Viver Sóbrio__"Desconfiar das oportunidades de beber"

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Já encontramos vários modos de enfrentar ocasiões em que outras pessoas estão bebendo, a fim de podermos desfrutar desses momentos sem tomar um gole.

No capítulo 8, falamos a respeito de conservar bebida alcoólica em casa quando decidimos parar de beber. Nesta discussão, reconhecemos que vivemos numa sociedade em que a maioria das pessoas bebe, e não podemos, realisticamente, esperar que tal fato se altere. Pelo resto de nossas vidas encontraremos ocasiões de beber. As probabilidades são de que diariamente veremos gente bebendo, lugares onde se bebe e dúzias de anúncios insistindo para que bebamos.

Não podemos insular-nos contra todas essas sugestões, e é fútil lamentar o fato. Não temos necessidade nem desejo de privar os outros da bebida. Também verificamos que não precisamos nos privar do prazer de estar com companheiros que bebem. Embora seja razoável passar mais tempo com gente que não beba do que com quem bebe, quando começamos a permanecer sóbrios, não temos nenhum desejo de retirar-nos do mundo para sempre só porque tantas pessoas bebem. Aqueles que não podem comer peixe, nozes, carne de porco ou morangos não se arrastam para dentro das cavernas. Por que, então, o faríamos.

Entramos em bares, restaurantes ou clubes onde se serve bebida?

Sim! Depois de algumas semanas ou meses, quando temos motivo justo para ali estar. Se estivermos apenas passando tempo à espera de amigos, não vamos faze-lo empoleirados num banco de bar, tomando refrigerante. Mas, se temos um encontro social ou de negócio num lugar desses, participaremos de tudo, menos da bebida.


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Durante os primeiros meses de abstenção, é provavelmente melhor afastar-nos de nossas companhias e lugares habituais de bebida, encontrando desculpas razoáveis para faltar a festas onde o grande divertimento seja beber. É especialmente importante manter-nos afastados desses acontecimentos se eles nos deixam nervosos.

Mais cedo ou mais tarde, porém, chega a ocasião em que uma obrigação familiar, um negócio ou uma amizade nos faz sentir no dever de comparecer – ou talvez nós mesmos queiramos ir.

Já cultivamos uma porção de formas de tornar tais ocasiões fáceis de controlar ainda que estejamos na abstenção. Agora falamos, primordialmente, sobre a grande reunião social ou sobre o jantar informal, embora bastante concorrido, regado a bebida. Se o anfitrião ou anfitriã é um velho amigo com quem podemos falar francamente, ajuda muito lhe dizer antecipadamente que não estamos bebendo no momento. Naturalmente, não pedimos tratamento especial. Mas é confortador saber que haverá pelo menos uma pessoa presente que é totalmente compreensiva com nossos esforços para superar um problema de bebida. Às vezes; podemos levar conosco um não-bebedor mais experiente ou, pelo menos, um companheiro que sabe que não estamos bebendo e compreende o quanto isso é importante.

É também benéfico antes de ir, conversar com outro alcoólico recuperado ou com alguém que o apóia, que está torcendo por sua recuperação e compreende inteiramente a pressão que você vai suportar. Dê um jeito de telefonar depois para contar como se saiu. Tal chamada seria um grande prazer para outro alcoólico recuperado. Pode crer! Nós do A.A. vibramos com um alô desses.

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É aconselhável comer um sanduíche ou outro tipo de lanche antes de ir para uma festa, mesmo sabendo que haverá comida mais tarde. Ter algo no estômago , como já dissemos, diminui bastante o peso de situações difíceis em relação à bebida. (Além disso, você poderá levar suas balas de hortelã ou um substituto dietético). Isso ainda se torna mais importante quando você se dirige a uma festa na qual provavelmente se passarão horas de continua libação antes de servirem a comida.

Quando você antecipadamente conhece o programa, poderá deixar passar àquela hora ou mais de exclusiva libação e chegar pouco antes de ser posta a mesa. Muitos de nós fazemos isso. Depois, se a bebida vai continuar pela noite adentro após o jantar, achamos melhor retirar-nos cedo. Os poucos que notam a nossa retirada – descobrimos – dificilmente se preocupam com nossa saída. Estão ocupados demais a beber ou com outras coisas.

Chegando a tais festas, normalmente é melhor dirigir-se direto ao bar e pegar um copo de soda ou outro refrigerante. Ninguém vai saber se é bebida alcoólica ou não. E, assim, podemos circular fazendo nossos contatos sociais, com um copo na mão, sem sentir-nos deslocados.

Tal experiência foi bastante reveladora para muitos de nós, a princípio. Para surpresa nossa, descobrimos que (1) a bebida dos outros não era o que pensávamos e (2) pouquíssimas pessoas reparam ou se importam se bebemos bebidas alcoólicas ou não. (Algumas exceções do segundo fato são provavelmente nossos amigos ou parentes queridos que, em geral, se alegram de nos ver fazer algo em relação à nossa bebida). *

Muitos de nós costumávamos dizer e acreditar que “todo mundo” bebe e argumentávamos que não bebíamos mais do que outros bebedores conhecidos. Para falar a verdade, à medida que continuávamos a beber através dos anos, muitos de nós tendemos a evitar cada vez mais a companhia dos não-bebedores e assim, naturalmente, parecia que “todo mundo” – certamente ‘todo mundo’, que encontrávamos – bebia.

Agora, sóbrios, é uma revelação ver “todo mundo” e verificar que nem todos realmente bebem, sendo que muitos outros bebem muito menos do que supúnhamos.

Prevendo situações assim, o alcoólico recém-sóbrio quer saber o que responder se parentes ou amigos que bebem disserem coisas como:

“Venha tomar um aperitivo”
“O que você está bebendo?”.
“Que é isso? Você não pode ser alcoólico!”.
“Você não bebe?”
“Por que não está bebendo?... e coisas semelhantes”.

Para alívio nosso, verificamos que tais perguntas surgem com muito menor freqüência do que esperávamos, e nossas respostas parecem ter importância muito mais relativa do que julgávamos que teriam. Nossa abstenção causa menos sensação do que temíamos. *

Há uma exceção. De vez em quando, um bebedor realmente “da pesada” poderá tornar-se bastante insistente a respeito de nossa abstenção. A maioria de nós veio a acreditar que tal atitude é muito suspeita. Gente educada e civilizada simplesmente não interfere tanto no que os outros escolhem para beber e comer ou não beber e não comer, a menos que esteja presa a uma dependência muito forte. Achamos curioso que alguém tente levar uma pessoa que não goste de beber a faze-lo. E, de modo especial, nos admiramos que alguém deseje que uma pessoa que teve problema com a bebida no passado tente beber novamente.

Aprendemos a manter-nos afastados de tais pessoas. Se elas, realmente, têm suas próprias compulsões com que lutar, desejamos-lhes o melhor possível. Mas não precisamos defender nossas escolhas frente a elas e a ninguém. Nem discutimos com elas nem tentamos faze-las mudar de opinião. Novamente, nossa atitude é: “Viver e Deixar Viver”.

Mas voltemos àquelas perguntas feitas, polida e casualmente, por amigos e parentes bem intencionados e às nossas respostas. Há, provavelmente, tantas maneiras de enfrentar tais situações quantos não-bebedores existem, e a sua própria inteligência o guiará à que melhor funciona e que é mais fácil para você.

Contudo, dos cinqüenta anos de experiência acumulada de Alcoólicos Anônimos surgiram os esboços de vários métodos bem sucedidos. O passado fez seu propósito de sabedoria, e é absurdo não se valer dele.

Grande número de nós (mas não todos) acreditamos que, quanto mais cedo estabelecermos a verdade com nossos conhecidos, melhor para nós. Não temos de arranjar pretextos, e a maioria das pessoas de bem reconhecem a nossa honestidade e encorajam nossos esforços para livrar-nos de nossa dependência. Dizer em voz alta a outras pessoas que não bebemos ajuda muito a fortalecer nossa determinação de permanecer sóbrios. E ainda há mais um subproduto. Ocasionalmente, verificamos que fazer tal declaração encoraja outra pessoa presente que também tem necessidade e desejo de não beber. *

Por isso, muitos de nós não hesitamos em dizer, quando é oportuno: “Não estou bebendo agora”. “Não estou bebendo hoje (ou nesta semana).” Ou simplesmente: “Não, obrigado!” ou um sincero: “Não quero nada.” Freqüentemente, uma dessas saídas satisfaz a quem pergunta.

Se sentimos necessidade de explicar melhor, tentamos faze-lo sem mentir e de uma forma que as pessoas possam compreender e aceitar rapidamente. Por exemplo, há velhos recursos infalíveis como “razões de saúde”, “estou em regime” e “recomendações do médico”. A maioria de nós, numa outra ocasião, já ouviu ou leu esta recomendação médica.

“Já bebi a minha cota”, “já bebi todo que pude” e “vi que não serve para mim” são verdades também.

Embora nós do A.A. não usemos entre nós a expressão “lei seca”, ela é bem compreendida e respeitada pela maioria das pessoas, desde que não insistamos com os outros para não beberem também.

Ainda que de modo nenhum recomendemos faltar à verdade (pelo que isso nos faz sentir), vez por outra alguns de nós, em desespero, temos recorrido à mentira inocente, do tipo geralmente descrito como necessário em certas relações sociais.

Quando precisamos recorrer a desculpas murmuradas e elaboradas para não beber, tentamos conseguir uma que não seja muito forçada. “Estou com uma doença estranha” ou “estou tomando remédio” poderia fazer calar as pessoas, mas provavelmente, porém, provocaria novas perguntas.

Em geral, um “sou alérgico” parece aceitável. Tecnicamente, em estrito sentido científico, o alcoolismo não é verdadeiramente uma alergia, assim nos informam, agora, os especialistas. Contudo, “alergia” é uma boa figura de linguagem para descrever nossa condição; se bebermos a coisa, lamentáveis conseqüências, na certa, se seguirão.

Quando fazemos tal declaração, ela geralmente produz areação desejada. Isto é, as pessoas aceitam o fato de que não vamos beber e param de fazer perguntas. *


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Quando querem saber o que vamos beber, parece delicado e sensato pedir e aceitar prontamente qualquer coisa não-alcoólica seja ou não a nossa bebida preferida. A maioria de nós toma qualquer refrigerante, suco de fruta ou outra bebida não-tóxica que esteja à mão (fingimos toma-la se não gostamos dela ou se não estivermos com sede). Isso nos coloca mais à vontade e alivia o anfitrião (ou anfitriã) hospitaleiro, que é um emérito enchedor de copos e parece genuinamente contrariado quando um convidado não está bebendo.

O banquete formal, com um conjunto de copos de vinho, não constitui problema especial. Virar o copo de boca para baixo é um sinal suficiente para um bom garçom, mesmo nos paises da Europa, onde o vinho é hábito.

Alguns de nós pedem soda ou uma água mineral efervescente. E, quando se propõe um brinde, quase ninguém nos presta atenção, desde que ergamos um copo com qualquer coisa dentro. Afinal, não é o simbólico gesto de amizade que torna o brinde real e não a presença de uma droga (álcool etílico) num copo ou numa taça?

Ninguém é obrigado a responder perguntas grosseiras ou pessoais. Assim sendo, quando raramente surge uma, nós a ignoramos, disfarçamos ou mudamos de assunto. Se isso acontecer com você, lembre-se de que há centenas de milhares de nós recuperados do alcoolismo que estamos de seu lado e compreendemos perfeitamente o que você está passando e porque o faz, mesmo que ninguém mais pareça entender.

Mesmo que não estejamos presentes, nossos corações estão com você; pode estar certo de que conta com os nossos melhores votos.

Outro tipo de incidente já tem acontecido a alguns de nós. Não é especialmente sério ou perigoso, mas pode ser que falar sobre ele ajude a evitar o aborrecimento, caso ele surja em sua vida. De vez em quando, um amigo ou familiar bondoso e bem intencionado inadvertidamente exagera seu interesse por nossa recuperação e, querendo só ajudar, pode-nos causar um embaraço se não tivermos o equilíbrio suficiente para contornar essa situação.

Por exemplo, o conjugue não-alcoólico, compreensivelmente temeroso de que possamos voltar a beber e esforçando-se por proteger-nos, impensadamente diz: “Fulano parou de beber”.Ou um amigo solicito poderá, irrefletidamente, chamar atenção para nossa abstenção, apontando para um copo de suco na bandeja de bebida e dizendo: “Essa é para você.”

É muita bondade deles quererem ajudar-nos, e nós tentamos reconhecer seu desejo de serem bondosos. Com toda justiça, não se pode esperar que eles compreendam imediatamente como nos sentimos. Alguns de nós não podemos nem mesmo distinguir como nos sentimos verdadeiramente até termos passado algum tempo sem beber e ultrapassado a fase do constrangimento.

Naturalmente, preferimos que nos deixem fazer nossas próprias escolhas, discreta e particularmente, sem exibição pública. Mas ficar ressentido com o que os outros dizem ou fazem só fere a nós mesmos. É melhor tentar sorrir e agüentar firme, deixando a coisa passar de qualquer modo. Em cinco minutos, tudo terá passado. Talvez mais tarde, quando nos sentirmos tranqüilos, possamos explicar calmamente que nós, genuinamente, apreciamos o interesse, mas nos sentiríamos melhor se nos deixassem dar nossas próprias “desculpas”. Poderíamos acrescentar que gostaríamos de praticar nossa autoproteção em reuniões sociais, de modo que o outro não precisa preocupar-se quando estamos por nossa conta. *

Depois de passado bastante tempo, muitos de nós atingimos um estado de bem-estar com relação a nós mesmos e à bebida; sentimo-nos bastante tranqüilos para contar a verdade – que somos alcoólicos recuperados e que estamos no A.A.

Esta revelação confidencial, face a face, sobre nós, de modo algum conflita com a tradição de anonimato do A.A., a qual sugere que não revelemos esses fatos sobre ninguém, exceto nós mesmos, e que não façamos tais declarações para jornais, rádios ou tvs.

Poder falar disso, com naturalidade, a nosso respeito mostra que nada temos a esconder e que não nos envergonhamos de estar em recuperação de uma doença. Ajuda a aumentar nosso auto-respeito. Tais declarações reduzem o velho e cruel estigma injustamente colocado nas vitimas de nossa enfermidade por pessoas ignorantes e ajudam a substituir as noções antigas e estereotipadas de “alcoólico” por percepções mais acuradas.

A propósito, tal declaração muitíssimas vezes convence outra pessoa que quer superar um problema de bebida a tentar, também, a busca de ajuda.

Só mais uma coisa sobre este assunto de ocasiões de beber. Muitos de nós, quando a pressão para um trago se torna desagradavelmente forte, já tiveram a coragem de desculpar-se e retirar-se, não importa o que os outros possam pensar. Afinal de contas, está em jogo a nossa vida. Temos de dar quaisquer passos necessários para preservar nossa saúde. A reação das outras pessoas é problema delas, não nosso. 
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EGUEU