DP - Usando dois chapéus

USANDO DOIS CHAPÉUS

Quando eu era um jovem estudante de medicina, e ainda não bebia, minhas aulas de clínica  médica  eram  no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, um prédio muito antigo de pé direito muito alto. Os alcoólatras ficavam em leitos colocados em enfermarias enormes, arejadas por imensas janelas por onde entrava a claridade. Meu professor seguia rapidamente à nossa frente, detinha-se por vez diante de um leito e nos dizia: "estão vendo este paciente? Ele tem uma cirrose alcoólica. Cansei de  aconselhá-lo a diminuir a bebida, mas ele não teve força de vontade suficiente e continuou se entregando ao vício. Agora, não há mais o que fazer". E seguia em frente, dizendo mais ou menos o mesmo dos demais enfermos.

Comecei a beber em reuniões sociais, porque percebi que a bebida me tirava a timidez, soltava a minha língua e me deixava com a impressão de ser mais inteligente e interessante. Mas nunca imaginei que um dia pudesse vir a ser um alcoólatra porque afinal de contas, eu achava que tinha caráter forte e nunca iria deixar o álcool me dominar, como tinha feito com aqueles infelizes na Santa Casa de Misericórdia.

Vinte e cinco anos mais tarde eu era um farrapo emocional e espiritual, que acordava de madrugada para beber escondido - única maneira  de controlar a terrível ansiedade da crise de abstinência e poder voltar a dormir. Tive o bom senso de largar o bisturi e me encaixar  em uma atividade administrativa, mas  mesmo assim precisava beber para parar de tremer e conseguir assinar meu nome nos papéis que despachava. Do ponto de vista físico, minha saúde começava também a piorar e surgiram as primeiras convulsões, tratamentos variados, internações sucessivas.

Quando tudo, para mim, parecia perdido, fui levado por minha mulher a uma internação em uma clínica especializada em alcoolismo que utilizava os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos na recuperação de seus pacientes. Foi lá que descobri ser alcoolismo uma doença e lá também encontrei os primeiros conselheiros, terapeutas profissionais, dirigindo grupos de discussão de Passos.

Quando voltei de São Paulo, encontrei reações de alegria e espanto entre chefes e colegas, ao verem que eu não bebia mais e retornava sem problemas às minhas atividades médicas. Sem fazer alarde, comecei a frequentar grupos de A.A., sem revelar nos depoimentos qual era minha profissão. Eu tinha sido avisado que isto era desejável, para evitar qualquer tentativa de me transformar em personalidade, já que naquele tempo eram raros os médicos membros de A.A.

Passados alguns meses, no hospital onde eu trabalhava foi aberto um centro de recuperação para alcoólatras, e eu fui designado para chefiar e organizar a equipe de pessoas que trabalhariam nele. Voltei a São Paulo, fiz um treinamento na mesma clínica onde eu havia estado internado e comecei a trabalhar, vestindo agora o segundo chapéu, o de profissional em tratamento de alcoolismo.

Ficou, desde o início, muito claro que não seria bom para meus pacientes, nem para mim, que eu usasse os dois chapéus ao mesmo tempo. Na chefia do centro de recuperação e no exercício do papel que me cabia, o de médico, eu nunca revelei a ninguém ser também pessoalmente um alcoólatra em recuperação e membro de A.A.

Na ocasião me foram muito úteis os vários artigos que Bill W. escreveu sobre a 6ª e 8ª Tradições na revista Grapevine, dizendo ser ótimo que a medicina estivesse se utilizando dos 12 Passos em centros de tratamento e qualquer membro de A.A. estava absolutamente livre para trabalhar neles, desde que se respeitasse a tradição do anonimato. Isto é, desde que ficasse claro não ter a clínica qualquer vínculo com a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

Usar os dois chapéus tem suas dificuldades. Nem sempre consigo evitar que alguns de meus pacientes me chamem de doutor em uma sala de reuniões de A.A. Também não posso impedir que um ou outro coordenador desavisado interrompa a reunião para me pedir que eu esclareça, como médico, a um visitante sobre a doença do alcoolismo. Como sempre sou pego de surpresa, eu brinco dizendo que sofro de dupla personalidade e hoje, infelizmente, a do doutor ficou em casa, sendo assim impossível atender ao pedido. Como regra, quando falo como médico e tenho que colocar minhas opiniões próprias sobre alcoolismo, sinto estar falando da doença dos outros e, por isso, não revelo a circunstância de também ser membro de A.A. Porém, quando estou no grupo, como companheiro, não defendo teses, não dou conselhos profissionais, não julgo ninguém, nem opino sobre a doença do alcoolismo: limito-me a contar minha história e minha vivência do programa de
recuperação. Portanto, a regra é clara: em grupo, eu falo de mim e da minha doença. Como profissional, falo da doença dos outros.

Não se ater fielmente a esta regra traz dois tipos de problemas. Primeiro, pode-se prejudicar o A.A. ferindo pelo menos cinco Tradições, as de número 8 a 12, deixando a platéia confusa sobre nossas verdadeiras finalidades. Segundo, o maior prejudicado pode ser o próprio, que ao assumir o papel de personalidade, para de fazer sua própria recuperação e dedica-se a insuflar seu ego. Já vi diversos médicos em A.A. recaírem, vítimas desta armadilha.

Por outro lado, esta conduta só me trouxe benefícios, já que vem me permitindo compartilhar da humildade, do anonimato e da preocupação com nosso bem estar comum, permitindo, através da mudança de meu comportamento e atitudes, que eu diga para vocês todos: "Hoje, pela Graça de Deus, eu não bebi".
                                           
Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos/Ano 26-Número 2/Março-Abril/2011/Edição nº130