DP - Vá com calma

Um dia por vez, a passo miúdo.

Quando cheguei em Alcoólicos Anônimos não alcancei de imediato o significado das palavras "primeiro as primeiras coisas". E essa atitude acarretou grande sofrimento em meus primeiros dois anos de A.A. Entrei num processo de recaída emocional e permiti que meus nervos ficassem á flor da pele. Passei a ser vista pelos meus companheiros como a "companheira dos repentes", ou seja: uma hora me portava em cabeceira-de-mesa como uma tempestade, avassalando tudo e todos com críticas e palavras duras; outra, me portava como um anjo murmurando palavras piegas e amorosas. Esse conflito íntimo perdurou até o dia em que um bom veterano, de nenhuma leitura por ser analfabeto, mas de muita vivência por saber escutar, passou em cabeceira de mesa uma mensagem que calou fundo em meu coração. Na sua simplicidade esse companheiro me apontou o caminho e percebi que estava sendo muito dura comigo mesma e mais ainda com os outros. E com que direito? Fiz um inventário sobre esses dois anos de abstinência alcoólica e pude verificar que continuava autoritária, intransigente, perfeccionista, rancorosa, crítica e egocêntrica. Desse modo, quem poderia me amar ou compreender, se eu mesma não me amava e nem me compreendia? Quem poderia se aproximar de mim, se eu havia me fechado? Quem me aceitaria, se eu não conseguia aceitar ninguém do jeito que era, pois tinha que ser como eu queria que fosse? Após refletir profundamente sobre essas atitudes, determinei mudar meu comportamento. E, ao fazer essa análise de mim, pude ver também que até no que dizia respeito à minha família, eu estava dificultando as coisas. Meu relacionamento com minhas filhas, minha mãe e meus irmãos era frágil. Minhas atitudes intempestivas conseguiam afastá-los de mim tanto quanto na época em que eu me embriagava. Eu vinha me isolando novamente e esse estado de coisas era extremamente perigoso para minha permanência em A.A. Eu estava a um passo do primeiro gole! Parei e dei uma boa olhada no Terceiro Passo e daí por diante passei a me pôr limites. Em cabeceira-de-mesa falava apenas de mim, das minhas 24 horas, mas com amor e prudência; no que concernia aos outros, limitei-me a ouvir, sem criticar ou torcer o nariz. Quem era eu para mudar alguém? Só tenho a obrigação de mudar a mim! Com isso, comecei a ganhar espaço nos grupos que freqüentava e tornei-me servidora em meu grupo de origem. E mesmo como RSG venho buscando passar as coisas com tolerância e amor, a fim de evitar qualquer constrangimento ou mal-estar entre membros. Aprendi a ouvir com atenção e a ponderar com serenidade. É claro que as coisas não se encaixaram da noite para o dia. Foi a passo miúdo, um dia por vez, pois é muito mais fácil destruir do que reconstruir. Mas valeu a pena. Hoje sou feliz, me sinto amada, respeitada e útil. Vi que problemas existirão sempre e que cabe a mim fazer "uma boa e açucarada limonada com esses limões azedos", pois somente assim poderei viver e deixar viver. Quanto aos problemas e intempéries da vida, é preciso que eu os aceite com tranqüilidade, lembrando sempre que, aquilo que não tem solução, solucionado já está. Lembrei-me de que o sofrimento é opcional, mas que a dor é necessária ao crescimento e desenvolvimento espiritual. Veio-me à mente que, para se sentir o perfume da rosa e a maciez de sua textura, algumas vezes sujeita-se ao incômodo dos espinhos. Mas pela beleza do momento, vale a pena!

 E por que atropelar a ordem das coisas? Vivendo um dia de cada vez, resolvendo um problema por vez, me permito um melhor equilibrio emocional e uma melhor compreensão do que é a vida. E se tenho fé, por que temer? Por que rugir como um leão, quando é tão mais fácil sorrir?! Lembrei-me de uma frase dita por um bom e velho bispo da minha comunidade com o qual fiz o meu Quinto Passo: "Ninguém precisa acender uma lamparina para ver a luz do sol... Tudo é simples e perfeito, nós é que complicamos as coisas..." Hoje sou uma mulher bem resolvida e em paz. Não me apavoro com nada. Caminho colocando um pé após o outro, sem passadas largas, mas comedidas e pensadas. Não me atropelo e nem a ninguém. Mudo o que posso mudar, faço o que posso fazer e o que não posso, aceito como algo que me impulsiona a crescer enquanto pessoa. Estou cultivando a flor da paciência. E essa paz está me fazendo muito bem, pois hoje conheço o valor do sorriso e a emoção do abraço carinhoso e amigo. Confesso que fiquei mais bonita e remoçada. Nem pareço que estou a caminho dos 51 anos. Meu coração é de criança e minha alegria de viver é genuína. E querem saber? Todas essas maravilhas de ensinamentos estão nas literaturas de A.A. e nas experiências dos bons e queridos companheiros. É preciso apenas que tenhamos a boa vontade de escutar com ouvidos de ouvir ou ler com o coração e pôr em prática, todos os dias um pouquinho... Por todas essas coisas sou um ser gratificado e rico de fé, de paz, de esperança e sobretudo de amor, muito amor. Desejo sinceramente que essa experiência possa servir para ajudar alguém. 
Os repentes são perigosos. É preciso estar atento. 
A todos meu carinhoso abraço e o desejo sincero de infinitas e serenas 24 horas! 

(Vivência nº 74)