Viver Sóbrio__"Abandonar as velhas ideias"

27__ABANDONAR AS VELHAS IDÉIAS

As idéias que impregnaram tão profundamente nossas vidas quando bebíamos não desaparecem todas de repente, como por um passe de mágica, no momento em que começamos a manter a garrafa arrolhada. Os dias de vinho e “luar e caminho” passaram, mas a doença subsiste.

Por isso, achamos importante podar muitas idéias velhas que começam a brotar de novo. E brotam seguidamente.

O que tentamos conseguir é uma sensação de tranqüilidade e libertação das cadeias de nossa velha maneira de pensar. Muitos de nossos antigos hábitos de pensamento e as idéias que eles produzem limitam a nossa liberdade. Só nos acrescentam peso e de nada nos servem – é o que constatamos quando os vemos sob nova visão. Não precisamos mais apegar-nos a eles, a menos que, depois de bem examinados, se mostrem válidos e ainda realmente proveitosos.

Podemos, agora, avaliar a real utilidade e a veracidade de um pensamento por um padrão altamente específico. Podemos dizer para nós mesmos: “Ora, era exatamente, assim que eu pensava quando bebia. Essa espécie de raciocínio ajuda-me a permanecer sóbrio? Serve ainda para mim hoje?”.

Muitas de nossas antigas idéias – especialmente aquelas sobre o álcool, sobre a bebida, sobre a embriaguez e sobre o alcoolismo (ou problema de bebida, se preferir esse termo) – revelam-se ou inúteis ou realmente autodestrutivas para nós, bastem para ilustrar nossa disposição de lançar fora nossas velhas idéias inúteis. *

Para muitos de nós, na adolescência, beber era uma forma de provar que não éramos mais crianças ou que éramos machos ou sofisticados e experientes ou bastantes duros para enfrentar os pais e outras autoridades. Em muitos cérebros, beber está intimamente associado com romance, sexo e música ou com o sucesso nos negócios, o esnobismo de conhecer vinhos e o luxo da alta roda. Se alguma coisa se ensina nas escolas sobre a bebida, é com freqüência sobre os perigos para a saúde ou a probabilidade de perder a carta de motorista – pouco mais que isso. E muitas pessoas ainda estão convencidas de que beber, de qualquer forma, é imoral, leva direto ao crime, ao sofrimento, à desgraça e à morte. Quaisquer que tenham sido nossos sentimentos com relação à bebida, positivos ou negativos, quase sempre eram intensos e mais emocionais do que racionais.

Ou nossas atitudes para com a bebida podem ter sido meramente automáticas, uma irrefletida aceitação das opiniões de outras pessoas. Para muitos, beber é uma parte essencial das atividades sociais, um passatempo social inofensivo realizado em certos lugares, entre amigos, e em horários específicos. Outros vêem a bebida como um acompanhamento necessário da comida. Mas agora nos perguntamos: “É, de fato, impossível desfrutar da amizade ou do alimento sem beber? Nossa maneira de beber melhorou nossas relações sociais? Aumentou nossa apreciação da boa comida?”.

A idéia de embebedar-se produz reações ainda mais extremas, a favor e contra. Ficar bêbado, provavelmente é visto apenas como engraçado ou somente vergonhoso. A própria idéia repugna a muitas pessoas por diversas razões. Para alguns de nós era um estado desejável não só porque era o que os outros esperavam de nós e nós gostávamos desse sentimento, mas também porque era uma condição que glamorosas celebridades não levavam a sério. Certas pessoas são intolerantes com quem jamais se embriagou. Outras desdenham de quem fica bêbado demais. As pesquisas de saúde atuais até agora pouco influíram em tais atitudes.

Quando começamos a ouvir a palavra “alcoólico”, a maioria de nós a associou exclusivamente com os velhos maltrapilhos, sujos, trêmulos e de aspecto desagradável que encontrávamos nas sarjetas. As pessoas bem informadas atualmente estão conscientes de que tal conceito é pura tolice.

Contudo, um resíduo de nossas velhas e obscuras noções apegou-se a nós durante as primeiras tentativas de sobriedade. Turvou nossa vista e nos impediu de enxergar a verdade. Mas, finalmente, nos dispusemos a aceitar a idéia de que – possivelmente – algumas dessas noções podiam ser um pouquinho errôneas ou pelo menos já não refletiam precisamente a nossa experiência pessoal.

Quando fomos capazes de persuadir-nos a absorver honestamente essa experiência e escutar outras idéias diferentes das nossas, ficamos abertos a um grande conjunto de informações que não havíamos examinado cuidadosamente antes.

Por exemplo, podíamos analisar a descrição científica: o álcool é uma droga que afeta a mente e não um líquido bom para matar a sede. Aprendemos que a droga é encontrada não somente em bebidas, mas também em alguns alimentos e remédios. E agora, quase todo dia, lemos e ouvimos sobre uma nova descoberta de que esta droga produz mais um tipo de dano (ao coração, ao sangue, ao estômago, ao fígado, à boca, ao cérebro) antes insuspeitado.

Os farmacologistas e outros especialistas em efeitos de drogas dizem que o álcool não pode ser considerado totalmente digno de confiança e inofensivo, seja usado como bebida, estimulante, tônico, sedativo ou tranqüilizante. Mas não leva, por si mesmo, diretamente ao dano físico ou à degradação mental em todos os casos. Aparentemente, a maioria das pessoas que o usam podem faze-lo jocosamente, sem prejuízo para si ou para os outros.

Beber verificamos, pode ser visto como a ingestão de uma droga; embriagar-se como tomar uma dosagem excessiva. O mau emprego desta droga pode, direta ou indiretamente, conduzir a problemas de todos os tipos – físicos, psicológicos, domésticos, sociais, financeiros e vocacionais.
Em vez de pensarmos de preferência no que a bebida faz em nós, começamos a observar o que ela de fato faz com certas pessoas.

Verificamos que qualquer pessoa que tenha qualquer tipo de problema relacionado com a bebida pode ser vitima da doença chamada “alcoolismo”. Esta doença ataca sem considerar, idade, crença, sexo, inteligência, raça, saúde emocional, ocupação, situação familiar, constituição física, hábitos alimentares, status social e econômico ou o caráter geral. Não se trata de quanto ou como se bebe; quando ou por que, mas de como o beber afeta a vida. Trata-se de saber o que acontece quando se bebe.

Antes de podermos reconhecer a doença em nós mesmos, tivemos de desfazer-nos deste velho e desgastado mito; seria um sinal de vergonhosa fraqueza confessar que não podíamos mais controlar a bebida (mesmo que jamais o pudéssemos).

Fraqueza? Na verdade, exige bastante coragem olhar a dura verdade sem pestanejar, sem nada poupar, nada enfeitar, sem desculpas e sem nos enganar. (É inconveniente gabar-se mas, francamente, muitos de nós acham que, na arte de enganar-nos a nós mesmos, éramos campeões mundiais).

O processo de recuperação do alcoolismo também tem sido toldado por conceitos errados. Como milhões de outros que já viram uma pessoa beber até morrer, já nos perguntamos por que o bebedor não emprega sua força de vontade para parar de beber. Essa é outra idéia ultrapassada, mas que persiste porque muitos de nós fomos expostos muito cedo na vida a algum modelo de superforça de vontade. Talvez houvesse a lenda da família ou da vizinhança a respeito do bom velho Tio João. Conhecido como libertino e devasso durante anos, de repente abandonou o vinho, as mulheres e a música, com a idade de 50 anos, e transformou-se num modelo de decoro e retidão que jamais tocou numa gota daí em diante.

A idéia de que podemos fazer o mesmo, quando estivermos prontos, é uma perigosa ilusão. Nós não somos outras pessoas. Somos apenas nós mesmos (também não somos o vovô, que bebia um litro por sai até os 90).
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Já está bem confirmado que a força de vontade, só por si mesma, é mais ou menos tão eficiente para curar o alcoolismo como para curar o câncer. Muitos de nós tentamos faze-lo sozinhos na esperança de controlar nossa bebida ou parar. Contudo, não obtivemos sucesso duradouro em nenhuma das duas tentativas. Mesmo assim, não foi fácil admitir que precisávamos de ajuda. Isso, também, parecia sinal de fraqueza. Sim, estávamos sendo levados opor outro mito.

Finalmente, porém, nos perguntamos: Não seria mais inteligente procurar e valer-se de uma força maior do que a nossa em vez de persistir em nossos vãos esforços isolados, após terem repetidamente se revelado inúteis? Não achamos que seja inteligente tentar enxergar no escuro, quando se pode simplesmente acender uma lâmpada e usar sua luz. Não ficamos sóbrios só por nossos esforços. Essa não é a maneira que aprendemos para ficar sóbrios. E a alegria completa de viver sóbrio não é, igualmente trabalho de uma pessoa.

Quando pudemos observar, mesmo temporariamente, algumas idéias novas, diferentes das já arraigadas em nós, tínhamos começado a dar um passo decidido em direção a uma nova vida, mais saudável e feliz.

Aconteceu exatamente assim a milhares de nós que acreditavam piamente não ser possível.