Viver Sóbrio__"Vá com calma"

18    “VÁ COM CALMA”

Acabou de ler neste minuto o capítulo anterior e já vai começando este? Por que? É preciso que você precise pôr em prática o lema “Vá com calma”.

Como alcoólicos freqüentemente tendíamos a entornar nossa bebida mais depressa do que as outras pessoas. E é muito provável que não deixássemos a última gota no fundo do copo ou os últimos goles no fundo da garrafa.

Muitos de nós achamos graça de nossa aparente incapacidade, mesmo depois de muitos anos de sobriedade, de afastar-nos de uma xícara de café ou de um copo de refrigerante pela metade. Às vezes nos surpreendemos a engolir a última gota de uma bebida não-alcoólica, como se...

Talvez a maioria dos leitores já tenha percebido a questão: nem sempre é fácil, para nós, interromper a leitura de uma página, capítulo ou livro. Parece haver quase uma compulsão de prosseguir até o fim, em vez de ler apenas uma página, um ou dois capítulos em cada dia e deixar o resto para outra ocasião. Não que esta tendência seja inteiramente má. Na superação de uma obsessão ta destruidora como a bebida, é sensato substituí-la por uma outra benigna, como a compulsão de procurar cada vez mais conhecimento e ajuda para o problema da bebida.

Sendo assim, continue lendo, se quiser. É muito mais saudável do que beber.

Mas, quando você chegar ao fim deste capítulo, pode querer experimentar alguma coisa. Ponha este livro de lado e faça a revisão do seu dia. Veja quantas vezes você podia ter reduzido um pouco o seu ritmo ou tornado as coisas mais fáceis, se tivesse pensado.

O lema “Vá com Calma” é uma maneira pela qual nós, membros de A.A., lembramos uns aos outros que muitos de nós, às vezes, temos a tendência de exagerar as coisas, de irmos precipitadamente, impacientes com qualquer coisa que nos retarde. Achamos difícil repousar e curtir a vida.
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Quando um de nós está apresado demais para fazer alguma coisa ou para ir a algum lugar, um amigo poderá, gentilmente, chamar-nos a atenção: Vá com calma! não é? Aí, muitas vezes, ocorre um ímpeto de irritação com quem nos advertiu. E isso indica que a advertência deve ter atingido o ponto, não era o caso de dizer?

Sim, já sabemos que a impaciência, hoje em dia, não está restrita aos alcoólicos de modo nenhum. À medida que a mudança de nossa civilização se acelera, cada vez mais gente se sente pressionada pelo tempo e compelida a acompanhar... O que? Quem?

Tal pressão não empurra a maioria dos bebedores para o alcoolismo, como todos podem ver. Somente pequena porcentagem de bebedores contrai o nosso problema. Mas, os que o fizeram, muitas vezes verificam que partilhamos de uma necessidade de aprender a descontrair, de regular nosso ritmo de vida de modo saudável, de desfrutar dos pequenos ganhos e até os pequenos prazeres ao longo do caminho – em suma, de apreciar a viagem em vez de nos aborrecermos até chegar o nosso destino. O horizonte está ali. Às vezes, vale a pena parar e contempla-lo só pelo prazer de olhar demoradamente.

Alguns de nós com freqüência verificamos, também, que nos servimos de bocados grandes demais até para um hipopótamo mastigar. Continuamos a assumir mais obrigações do que é possível a uma pessoa dar conta.

Provavelmente, poderíamos aprender muito sobre isto com certos pacientes cardíacos recuperados. Muitos deles conseguem manter-se vigorosa e produtivamente ativos de uma forma ponderada que evita a preocupação, a exaustão e a frenética escravidão do relógio.

Alguns de nós traçamos planos que ajudam a manter os objetivos realisticamente dentro do domínio possível. Podemos fazer uma lista das coisas que gostaríamos de concluir hoje; depois, deliberadamente, eliminar a metade ou mais. Outro dia, outra lista.

Ou, intencionalmente, planejamos coisas bastante antecipadas, ensinando-nos a esquece-las, com a mesma deliberação, até o devido tempo.

Outros acham que listas e planos podem tornar-se tiranos, forçando-nos a terminar cada item, não importa quanto tempo e esforço requeiram. Assim, prometemos deixar de lado as listas, por enquanto. Sem a supressão ditatorial, podemos mover-nos num ritmo mais espontâneo e confortável.
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Para muitos de nós, sentar-se tranqüilamente, a sós, durante 15 ou 20 minutos, antes de iniciar as atividades de cada dia, ajuda a começa-las num estado de espírito calmo e ordenado. Alguns de nós empregam métodos específicos de oração e meditação especialmente apropriados para este fim. E talvez, diversas vezes durante um dia agitado, consigamos sentar-nos serenos com os olhos fechados, numa pausa de 5 minutos, e depois retomamos o trabalho reanimados.

Para alguns de nós é mais fácil reduzir o ritmo se tiver o auxílio de outra pessoa. Podemos ser incapazes de criar nossa própria paz, mas, às vezes, podemos sentar calmamente e escutar um amigo que já tenha conseguido certa dose de serenidade. Prestar toda a atenção na outra pessoa ajuda a restaurar nosso equilíbrio e nos dá nova perspectiva de vida, verificando que não precisa ser uma desabalada carreira.

Reuniões mais formais e convencionais em que haja paz e sossego na companhia de outros (tais como serviços religiosos, retiros e similares) são especialmente compensadoras para certas pessoas.

Ou podemos simplesmente decidir começar o dia mais cedo do que costumamos, a fim de nos movermos com menos pressa. Com um pouco de reflexão poderemos planejar horários pessoais menos apertados, mais flexíveis e, conseqüentemente, menos penosos e irritantes.

Quando nos encontramos tensos e mesmo atarantados, podemos perguntar-nos, de vez em quando: “Sou tão indispensável assim?” ou “Esta pressa é realmente necessária?” Que alívio verificar que a resposta honesta, freqüentemente, é não! E tais expedientes realmente servem, afinal de contas, não só para ajudar-nos a superar o nosso problema de bebida e suas velhas manifestações, mas também nos capacitam a tornar-nos muito mais produtivos porque conservamos e canalizamos melhor a nossa energia. Dispomos as prioridades com mais sensatez. Aprendemos que muitas questões anteriormente julgadas vitais podem ser eliminadas se forem refletidamente reexaminadas. “Que importância tem realmente isso?” é uma pergunta muito boa.
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É claro que “Vá com Calma” não nos dá licença para procrastinar ou atrasar-nos em nossos compromissos. Há coisas que não devem ser adiadas até amanhã (e amanhã e amanhã), tais como parar de beber. Mas há outras que é melhor deixar para além destas 24 horas, para serem atacadas quando estivermos mais bem preparados para nos ocupar delas.

Certa vez, uma alcoólica doente e agitada telefonou a um escritório de A.A. e disse que precisava de socorro imediato. Perguntaram-lhe se poderia agüentar 20 ou 30 minutos até a chegada de alguém.

“Oh, não!” disse ela. “Meu médico me disse que eu precisava de auxílio urgente, imediato e não há um momento a perder”.

Depois prosseguiu: “E isso foi anteontem!”.

Qualquer pessoa naquela situação lamentável merece a nossa inteira compaixão. Sabemos de sobra como é duro. Dentro de uma hora ela obteve a ajuda solicitada e, hoje, conta sua história como um exemplo daquilo que ela era. È quase incrível vê-la, nos dias de hoje, tão serena, ainda que tão vigorosa tão calma e, contudo, tão ativa.

Se lhe parece desejável um núcleo interior de paz, paciência e contentamento, você o poderá conseguir.

Lembre-se, de vez em quando, de que o “Vá com Calma” é a velocidade ideal de hoje. A mudança pode começar agora mesmo, lembra-se?