Viver Sóbrio__"Combater a solidão"

COMBATER A SOLIDÃO (cont.)

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A frágil concha do egocentrismo protetor e amedrontado em que nos encerráramos por tanto tempo é aberta pela força da honestidade de outros alcoólicos recuperados. Sentimos, quase antes de poder exprimi-lo, que fazemos parte de algum lugar, e a solidão começa rapidamente a desaparecer.

Alívio é uma palavra muito pobre para definir nossa sensação inicial. Há um misto de assombro, também, e uma espécie de quase-terror. Será real? Será que isto vai durar?

Aqueles de nós, sóbrios no A.A. há alguns anos, podemos assegurar a qualquer novato que é real, real ao extremo. E dura de fato. Já não é mais uma saída em falso, daquelas que a maioria de nós experimentou tão freqüentemente. Não é mais apenas uma explosão de alegria, seguida, logo após, de dolorosa decepção.

Ao contrário, enquanto o número de pessoas sóbrias no A.A., desde décadas até hoje, cresce a cada ano, vemos diante dos olhos cada vez mais provas de que podemos ter uma recuperação genuína e duradoura da solidão provocada pelo álcool.

Mesmo assim, superar hábitos de suspeita e outros mecanismos de defesa profundamente enraizados através de anos dificilmente pode ser um processo imediato. Tornamo-nos inteiramente condicionados a nos sentir e agir como mal compreendidos e desamados, quer realmente sejamos ou não. Estamos habituados a proceder como solitários. De modo que, logo depois de parar de beber, poderemos precisar de tempo e de um pouco de prática para romper nossa costumeira solidão. Mesmo que comecemos a acreditar que não estamos mais sozinhos, às vezes agimos e sentimos como se ainda estivéssemos.

Somos inexperientes na busca de amizade e mesmo na aceitação da que nos é oferecida. Não estamos seguros de como faze-lo ou se dará certo. E aquela superpesada carga acumulada em anos de medo ainda pode alongar-se sobre nós. Portanto, quando começamos a nos sentir um pouco solitários – quer estejamos materialmente sozinhos ou não -, os velhos hábitos e o bálsamo da bebida podem facilmente seduzir-nos.

De vez em quando, alguns de nós somos tentados até a desistir e retornar à velha desgraça. Pelo menos ela nos é familiar, e não teríamos de lutar para readquirir a competência que conseguimos na nossa vida de bebida.

Falando um pouco de A.A. sobre si mesmo, um companheiro, certa vez, disse que sua vida de bêbado – da adolescência aos quarenta – ocupara integralmente seu tempo. Não conheceu, assim, as coisas que a maioria dos homens geralmente aprende enquanto se torna adulto.

De modo que, disse ele, ali estava, na casa dos quarenta, sóbrio. Sabia beber e discutir, porém, jamais tinha aprendido uma habilidade vocacional ou profissional e era totalmente ignorante do convívio social. “Foi horroroso”, declarou. “Eu não sabia nem marcar um encontro com uma garota nem o que fazer numa situação dessas! Verifiquei que não existem aulas sobre como marcar um encontro para solteiros de 40 anos que nunca aprenderam”.

O riso na sala de reunião de A.A., naquela noite, foi verdadeiramente franco e afetuoso. E, assim, muitos se identificaram: tinham passado pelo mesmo.

Quando sentimos tal embaraço, deslocados aos 40 (ou mesmo aos 20, hoje em dia), podíamos pensar que éramos patéticos, até grotescos, não fossem as inúmeras salas cheias de compreensivos membros de A.A. que conheceram aquele mesmo tipo de medo e podem ajudar-nos a sentir o humor da coisa. Desse modo, podemos sorrir, enquanto tentamos outra vez até acertar. Não precisamos mais desistir por uma vergonha velada. Não precisamos repetir nossas e desesperadas tentativas de encontrar segurança social na garrafa e, ao contrário, só encontrar solidão.

Isso é apenas um exemplo extremo da espécie de sentimento avassalador que se apodera de alguns de nós ao velejar para a sobriedade.

Ilustra como podíamos ficar perigosamente perdidos se o tentássemos sozinhos. Haveria uma chance, em milhões, de podermos realizar a jornada.A


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Embora alguns fôssemos ébrios solitários, mal podemos dizer que nos faltou companhia naquela época. As pessoas nos rodeavam. Nós as víamos, ouvíamos e tocávamos. Contudo, a maior parte de nossos importantes diálogos eram completamente interiores, mantidos conosco mesmos. Tínhamos certeza de que ninguém mais nos entendia. Além disso, considerando a própria opinião a nosso respeito, não estávamos certos que queríamos que alguém nos compreendesse.

Não admira então, que ficávamos aturdidos quando, pela primeira vez, ouvimos alcoólicos recuperados no A.A. falarem livre e honestamente sobre si. Suas histórias, seus próprios temores secretos e a sua solidão atingiram-nos como um raio.

Descobrimos – porém mal podemos acreditar direito no começo – que não estamos sós. Não somos totalmente diferentes de todo mundo, afinal.
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A frágil concha do egocentrismo protetor e amedrontado em que nos encerráramos por tanto tempo é aberta pela força da honestidade de outros alcoólicos recuperados. Sentimos, quase antes de poder exprimi-lo, que fazemos parte de algum lugar, e a solidão começa rapidamente a desaparecer.

Alívio é uma palavra muito pobre para definir nossa sensação inicial. Há um misto de assombro, também, e uma espécie de quase-terror. Será real? Será que isto vai durar?

Aqueles de nós, sóbrios no A.A. há alguns anos, podemos assegurar a qualquer novato que é real, real ao extremo. E dura de fato. Já não é mais uma saída em falso, daquelas que a maioria de nós experimentou tão freqüentemente. Não é mais apenas uma explosão de alegria, seguida, logo após, de dolorosa decepção.