DP - Vivendo a vida com as mudanças adquiridas em A.A. > Rv. 158

Sou um alcoólico em recuperação que, pela graça de um Poder Superior, desta Irmandade maravilhosa de Alcoólicos Anônimos, de cada depoimento proferido  por meus irmãos em cabeceira de mesa, reforça seu desejo de viver sua vida de um modo tranquilo, sereno e dedicado a uma transformação profunda, com certeza aquela que foi projetada  por um Poder Superior, de felicidade plena.

                                          Quando vi pela primeira vez
                                         alguma coisa de A.A., não me
                                      tocou, pois nem sabia o que era
                                                 Alcoólicos Anônimos.

Sou técnico instalador em  material de segurança e antenas parabólicas. A história que vou relatar aconteceu há mais ou  menos uns quinze anos e marcou-me pela frase que escutei  de  um  alcoólatra  em  recuperação: "HOJE VIVO A VIDA DO JEITO QUE ELA É." Essa pessoa, três anos  antes  de me dizer esta frase, havia solicitado a manutenção em sua antena parabólica após uma forte chuva de  granizo em nossa cidade. Nessa época, eu era sócio de uma loja em Juiz de Fora e fui  fazer  a  manutenção, já ressabiado, pois sabia  que  se  tratava  de  um  "cachaceiro  arrogante  e  sem  educação" (fui  eu  quem recebeu  o  telefonema  solicitando  o  serviço).  Assim,  fomos,  eu  e  um  ajudante,  ao apartamento desse cidadão.

Chegando  ao  local,  as  cenas  que  vimos  foram   terríveis:  um  apartamento  de  dois quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e varanda, completamente desleixado.
Fomos recebidos pela porta da cozinha por um  homem  aparentando seus 60 e poucos anos, muito debilitado, inchado, falando de maneira difícil de entender, provavelmente com algumas 24 horas afastado do banho - o que lhe dava um  cheiro desagradável que se alastrava por todo o apartamento. Não deixei de notar a pobreza  mobiliária daquele lugar. Notei também que, na pia, existiam umas seis garrafas  vazias  de  conhaque, uns marmitex mexidos e já mofados, alguns copos sujos, uma  mesa  com  duas cadeiras; na sala um sofá bastante surrado, uma televisão com  dois  ou  três anos de uso; no quarto uma cama de casal com um cobertor  revirado; e  o  outro  quarto  estava  com  a  porta fechada. A impressão que tive é que  esse  homem  tinha sido abandonado pela família. Quando dei o  orçamento  do  serviço, pensei  que  seria  agredido. O  homem  pegou  o dinheiro todo amassado no bolso, mostrou  que  podia pagar e mandou que fizéssemos o serviço. O que foi feito com êxito. 

Este  fato  marcou  minha  vida  profissional.  Passaram-se  pouco  mais   de   três   anos, quando  novamente  houve  uma  forte  chuva  de  granizo, e  recebemos  solicitação de manutenção no mesmo endereço. Desta  vez  a  pessoa  que pediu a manutenção foi de uma educação exemplar. Sendo assim, eu e meu ajudante fomos fazer o serviço.

Qual não foi  meu  espanto  quando  fomos  atendidos  na  porta  da cozinha por aquele mesmo homem de alguns anos atrás, totalmente  modificado, não  somente  ele, mas o apartamento era outro. Sua  cozinha  estava  totalmente  aparelhada, mobiliada com os mais  modernos  utensílios, a  sala  também  modificada, com  uma  TV  moderna de 29, jogo de sofá  novinho, mesa  de  centro, cortina, etc. Depois  de  concluídos  os  serviços externos e fazendo os ajustes  finais, pude  perceber, em  cima  da  estante  ao  lado  do receptor da antena parabólica, uma ficha  de  dois  anos  de  sobriedade  em  Alcoólicos Anônimos. Por curiosidade, perguntei àquele homem o  que  era  aquilo: "A.A."? Ele me respondeu que: "aquilo  tinha  salvado  sua  vida"  e  que  A.A.  era  uma  Irmandade  de homens e mulheres que com,partilhavam experiências, forças e  esperanças a fim de se manterem  sóbrios  e  ajudar  a  outras  pessoas  que   tinham   problemas   com  bebida alcoólica. Perguntou  a  mim e  ao  meu  ajudante  se  tínhamos  problema  com  bebida alcoólica?   Como,   naquela    época   eu   já   bebia   descontroladamente,   com   muita arrogância,  respondi   que   não   tínhamos   nenhum   problema,  que   bebíamos,  mas sabíamos a hora de parar. Antes de sairmos, ele nos contou parte de sua história: disse que era militar, que começou a beber muito  cedo  e  que   perdeu  o  controle  quando, num acidente de automóvel, em que estava alcoolizado, foi responsável pela morte  de seus  familiares (esposa e filha), e  desde  então, só  tinha  um  desejo: acabar  com  sua vida.  Mas  não  tinha  coragem   de  chegar  às  vias  de  fato.  Um  dia, depois  de   uma bebedeira descontrolada, ficou caído na rua, e um companheiro de  profissão (também militar)   encaminhou-o   para  o  hospital.  Depois  dos   primeiros   atendimentos, ficou amarrado   em  uma  cama  até  ser  transferido  para  uma  clínica  de  recuperação. Lá, conheceu o programa de Passos de A.A., e sua vida mudou. Ingressou em um Grupo de A.A., e há alguns dias, tinha completado 2 anos  de  sobriedade, passando a viver a vida como ela é!

Porém, um dia, minha vida também mudou: reconheci  ser  impotente perante o álcool e que tinha perdido o domínio da minha vida. Então, rendi-me  e  me  entreguei  a  esta maravilhosa Irmandade que vem salvando muitas vidas, a  minha  e  de  várias  pessoas, inclusive a vida do homem desta história.

Hoje, com algumas 24 horas de sobriedade em  Alcoólicos Anônimos, vivendo  a vida da melhor  maneira  possível,  SÓBRIO,  EVITANDO  O  PRIMEIRO GOLE, ACREDITANDO EM UM   PODER  SUPERIOR,  FAZENDO  AS  REPARAÇÕES  NECESSÁRIAS, TRANSMITINDO  A MENSAGEM   PARA  AQUELE  QUE  SOFRE, ESTANDO  EM  UNIDADE  E  ENVOLVIDO  NO SERVIÇO   DE   A.A.,   sou   muito   feliz   e   reconheço - em  cada  companheiro  que  em cabeceira de mesa conta um pouco da minha história - um herói para seus  familiares  e para sua comunidade. Hoje, procuramos ser  exemplos  nas  nossas  famílias, em nossas comunidades e até nos botecos que frequentávamos.

Não tive oportunidade de me encontrar em, nenhuma reunião  com aquele homem, do qual, por sinal, só me  lembro  de  chamá-lo  de  Sr. José. No  entanto, sei  que  o  Poder Superior o usou para semear em meu coração a semente de A.A. Não sei se ainda mora em JF, se continua participando de reuniões,  se é assinante da Revista Vivência e se ele se reconheceria nesta história.

A todos, serenas e sóbrias 24 horas.

MKirch. JF/MG

Vivência nº 158 - Nov/Dez 2015