Viver Sóbrio__"Manter-se livre de envolvimentos emocionais"

24    MANTER-SE LIVRE DE ENVOLVIMENTOS EMOCIONAIS

Apaixonar-se por seu médico ou pela enfermeira, por um companheiro ou companheira de internação é uma antiga história romântica. Os alcoólicos recuperados são suscetíveis à mesma febre. De fato, o alcoolismo não parece conferir imunidade contra qualquer condição humana conhecida.

“No coração impetuoso nasce a mágoa”, diz um velho ditado. Outros desgostos, também, inclusive uma bebedeira.

Nos velhos tempos da garrafa e do copo, muitos de nós gastamos uma porção de tempo preocupados com ligações pessoais íntimas. Quer desejássemos ligações temporárias quer um “relacionamento significativo” duradouro, estávamos sempre preocupados com nosso profundo envolvimento – ou não envolvimento – com outras pessoas.

Muitos de nós culpávamos a bebida pela falta de afeto, constantemente nos víamos à procura de amor, enquanto vagueávamos dos bares para as festas. Outros de nós aparentemente tinham os laços emocionais de que precisávamos ou que desejávamos e bebíamos do mesmo jeito. Em ambos os casos, o álcool, decerto, não desenvolveu a nossa compreensão do amor amadurecido nem a nossa capacidade de penetra-lo e emprega-lo se o tivéssemos encontrado. Pelo contrário, nossas vidas inebriadas deixaram nosso eu afetivo comprimido, arranhado, encurvado e contundido, quando não firmemente distorcido.
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Desse modo, como mostra nossa experiência, os primeiros dias de abstenção são, provavelmente, período de grande vulnerabilidade emocional. É isso um efeito farmacológico prolongado da bebida? É um estado natural para qualquer pessoa que se está recuperando de uma doença grave e longa? Ou indica uma profunda falha na personalidade? A resposta não importa em princípio. Qualquer que seja a causa, é uma condição com a qual devemos ter cuidado, porque pode levar-nos a beber mais depressa do que possamos ver, refletir ou sentir.

Já vimos acontecerem tais recaídas de diversas maneiras. No alívio e na alegria inicial da recuperação, podemos acender grandes paixões por novas pessoas encontradas, tanto no A.A. como fora dele, especialmente se elas demonstram autêntico interesse por nós ou parecem olhar-nos com admiração. O irrefletido arrebatamento que isso provoca pode tornar-nos suscetíveis à bebida.

Também pode ocorrer um fenômeno emocional contrário. Podemos parecer tão entorpecidos que somos quase imunes à afeição por certo tempo depois de pararmos de beber (os médicos dizem que é comum as pessoas não terem interesse em sexo ou muito capacidade sexual durante meses após largarem a bebida – mas esse problema se resolve maravilhosamente com a volta da saúde. Nós o sabemos!). Até termos certeza de que esse torpor passará, voltar a beber parece um “remédio” excelente, que nos leva a sofrimentos ainda piores.
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Nosso abalado estado emocional igualmente afeta nossos sentimentos em relação a velhos amigos e à família. Para muitos de nós, esses relacionamentos parecem corrigir-se rapidamente, enquanto prosseguimos em recuperação. Para outros sucede um período de sensibilidade no lar. Agora que estamos sóbrios, temos de distinguir bem como realmente nos sentimos em relação ao conjugue, aos filhos, aos irmãos, aos pais, aos vizinhos, e, então, reexaminar nosso comportamento. Os colegas, os fregueses, os empregados e empregadores também exigem essa atenção.

(Com freqüência, nossa maneira de beber exerceu severo impacto emocional nas pessoas mais próximas de nós, e elas, também, podem precisar de ajuda para recuperar-se. Poderão recorrer aos Grupos Familiares Al-Anon e ao Alateen. Embora essas irmandades não sejam oficialmente ligadas ao A.A., são semelhantes e ajudam os familiares e amigos a viverem melhor, com melhor conhecimento sobre nós e nossa condição.).

Através dos anos ficamos fortemente convencidos de que não se deve tomar quase nenhuma decisão importante no início de nossa sobriedade, a menos que não possa, absolutamente, ser adiada. Esta precaução aplica-se especialmente a decisões a respeito de pessoas, decisões de elevado potencial emocional. Em primeiro lugar, as semanas vacilantes de sobriedade não são oportunas para enfronhar-se em grandes mudanças de vida.
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Outra precaução: ligar nossa sobriedade em alguém de quem dependemos emocionalmente revela-se categoricamente desastroso. “Deixarei de beber se fulano fizer isso ou aquilo” coloca uma condição doentia em nossa recuperação. Devemos ficar sóbrios por nós mesmos, não importa o que os outros façam ou deixem de fazer.

Devemos lembrar, ainda, que a aversão intensa é, também, uma complicação, muitas vezes o lado negativo de um amor passado. Precisamos moderar qualquer sentimento exagerado para que não nos lance de volta à bebida.

É fácil julgar uma exceção desta generalização. Sóbrio há pouco, você pode acreditar seriamente haver, afinal, encontrado o verdadeiro amor ou que sua atual atitude de antagonismo persistente, mesmo após a sobriedade, significa que sempre houve algo fundamentalmente errado nesse relacionamento. Em ambos os casos, você talvez tenha razão, mas, neste momento, é mais sensato esperar para ver se sua atitude mudará.

Repetidas vezes temos visto tais sentimentos mudarem em apenas alguns meses de sobriedade. E assim, utilizando-nos do “Primeiro as Coisas Primeiras”, achamos valioso concentrarmo-nos, a princípio, só na sobriedade, conservando-nos livres de quaisquer arriscados envolvimentos emocionais.

Ligações imaturas ou prematuras são prejudiciais à recuperação. Somente após termos tido tempo de crescer um pouco além da mera abstenção, estaremos aparelhados para relacionarmo-nos maduramente com outras pessoas.

Quando a nossa sobriedade basear-se em alicerce bastante firme para resistir à tensão, então estaremos prontos para acionar e endireitar os outros aspectos de nossas vidas.