas como também dos familiares, amigos, conhecidos e até desconhecidos.

Mas existe, ainda, outro fator aglutinante, tão ou mais importante que os anteriores. Este é o fato de sermos, todos nós, privilegiados filhos do Poder Superior. Não sofremos à toa. Nossa dor teve um propósito. O Poder Superior nos caldeou no cadinho do sofrimento para nos preparar para uma grandiosa missão: levar a mensagem de A.A. ao alcoólico ainda sofredor; para cuidar da mais preciosa das mercadorias: a vida humana.

É essa singularidade de propósito cristalizada em nossa Quinta Tradição que nos mantém em Unidade. As desavenças começam quando começamos a nos desviar deste importante princípio, quando começamos a colocar as personalidades acima dos princípios, a disputar cargos a que chamamos, farisaica mente, de encargos, ou quando pretendemos neles nos perpetuar. Grupo unido é Grupo preocupado em levar a mensagem de A.A. ao alcoólico que ainda sofre. 

Desunido é o Grupo que esqueceu essa preocupação para cuidar de assuntos periféricos, tudo, naturalmente "para o bem e por amor da Irmandade de Alcoólicos Anônimos".
 
Diversos em nossa singularidades, unimo-nos para nos recuperarmos de uma doença progressiva, irreversível e incurável e que nos levará ao túmulo, prematuramente, se não for detida; pelo sofrimento comum a todos os doentes e, sobretudo, para cumpri a tarefa que nos foi confiada pelo Poder Superior, aquela de levar nossa mensagem redentora a todo aquele que dela necessite. Para isso Ele nos devolveu a sobriedade, a clarividência, a paz interior, o crescimento espiritual, a alegria de viver.Todas as Tradições nos sugerem a humildade. Destarte, Unidade e Humildade andam de braços dados. 
 
Não contribuiremos para a Unidade do Grupo ou da Irmandade se formos orgulhosos, vaidosos, prepotentes, interesseiros e mentirosos. É preciso ser manso e humilde de coração, como disse o Mestre. Sem unidade o A.A. morrerá!... e nós também.

A responsabilidade é nossa. E nosso o risco. 

(Vivência - Mar/Abr.1997)