DP - Vivendo à maneira de A.A.

"O desejo de parar de beber e a luta contra a vontade de beber."    

        Após alguns meses em Alcoólicos Anônimos e mantendo-me abstêmio de bebidas alcoólicas, evitando o 1º gole, um dia de cada vez, questiono o fato de ainda sentir vontade de beber. Será que quando procurei A.A., eu realmente tinha o desejo de parar de beber? - Sim! Mas também, a esperança de um dia poder voltar a beber, assim como o desejo de um dia não sentir mais vontade de beber. Sentia necessidade de parar de beber por haver perdido o controle sobre minha vontade. Analisando agora essa minha vontade, percebo que eu sinto falta muito mais que do prazer pelo sabor da bebida, é do efeito que a bebida alcoólica me proporcionava, como: aliviar a ansiedade, relaxar-me, despreocupar-me, sentir-me alegre, motivado, inspirado, auto-confiante, ter fluência verbal, fazer amigos, me emocionar, abraçar a todos como irmãos, fazer planos para o futuro, apaixonar-me pela vida, superar-me, buscar o êxtase, enfim: estar de bem com a vida. Pensando assim, concluo que beber havia sido bom para mim. Habituara-me, então, a beber todos os dias,  principalmente se as "coisas" não iam bem. Era como um "remédio para todos os males". A bebida alcoólica tornara-se a minha companheira íntima. Surgiu assim a compulsão quando minha tolerância ao álcool aumentou e com ela a quantidade de bebida que eu ingeria; bebidas mais fortes, procurando estar de estômago vazio, tudo em busca do efeito desejado, mas nunca me satisfazia, por mais que eu bebesse. Veio então a DEPENDÊNCIA FÍSICA: meu organismo reclamava a presença do álcool. Para trabalhar, atendendo a pacientes em odontologia, tomava sedativos durante o dia a fim de controlar os tremores e suportar a abstinência do álcool. Devido à minha profissão, o acesso à farmacoterapia e a receituários facilitava a "auto-medicação" e tomava diuréticos para controlar a retenção de líquidos. Antiarrítmicos para controlar os batimentos cardíacos e polivitamínicos para compensar a alimentação irregular.. Enfim, num medo  desesperado, tentava monitorar meu organismo, "movido à álcool, para que não entrasse em pane". Uma dependência psicológica já existia: precisava do álcool mais do que tudo, incluindo família, profissão,  amigos e Deus. Mas já não fazia o efeito desejado, somente o efeito indesejado de estar sempre mal quer tivesse bebido ou não. Tentei controlar-me várias vezes, beber socialmente, como se diz, e descobri não ser capaz. Sentia-me obrigado  a beber mesmo que eu não desejasse. Passei a sentir medo de ficar sem o álcool; medo da vida, do dia, da noite, dos compromissos, das consequências de meus atos. Medo de Deus e de mim mesmo. Parecia que eu iria implodir a qualquer momento. Havia me transformado em um "escravo voluntário do álcool". Não havia mais nenhuma vantagem em beber a não ser pelo prazer mórbido de não sofrer a dor da separação de minha companheira. A busca pelo efeito desejado tornara-se obsessão. O sonho de bem-estar virou um pesadelo de matar. Já não podia mais parar nem seguir adiante. O álcool havia se transformado em meu inimigo íntimo. 
Aqui me pergunto: - Como posso, após tudo que passei, ainda sentir vontade de beber? A resposta só pode ser: insanidade, loucura. Sintomas dessa terrível doença do alcoolismo que em A.A. vim a saber-me portador. Uma doença de origem  física, mental, emocional e espiritual. Incurável, de caráter progressivo e fatal, mas que pode ser detida se eu assim o desejar. Então, o que fazer com essa minha vontade? Procurar VIVER À MANEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS! No programa de recuperação de A.A., nos Doze Passos, encontrei a resposta:"RENDIÇÃO": Admitindo a minha impotência perante o álcool, 1º Passo, acreditando que Deus poderá me devolver à sanidade, 2º Passo, e entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, 3º Passo. Creio que a vontade  de Deus para comigo está expressa providencialmente nos 12 Passos de A.A. Hoje, em recuperação,  acredito estar no caminho certo, em busca da sobriedade desejada que considero ser mais que simplesmente beber ou não beber, e sim, viver bem, à maneira de A.A., livre da escravidão do álcool, trocando a dependência da bebida pela dependência de um Poder Superior a mim mesmo, Deus, através da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Aprendi em A.A. que a porta para uma nova vida se abre apenas pelo lado de dentro e que a chave está ao meu alcance e se chama BOA VONTADE.
        Hoje, pela vontade de Deus, também sinto muita "VONTADE DE VIVER", graças à Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

Revista Vivência 95 - Maio/junho - 2005